A felicidade da luz, de António Osório

Por Pedro Belo Clara



A recomendação literária para o presente mês irá partilhar com todos vós, caros leitores, o novo trabalho de António Osório, lançado seis anos depois da primeira edição de Concerto Interior, também este um título merecedor de uma atenta abordagem de nossa parte, exposta há já algum tempo atrás neste mesmo espaço (ver o final deste texto).

Ao invés do que é expressado nesse último livro, nesta obra o autor retorna ao estilo que o celebrizou e através do qual com maior frequência se expressou: a poesia. É um livro breve (vinte e um poemas), contando com um prefácio de acuradas visões assinado por Pedro Mexia e, no seu término, com a reprodução integral da entrevista que em 2004 Osório concedeu à jornalista Maria Augusta Silva, posteriormente incluída numa obra da entrevistadora. Para que se não pense que a inclusão só se deveu ao curto número de páginas que o livro apresentaria caso tal presença estivesse omissa, esclarece o próprio autor que o merecimento deveu-se «à qualidade excelente das perguntas, reveladora de um profundo conhecimento da minha obra e da sua grande sensibilidade». Após a sua leitura, decerto que os nosso amigos leitores concordarão em pleno com a decisão do poeta.

O livro encontra-se dedicado à esposa do autor, Maria Emília, a sua já falecida companheira de sempre. E logo na frugal dedicatória tropeçaremos na essência mais pura de todo o livro, na raiz da qual a pequena árvore de belos frutos que é singelamente se ergueu. Pois a obra revelará as engrenagens do processo de luto do seu próprio autor, uma conversa elaborada com a certeza da palavra dita chegar ao cais esperado («Não tenho ido ver-te / no Cemitério. Prefiro / falar-te deste modo», “O Cemitério”), ao mesmo tempo representando um caminho pessoal que, passo a passo, extrapola quaisquer etapas pré-definidas pelos ditames das altas estâncias das ciências psicológicas, deambulando ora pela aceitação do sucedido ora pela sua negação e até pela revolta erigida contra as misteriosas forças que operam sem qualquer influência humana. No fundo, se os colocarmos num contexto mais alargado, veremos como estes poemas parecem dever a vida à pequena centelha que já residia no âmago de “A Dor que regressa”, um dos últimos poemas que o autor partilhou publicamente aquando do falecimento da esposa («Covas abertas / na terra espessa e dolorosa. / Não te queria aí – sai, / meu Amor, regressa»).

Não será a primeira vez que António Osório recorre a este tema em seus trabalhos. Basta que nos recordemos do poema dedicado ao seu pai, “In memoriam”, presente em A Raiz Afectuosa, de 1972 («Ao lado do corpo de meu Pai / chorava esta pobre carne. / (…) / Assim te amo agora sem lágrimas»), e do belíssimo “Mãe que levei à terra”, lançado em A Ignorância da Morte, de 1978, provavelmente dos mais comoventes e elegantes poemas do género escritos em Portugal («Mãe que levei à terra / como me trouxeste no ventre, / que farei destas tuas artérias? / (…) / Que fizeste do teu sangue, / como foi possível, onde estás?»). Contudo, para o assunto que agora nos importa, deste livro não poderemos dizê-lo traçado ao gosto de uma elegia completa, embora as linhas elegíacas sejam notadas em determinados momentos. Será, portanto, um desabafo íntimo que irrompe duma poesia delicada e de intenção confessional, onde desejos tecidos por um apego ainda não digerido se manifestam no auge da sua ilusória liberdade, por mais infértil que possa ser a terra onde se plantaram.

