segunda-feira, 13 de junho de 2016

Viagem à origem da identidade

Por Karl Ove Knausgård



Este ano cumpre-se um século da aparição de Retrato do artista quando jovem. A história de seu nascimento é longa e tortuosa – Joyce começou o romance em 1904 –, e o caminho até sua canonização como um dos romances fundamentais da literatura ocidental tampouco foi curto: em resenhas daquela época se escreveu sobre “cloacal obsession” (obsessão cloacal) e “águas sujas”, algo que nos é estranho hoje em dia, quando talvez sejam os aspectos psicológicos do livro, a luta que se arma na alma do jovem protagonista, o que mais chama a atenção. O que então resultava desconhecido no romance é o que hoje estamos acostumados, enquanto que aquilo que então estavam acostumados é o que hoje é esquecido dele.  A razão pela qual o romance segue vivo, ao contrário de quase todos os demais romances publicados em 1916, é simplesmente porque Joyce buscou nele uma linguagem idiossincrática, uma linguagem própria para a história que queria contar sobre o jovem Stephen Dedalus e sua infância e adolescência em Dublin, a que o essencial era o singular, a que a questão sobre o que é individual era a aproximação de si.

A primeira vez que ouvi falar sobre James Joyce tinha 18 anos, trabalhava como professor substituto num pequeno povoado do norte da Noruega e queria ser escritor. Devido essa ambição, havia assinado uma revista literária, e num dos números que recebia pelo correio encontrei uma série de artigos sobre as obras mestras do modernismo, entre as quais figurava o romance Ulysses, de James Joyce. Como modernismo eu me imaginava vagamente como algo reluzente e maquinalmente futurista, e ao ler o início do romance sobre essa torre na qual vivia o jovem protagonista, Stephan Dedalus, me imaginei numa espécie de mundo medieval de castelos e torres, com os carros e aviões da década de 1920, povoado por homens jovens que citavam obras em latim e grego; noutras palavras, algo infinitamente distante do mundo em que me encontrava, com suas docas e barcos pesqueiros, suas montanhas escarpadas e seu mar gelado, seus pescadores e trabalhadores, seus programas de televisão e seus enormes aparelhos de som nos carros. Eu sonhava com sair dali, queria ser escritor e ler essa fantástica obra, ser iluminado pelo seu esplendor. Naquela época, a literatura representava para mim o outro lugar, e minha imagem de Ulysses estava influenciada pelos livros que havia lido até então, os excessos da infância nas imaginações francesas de Júlio Verne, por exemplo, os incríveis clássicos como O conde de Monte Cristo, Os três mosqueteiros, Ivanhoé ou Sem família, mundos literários nos quais havia vivido a metade de minha vida e que para mim constituíam a essência do literário. A literatura era o que eu não era. Outra de minhas imagens era que o essencial se encontrava no centro, que ali tinha só lugar o mais importante, e que tudo o que acontecia na periferia carecia de importância e não servia como tema literário. A história era a dos outros, a literatura era dos outros, a verdade era a dos outros.

Três anos depois estava sentado na sala de leitura da Universidade de Bergen lendo Ulysses em inglês. Então, as vivências literárias da infância e da adolescência haviam se desfeito e a ideia ingênua da essência da literatura havia sido corrigida, mas a ideia de que pertencia aos outros, aos que sabia e estavam capacitados, continuava viva. Jamais relacionei Ulysses como meu próprio mundo, com as mesas e jovens que me rodeavam – embora uma das cenas do livro tinha lugar numa biblioteca, entre estudantes –, por não dizer as ruas pavimentadas, os saguões e os becos, os mostruários das lojas e os cartazes publicitários, os guarda-chuvas, os carros de bebê, os abrigos e as jaquetas. Não, Ulysses se desenvolvia em linguagem, e a realidade que refletia tinha lugar no país chamado modernismo, muito dentro de um lugar do continente da literatura. Li a obra da mesma maneira que um arqueólogo cava uma relíquia, retirando camada após camada, peça após peça, para logo tentar retirar dela toda uma totalidade com sentido, tendo sempre muito claras minha inferioridade e minhas limitações em relação à obra. Foi como se um estúpido tropeçasse com os restos de Tróia e tentasse entender o que era na realidade o que estava encontrando.

