quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

O quarto de Jack, de Lenny Abrahamson

Por Pedro Fernandes


Vez ou outra é bom meter-se com uma peça de arte sem ter experimentado passar pela necessidade de saber algum maior detalhe sobre ela. Essa experiência no escuro é muito válida por dois motivos: obter uma leitura mais individual sobre o objeto ou passar pelo sentimento da descoberta. Foi isso o que aconteceu com a primeira vez que vi O quarto de Jack. O filme, eu sabia, é uma adaptação do livro com o mesmo título de Emma Donoghue, publicado no Brasil pela Editora Record; e mesmo assim o que eu sabia sobre a obra em tinta e papel era o título e a imagem da capa vista algures no Instagram. Mas não sabia de mais nada.

Quando depois de alguns minutos de desenvolvimento da trama tive a impressão de estar preso num universo forjado pela força criativa de uma criança; imagem que não posso tomar como desfeita, mesmo depois de chegar na outra margem da narrativa. Mas, extremamente sugestivo, o filme de Abrahamson, aos poucos substitui o que poderia ser uma simples história de fantasia e de encantos por um contínuo pesadelo e a luta dessas personagens em sair dele.

Na primeira cena de abuso sexual a Joy – no quarto estão ela e o filho – logo fui levado para os noticiários de uma época quando os assistia com certa frequência na TV sobre um caso na Áustria em que uma jovem fora mantida em cativeiro por longos anos, enquanto sofria toda sorte de abusos. E é esse acontecimento, de fato, o suscitado pela narrativa de O quarto de Jack.

Há várias cores usadas por Abrahamson para dar forma a esse drama: as de tom poético favorecidas pela presença do ativo menino de cinco anos e sua capacidade de observação e descrição marcadamente criativa pela ligação atenta que mantém com o seu entorno; as de tom dramático que envolve essa condição de subjugada da mulher cujo reflexo esbarra na criança; e todo o processo de renovação da esperança sobre a vida (enquanto outros buracos dramáticos se abrem) num momento em que, para um, o universo se reduz ao cativeiro, para outro, vem-lhe as cobranças sobre o que poderia ter sido feito para que o Jack não passasse pelo que passou.

A grande força dessa obra é a de colocar em diálogo esses diversos tons sem fazer com que a melodia (a narrativa) destoe e pareça ao invés de um texto com dois momentos, um momento com pelo menos duas situações; sendo que, o traço que os une é o do claustro, espaço do qual as duas personagens principais do enredo só se libertarão quando fizerem sua travessia de retorno ao lugar que os ameaçaram durante parte importante de suas vidas.

Por falar em espaço é essa categoria sobre a qual a narrativa está mais atenta no intuito de reafirmar os estágios porque passam as personagens. Por exemplo, é notória a fusão entre espaço e indivíduo quando os dois estão no cativeiro – é como se as coisas aí fossem uma extensão das personagens; noutro momento, elas se mostram como formas distanciadas enquanto a quantidade volumosa de luz e da alvura do espaço cobram do espectador a reflexão sobre um processo de ressurreição ou de retorno à vida dessas personagens; por fim, é o ambiente familiar, tomado por toda sorte de subterfúgios para dizer uma condição de conforto e de proteção. Essas duas, entretanto, são favoráveis à manutenção das limitações impostas pelo primeiro espaço porque imaginariamente aquele sentido de fabulação é invadido por uma dimensão mais rasa de compreensão sobre o entorno, marcadamente grandioso e excessivo.

Agora, se o filme atenta para essas nuances de construção espacial e consegue oferecer um fio que seja de relação entre os momentos distintos da narrativa, peca por não explorar isso de maneira mais relevante para o espectador e a narrativa aparecerá com as incisões entre um e outro momento muito abertas. Isso ocorre talvez pelo interesse que ganha forma desde a suspensão em parte fabulação inocente da criança para dar lugar, por entre suas frestas, o drama e porque este se reveste de um tônus documental, que é o do fazer valer um pacto de realidade assumido entre a obra o quem a vê. Esse tom tolda todos os outros e é responsável pelo ponto baixo de uma narrativa que excessivamente dramática não carecia de maneira alguma tentar se passar pelo crivo comum das outras produções que é o famoso “baseado em fatos reais”.

Digo excessivamente dramática porque me pergunto quem não teria humanidade para sentir-se inebriado numa história cujo foco é essa estreita relação assumida entre mãe e filho, no valor primordial que essa ligação significa, na coragem de um menino em, com todas as limitações impostas pelo cativeiro, levar adiante o desejo não seu, mas dela, de romper com esse universo de clausura. 

No mais, é óbvio que nem toda peça artística exige de quem vai experimentá-la uma total inocência sobre seu conteúdo. Mesmo O quarto de Jack o mais interessante será o espectador compreender o como as situações aqui apontadas são construídas e seu o desfecho forjado pela narrativa; mas a experiência de ver essa obra às cegas é totalmente fundamental porque se ergue outras perspectivas que as testemunhadas por outras visões e porque as surpresas geradas a partir das descobertas também ganharão outra dose de impacto. Há peças e peças de arte e cada uma exige uma posição nossa. No caso desse filme ele poderá não parecer o mesmo se o espectador for munido de uma ampla carga de informações.