A influência do catolicismo e de suas premissas no pensamento do autor é deveras inegável, sendo, como se esperaria, um aspecto que nestes poemas não permanecerá oculto. O exacto momento onde descortinamos essa presença é efectivamente um que também encontra o seu suporte no já referido poema “A Dor que regressa”. A dada altura, é-nos confessado: «Não quero, meu Amor, / que sejas cremada». Embora não nos seja facultada a reacção do outro interveniente, pelo modo passivo como se compõe o verso somos levados a especular se um dado pedido terá sido proposto nesse sentido. Em “A greta”, poema desta obra, obtemos a suspeita de que certos desejos finais talvez não tenham sido totalmente respeitados ou cumpridos, embora o que para o caso mais importa será, como antes dissemos, a vincada influência da crença católica na elaboração da poesia de Osório:

Um dia alguém encontrará
a greta de saída, e procurará
uma estrela ou um vento.
(…)
Os cremados não escaparão,
porque não lhes respeitaram o corpo,
e as cinzas não podem fugir.

Crenças e ditames religiosos à parte (felizmente escaparam-se os dogmas), se desejarmos compreender melhor o global deste trabalho nada como mergulhar a fundo na oferta dada pelo poema inicial. Ora vejamos:

Volta, volta
logo que possas.
E que o Sol
abençoe as tuas raízes.

Trata-se do poema “O retorno”, onde de um modo terno, quase melancólico até, um óbvio pedido é feito, repetido em estilo de mantra budista durante a curta extensão do livro, terminando a respectiva peça na dolorosa beleza dos seguintes versos:

Procura o nosso Tempo.
Pede-lhe que seja generoso.
Não te deixes desfazer:
Volta, volta serena.

Fala-se em tempo e, na verdade, ele, o Tempo, assim escrito com a devida maiúscula, assume-se como uma palavra-chave no entendimento de toda a obra, um ente sem rosto e de jugo imperioso «que nos quer / bem e mal» (“O Tempo”), um pássaro esquivo em eterna fuga pelas páginas deste livro e, é claro, pela frágil vida dos Homens, habitantes temporários de um também frágil mundo, eternamente sujeito ao câmbio das suas estações, à imutável lei do nascimento e da morte:

Deus não podia ter feito
este mundo: o Tempo
(…)

porfia em sobrepor-se.

Tudo isto é dele.
(“Este mundo”)

A relação com este elemento é algo ambígua, diga-se, uma vez que é graças à sua obra que as flores outrora plantadas pelo objecto preferido do discurso poético são hoje um «perene equilíbrio», uma «milenar elegância» (“As hortênsias”). É o Tempo que madura o crescimento e molda a forma de cada ser, do mesmo modo com que permite o seu declínio – as implacáveis leis da matéria.

Este trabalho povoa-se igualmente de muitos poemas que apontam para determinados lugares, sublinhando assim a importância dos espaços em foco, quer seja através da recordação («Dias tão felizes!», “Galiza”; «Vejo-te em Lisboa / e Florença. Faziam-te / feliz, mais bela», “As cidades”) ou da enfatização do nome de certos objectos, o que lhes confere uma dimensão individual acrescida, através da qual se torna possível entender quem deles fez sua pertença, por ser impossível alguém passar por um lugar ou possuir um objecto sem nele deixar algo de si («Vê as árvores, / as que foram tuas», “O retorno”). Adivinha-se tudo isto logo pelo constante recurso, no título de cada poema, aos artigos definidos na sua forma singular e também plural (“A” / “O”; “As” / “Os”), uma nova tentativa de ancorar uma certa imagem, de trazer para junto do sujeito poético a presença de quem fisicamente o deixou, alimentando assim a memória até à sua exaustão, para que a mesma, tão precioso sobejo, não empalideça no abandono das desoladas margens do esquecimento.