Como tinha que escrever um ensaio sobre Ulysses, li também os demais livros de Joyce, entre eles seu primeiro romance, Retrato do artista quando jovem. Que diferente era essa obra! Onde Ulysses é extremamente disperso, Retrato é extremamente concentrado. Ulysses descreve um dia numa cidade, Retrato descreve vinte anos de uma vida. Em Ulysses abundam as invenções linguísticas, em Retrato abundam... o quê? estados de espírito. Todavia hoje, 27 anos depois de ler pela primeira vez este livro, muitos dos estados de espírito seguem dentro de mim. Os edifícios do colégio na penumbra, molhados pela chuva, o som de vozes infantis por todas as partes, o golpe seco de um pé que chuta uma bola e como esta voa pesadamente pelo ar gris. O odor da noite fria na capela, o som das orações. A família reunida no Natal esperando que seja servida a comida, o fogo ardendo na lareira, as velas acesas na mesa posta, tudo o que existe entre os que estão ali sentados. O pai falando com desconhecidos e as sujas ruas onde se reúnem as prostitutas, as luzes amarelas de gás, o odor do perfume, seu coração temeroso. E os pássaros no céu vespertino sobre a biblioteca voando em círculos, escuros em contraste com o ar azul acinzelado, seus gritos, shrill and clear and fine and falling like threads of silk unwound from whirring spools (penetrantes, finos, claros, que caíam como fios de luz sedosa ao fluir do giro de um rasante).

Retrato do artista quando jovem é um romance de formação. Isto significa que trata de identidade, ou, para ser mais preciso, da origem da identidade, do que nos constrói, de como chegamos a ser quem somos. Essas estruturas são mais ou menos as mesmas para todo mundo. Nascemos dentro de uma família, e, na maneira com que nos recebe, nós também aparecemos ante nós mesmos. Aprendemos uma língua, e embora essa língua não seja só nossa língua, mas pertencer a todos os integrantes de uma comunidade linguística, através dela entendemos a nós mesmos e o nosso entorno, e através dela nos expressamos. Com esta língua alcançamos uma cultura, da qual, queiramos ou não, fazemos parte. Amplia-se o círculo mais próximo, começamos a escola, e através das instituições, a socialização se tornam mais formal, aprendemos sobre nossa língua, nossa cultura, nossa sociedade e à primeira identidade, a familiar, e à identidade de classe da família, se soma a identidade nacional. Nesta tábua de imagens aparece Stephan Dedalus como um católico, irlandês, filho de pequenos burgueses, para na segunda parte do livro voltar-se contra todas essas categorias: não reconhece o nacionalismo irlandês, não reconhece a religião católica, não reconhece a pequena burguesia e não quer ser filho de ninguém.

A cena chave do livro é quando Stephan passeia com seu amigo Cranly e lhe conta que essa manhã discutiu com sua mãe sobre religião, nega-se a receber a comunhão. Cranly não o entende, não pode fazer isso para satisfazer à sua mãe, mesmo não sendo crente? Não pode. I will not serve (Não quero servir), diz. Por que não? Essa é a pergunta mais importante de Retrato do artista quando jovem, e o livro em si, em seu conjunto, é a resposta. Não só somos nossa época, não só somos nossa língua, não só somos nossa família, não só somos nossa religião, não só somos nosso país ou nossa cultura, também somos outra coisa, aquilo com que respondemos a tudo isso. Mas isso o que é, como se manifesta e como se pode descrever, captar, verificar, quando as ferramentas que temos ao nosso alcance formam precisamente parte de nossa época, nossa língua, nossa religião e nossa cultura? Para poder chegar ao fundo do singular, aquele que o descreve está obrigado a romper com o que é coletivo, e isso é o que faz Joyce em Retrato do artista quando jovem, adentra-se naquela parte da identidade para o que ainda não existe uma linguagem, no espaço entre o singular e o coletivo, em todas as oposições mentais e as correntezas da alma que aqui se movem às cegas, e que nós conhecemos como ambientes e sentimentos, a presença não articulada, mais ou menos forte, da alma, aquilo até onde chegamos quando nos entusiasmamos, no que se derrama dentro de nós quando sentimos medo ou desespero. Retrato do artista quando jovem trata disso, da alma de um jovem, e o que faz este livro tão mágico e que é a própria essência da literatura é que precisamente a conquista do que lhe próprio, do singular, para Joyce, único, também é a nós próprio e único. A literatura nunca é dos outros e não conhece nenhum centro, isto é, seu centro é onde ela está. Só se negando a servir, um artista pode servir. Só através de um não pode nascer um livro como Retrato do artista quando jovem, e só através de um não, um livro como Ulysses pode chegar ao seu famoso final, and yes I said yes I will. Yes.

* Texto traduzido a partir da versão em espanhol realizada por Kirsti Baggethum e Asunción Lorenzo.