Romance 11 Livro 18, de Dag Solstad


Por Pedro Fernandes



Há um seleto grupo de escritores da literatura nórdica contemporânea fundamentais para se compreender os exercícios de reinvenção praticados com a narrativa e a forma romanesca; há nesta constatação um eco feroz de uma observação de mesmo sentido realizada por António Lobo Antunes quando perguntado numa entrevista sobre o que há de novo e significativo sob o sol da literatura, expressão logo tomada aqui como referência ao romance, gênero que melhor tem praticado o escritor português. 

É que em curso o tempo dos exercícios narrativos para as composições de cunho psicológico – estes cuja contribuição do autor de Os cus de Judas, sobretudo depois do ciclo de obras sobre a ocupação colonial em África, é inegável – ou, para citar outra inovação, mas esta não terá alcançado o fôlego da primeira, o tempo do nouveau roman francês, pouco ou quase nada tem sido praticado ao ponto de significar uma nova guinada a arte de compor romances. 

A afirmativa não é catastrófica porque não significa que no atual tempo não se tenha escritores interessados em reanimar as forças de uma das formas de contar história que melhor tem traduzido tempo e existências; pelo contrário, entre pelegos e importantes nomes, a lista é infinita e sabe-se bem que muitas das inovações ainda que estejam ao nosso alcance sempre acabam despercebidas no momento mesmo em que se apresentam. Esta observação leva em conta, por exemplo, as raízes de outra corrente criativa que ficou atribuída – ou pelo menos é  o escritor que sempre se pensa quando nela se fala – quando sob nossos olhos brasileiros estavam dedicados à feitura inovadora em questão: o caso aqui citado é o do realismo fantástico praticado por Murilo Rubião e só reconhecido pelo trabalho de Gabriel García Márquez.

Mas, o caso de Dag Solstad não se trata da criação de um movimento estético literário e tampouco da reinvenção dos protocolos da narrativa. Trata-se de uma ressignificação da objetividade – essa característica desde sempre apresentada pelos manuais simplistas que qualificam a prosa narrativa em relação com a poesia como sendo um trabalho de linguagem cujo interesse é a não a subjetivação da expressão literária uma vez que é seu interesse construir representações a partir do universo apalpado pelos sentidos físicos da existência. Claro que essas compreensões carregam perigosas armadilhas e não convém tentar desarmá-las nesta ocasião porque não é este o motivo do texto. Fiquemos apenas com a conclusão de que essas classificações simplistas sobre gênero e formas literárias não findam em reduções tomadas como verdades absolutas. 

Quando se diz que a literatura de Dag Solstad ressignifica a objetividade, o leitor deve levar em consideração que sua obra não adere à vertente de cunho psicologicizante assumida pelo romance desde Marcel Proust. Em Romance 11 Livro 18 essa observação já se mantém desde o título que nomeia a obra e se espraia numa narrativa marcada pelo tom afirmativo e breve, pela frase seca e cortante, pela repetição, sem refazer o dito, seja da sentença seja da situação, e pela concisão com que as situações-tema da narrativa são abordadas: os rodeios para apresentar o que desencadeia determinada ação de outra, por exemplo, são trabalhados no silenciamento e contínuo adiamento para, quando menos o leitor espera, encontrar com seu desfecho ou sua possibilidade. 

Por um lado, em relação a essa última característica, o leitor pode se cansar ou se aborrecer com o narrador – vezes a narrativa se reveste de um torpor. Mas Solstad parece ter o controle certo em fazer, logo depois, com que essa condição amenize e o leitor vê-se preso e interessadíssimo em não largar o fio da narrativa pela curiosidade de saber até onde, qual o limite, de determinada situação; seu narrador desenvolve com o narratário um jogo de armadilhas felinas, num aperta e afrouxa, isto é, quando percebe que o marasmo pode levar o leitor a fugir, sorrateiramente lhe prende numa situação da qual já conseguirá sair ileso. 

É o caso, para exemplo, sobre um segredo sustentado entre Bjørn Hansen, protagonista da história narrada em Romance 11 Livro 18, e o médico Schiøtz levantado em certa altura da narrativa – quando a primeira personagem vê-se entregue à mesmice da existência anos depois do fim do segundo casamento. O plano aparentemente sério demais para ser executado na pequena cidade de Kongsberg não é revelado diretamente em nenhuma ocasião da narrativa, deixa-se esquecido por longo tempo tão logo entra em cena o filho de Bjørn do primeiro casamento, e o leitor ficará tão pasmo como o amigo da personagem quando se vê diante de outra personagem que não o Bjørn fiel funcionário cumpridor de seu trabalho de cobrar os impostos para o Tesouro Municipal. Uma negativa tal qual a assumida pela famosa personagem de Herman Melville? 