Porém, um fenómeno natural que atingiu as duas brancas flores que à porta de casa o poeta plantara irá revelar-se um catalisador de esperanças: «Flores cantantes, esplêndidas, / celebrando a ressurreição» (“Os dois jasmins”). Não obstante, existem evidências por demais árduas de disfarçar. Então, será certo que a insistência não passará de uma tola crença estimulada por uma fé cega. Mas como calar os apertos tão vívidos do coração? Nesses instantes, o quão tentadora a fantasia não se revelará diante da crueza da realidade? A um dado momento, há que dizê-lo, torna-se comovente a insistência do autor: «Quando voltares, conta-me / aquilo que sofreste» (“O rio Alvor”). Como não tê-la, após uma vivência tão cheia e plena? – «A felicidade da luz, / a alegria de termos / tudo próximo e jovem». Após dias e dias de imensa partilha na intimidade de um amor irrepetível? – «Tantas vezes / dormíamos abraçados. / Sonhando / fazíamos um novo filho» (“A flor nativa”).

Assim, cremos que se torna pertinente a seguinte questão: haverá bálsamo capaz, se não de sarar, somente de amenizar tão profundas feridas? De aliviar o peso terrível de tão sentida ausência? A própria arte e seus meios de expressão permitem um vislumbre da resposta (“O primeiro retrato”):

Aos dezanove anos
Dürer pintou
no seu primeiro quadro
o rosto do Pai.

(…)
Está viva,
depois de cinco séculos.
E não teme a morte.
(Assim fosse eu contigo.)

O confronto com o abismo da morte traz sem dúvida a lume inúmeras perguntas, inúmeras incertezas. A partir dessa fermentação crescerá um temor que desesperadamente fará o ser, por todas as suas forças, procurar um solo seguro para prosseguir no que ainda sobra da sua caminhada. Existem, claro, escapes que o próprio decorrer da existência material vai proporcionando, como o nascimento de novos membros na família. O poema “A bisneta”, tecido por uma ternura quase infantil, de tão delicada e inocente a matéria que o compõe, permite essa mesma assumpção:

Dá força ao bisavô
para ele viver mais anos.
Doce ternura.
Obrigado, minha flor.

Poder-se-ão, de facto, amenizar alguns agudos latejos interiores, mas não se julgue extinto o inconformismo que no autor parece ser tão natural quanto uma maçã pendendo de um ramo de macieira. Afinal… :

O protesto está
acima da resignação.
Eu aguardo-te
como um humano milagre,
possível depois
de tanta ansiedade.
(“O Cemitério”)

Mas falávamos de arte. E será realmente nela, ou mais concretamente, no ofício que Osório paralelamente à sua profissão de advogado desenvolveu, a poesia, que um novo e tremendo impulso encontrará a sua força maior. O poema que o comprova, “A consolação da poesia”, derradeira arma contra a mais proeminente ameaça da morte, o olvido, é agora reproduzido na sua totalidade:

Não gosto dos silenciosos
cemitérios. Os Gregos
e os Romanos tinham
a acompanhá-los,
ao longo das estradas,
uns versos inscritos
na pedra tumular,
que tantas vezes
os expunha como seres
orgulhosos do que tinham sido.
Acreditavam na poesia,
nunca na morte.

Fatigar-se-á, é certo, um braço que tantas vezes se ergue contra os esconjurados desígnios dos deuses (assim se assemelharão a todo o ser que se afoga nas pungentes vagas da dor). Nesses instantes de bonança, mesmo que breves, uma luz terá a sua apaziguadora vez (“A felicidade da luz”):

A felicidade da luz é a felicidade
do sangue que percorre
o nosso corpo, e dá tudo o que tem.
A luz é feliz
porque acompanhou
a infância do mundo.
(…)
(…) mas a luz
continua no alto
prestável, soberana.
(Que pena, meu amor,
que nela não estejas.)

É este um livro de perpetuação de memórias, de salvaguarda do vivido em prol duma aberta vivência ao tempo que se diz presente. Nascido de um luto sentido, observámos como ao longo da obra o sujeito poético oscila entre o protesto, a esperança da quimera e a aceitação. O seu tecido é, portanto, de uma singeleza ímpar, como é habitual na poesia de António Osório, composto por versos limpos brilhando numa simplicidade deveras enternecedora, comovente até em dados momentos. Tarefa que nunca se afigura descomplexa, sublinhe-se, pois bem se sabe a facilidade com que o simples resvala para o banal. E a poesia de Osório, apesar da candidez as linhas e dessa frugalidade tão encantatória, jamais permite o micróbio da banalidade na extensão de um verso. É também este um título dotado de uma certa inclinação melancólica, como a luz breve dos fins de tarde de um já serôdio outono, onde o novelo verbal vai-se desenrolando até que do seu abandono se possam formar, caso esteja atento o olhar que o observa, os contornos do mais humano dos espíritos. Não obstante ter já o autor passado a barreira das oitenta primaveras, somadas todas as parcelas que para aqui importam será impossível não cultivar, com acesa curiosidade e bem alimentado carinho, a esperança de que o próximo livro ditado por este coração tão gentil quanto inconformado não tarde o seu nascimento.

Existe uma lei
de bondade inicial,
e outra de final rejeição:
é este o absoluto enigma.

(“A bondade inicial”)


Nota final: Por tema de curiosidade, reproduzimos agora um brevíssimo excerto da entrevista que se anexa a este livro, escolhido apenas pela relevância literária que considerámos residir nesse preciso momento do produtivo diálogo:

Com a sua poesia procura ir ao encontro da luz?
Aspira a isso, embora não ignore as trevas. Mas o importante da nossa vida não é a noite, é o dia.

Do movimento das constelações faz parte a noite…
Há um verso meu: «Anda ver, Lucrécio, as tuas constelações. / Na noite bebem, animais vagarosos». De facto, as constelações bebem na noite; a noite faz parte da vida de todos os homens, porventura para sabermos amar melhor a luz.

«À sabedoria da dúvida preferem alguns a sabedoria da busca», refere num dos seus aforismos mágicos. Esse o caminho?
É esse o caminho que tenho percorrido. Mas apesar da busca há muitas, muitas dúvidas que persistem. O mistério da criação… Às vezes chego a pensar que Deus se barricou nas constelações. Por temor aos homens.

Para o poeta, os textos bíblicos são «um bem de raiz»?
Cada um escolhe os seus textos bíblicos. Génesis, Livro de Job, Provérbios, Cântico dos Cânticos, Evangelhos, Juízo Final são os meus textos. Bens pertencentes, sem dúvida, às nossas raízes. Uma das mais belas criações sobre os enigmas de Deus e dos homens.

Georges Bataille faz notar que a humanidade visa dois fins: vida e morte. Ao intensificar a vida na sua poesia será a maneira mais eficaz de fugir à morte?
Uma forma de a enfrentar. A minha poesia é a de alguém que profundamente abomina a morte, mesmo sendo uma poesia que evoca muitos mortos: familiares, amigos, grandes poetas, pintores. Não quero, contudo, ser um cúmplice da morte.

(Maria Augusta Silva in “Poetas Visitados – Entrevistas e Poemas Inéditos”, Edições Caixotim, Porto, Outubro de 2004)

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Pedro Belo Clara é colunista do Letras in.verso e re.verso. Por decisão do editor do blog, nos textos aqui publicados preservam-se a grafia original portuguesa. Nascido em Lisboa, Pedro é formado em Gestão Empresarial e pós-graduado em Comunicação de Marketing. Atualmente centrado em sua atividade de formador e de escritor, participou, com seus trabalhos literários, em exposições de pintura e em diversas coletâneas de poesia lusófona, tendo sido igualmente preletor de sessões literárias. Colaborador e membro de portais artísticos, assim como colunista de revistas e blogues literários, tanto portugueses como brasileiros, é autor dos livros A jornada da loucura (2010), Nova era (2011), Palavras de luz (2012), O velho sábio das montanhas (2013) e Cristal (2015). Outros trabalhos poderão ser igualmente encontrados no blogue pessoal do autor – Recortes do Real; Pedro organiza também o Uma luz a Oriente, onde partilha poemas de origem oriental.

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