Se olharmos que este romance constrói uma acurada crítica sobre o atual modelo burocrático de existir e como a constatação de um mergulho do homem num universo em desencanto, logo entenderemos que sim. Ainda que não pareça, a atitude de Bjørn constitui-se numa alternativa de romper com o repetitivo e o apagamento total da existência – ainda que seja algo muito mais grave que a recusa de Barthleby. 

Possivelmente não é uma atitude que reanime de uma vez por todas a vida – se a princípio é isso que parece: um plano para dar emoção à existência – porque não está na mera reinvenção uma saída do lugar-comum visto que o desencanto parece ser um espírito que ronda o homem desse tempo onde quer que esteja: “– É por mero acaso que estou nessa cidade, sabe, ela nunca significou nada para mim. Também é mero acaso que sou o tesoureiro daqui. Mas se eu não estivesse aqui, estaria em outro lugar e viveria do mesmo jeito. Só que não posso me conformar com isso. Fico realmente revoltado quando penso nisso”, diz Bjørn Hansen ao amigo médico, num dos desabafos de pura melancolia frente a existência. “A existência nunca respondeu a minhas perguntas – acrescentou. Imagine que vou viver sem estar nem perto do caminho onde minhas necessidades mais profundas podem ser vistas e ouvidas. Quero morrer em silêncio, isso me assusta, sem uma palavra nos lábios, pois não nada a dizer”.



Bjørn Hansen executa seu plano a partir da relação de estreita confiança que constrói o amigo Schiøtz e não deixará de se perguntar – logo depois da consumação por que razão não se vê capaz de se desfazer da atitude um bocado teatral dirigida pelo amigo. Romance 11 Livro 18 parece, com isso, se concretizar como uma narrativa sobre o quanto somos motivados pelo gesto, o interesse e a condição alheia. O leitor vê isso na atitude impulsiva do protagonista que de uma hora para outra encerra um casamento, abandona o filho de dois anos, para ir ter com uma amante simplesmente porque esta lhe aponta um ultimato entre ela ou o casamento de Bjørn; depois o envolvimento de Bjørn com o teatro – que resulta numa frustração profunda pela incapacidade de viver outra vida com naturalidade no palco, isto é, sem deixar transparecer que é um guiado por quem dirige a peça; mais adiante é a observação aguda que constrói em torno da vida do filho, quem escolhe, depois do Serviço Militar, ir para Kongsberg cursar Optometria simplesmente porque o melhor amigo o havia convencido de que esta era a melhor atitude para os dois num mercado de trabalho interessado sempre pelas mesmas profissões. Isto é, Romance 11 Livro 18 é sobre a cumplicidade entre os homens – essa capaz de responder pelos destinos individuais e coletivos, como é o caso das convenções sociais. Na relação que mantém esses episódios na elaboração da tese que se apresenta nesta narrativa, o leitor perceberá está diante de um jogo de montar, em que uma peça pode revelar a outra até que no final se possa vislumbrar com alguma nitidez o objeto fabricado pelas relações.

Romance 11 Livro 18 não deixa de compreender uma extensa variedade de temas concernentes ao homem contemporâneo: a fragilidade das relações amorosas, o isolamento do homem, o estiolamento de suas identidades, a monotonia de existir, o desencanto frente uma realidade já improdutiva de significados à existência, a extrema solidão, o ressecamento das expressividades de afeto, a cegueira que favorece o acomodamento da vida (é sintomático aqui o interesse de Peter, o filho de Hansen, pelo trabalho de confecção de lentes para os que precisam porque têm algum problema com a vista e como o interesse pelo fabrico do óculos é cada vez mais envolto por outras questões mais superficiais, quais sejam as impressões buscadas pelo design na construção de uma personalidade variável de acordo com os modelos de lente, sejam as tecnologias que buscam construir uma estética da posições de ver). 

Ou seja, o leitor encontra nesta obra de Solstad um trabalho estético com a linguagem ao mesmo tempo que um diversos apontamentos sobre a sociedade e o homem contemporâneo, que, pela suas complexidades jamais devem passar despercebidas pelos escritores atuais se compreendemos que a literatura é, em grande parte, uma possibilidade de questionamento e reflexão ativa sobre o lugar onde se insere.

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