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Mostrando postagens de 2017

O último a morrer que apague a luz

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Por Toni García Ramón


O mais surpreendente das reações ao fabuloso O conto da aia (Handmaid’s tale em sua versão original) é a majoritária impressão de que nos encontramos ante uma distopia. “Estamos muito próximos”, dizem alguns/algumas, do regime de Gliead, essa ditadura cristã e teocrática, em que as mulheres são tratadas como meros objetos a serviço de um poder supostamente superior. Elas não podem possuir bens, ler ou escrever. Ou pelo menos algumas delas. As mulheres dos altos gerenciadores vivem num mundo distinto, igualmente obscuro mas com um elemento mais permissivo.
E a reação é surpreendente porque Somália, Síria, Arábia Saudita ou Irã já colocaram em prática muitas das políticas que nos parecem meio ficção científica quando vemos a série, mas que não nos provocam nem uma lembrança, ainda que cintilante, no dia a dia do mundo atual. Essa é provavelmente a parte mais terrível do horror que desenha esta série produzida por Hulu a partir do romance de mesmo título da escrito…

O primeiro conto de Ernest Hemingway

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Quando o furacão Irma chegou em Key West, na Flórida, quase arrasou a histórica casa do poeta Shel Silverstein. Mas Brewseter Chamberlain, um escritor e historiador, se preocupava com outra casa desse mesmo bairro. Sua amiga Sandra Spanier, professora de literatura na Universidade Estadual da Pensilvania, também estava nervosa. Não só porque temia por Chamberlain, quem esperava a passagem do furacão em casa com sua companheira, mas porque compartilhavam uma descoberta sobre a qual pouquíssimas pessoas sabiam.
Em maio, ela e Chamberlain encontram o que têm chamado o  primeiro conto de Ernest Hemingway, uma obra sem título e antes desconhecida, em 14 páginas, que escreveu quando tinha dez anos. Estava nos arquivos da família Bruce – velhos amigos dos Hemingway. A professora, responsável pela catalogação das cartas do escritor que começam a ser publicadas nos Estados Unidos em 17 volumes, buscava no arquivo de Key West mais alguma missiva quando realizou a descoberta. Era outubro de 201…

Kazuo Ishiguro, Prêmio Nobel de Literatura 2017

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“Num tempo em que impera a incerteza sobre os valores do mundo, seus líderes e sua segurança”, o escritor britânico Kazuo Ishiguro, galardoado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2017, espera que o feito de alguém como ele a receber esta “magnífica honra” contribua para “alentar, embora de uma maneira pequena, as forças da benevolência e da paz”.
O autor de Os vestígios do dia recorda como soube da recepção do Nobel: “Estava sentado na cozinha, escrevendo uns e-mails e preparando-me para uma refeição matinal, quando meu agente me ligou e disse que acreditava ouvir anunciar que haviam me dado o Nobel. Mas, nestes tempos de falsas notícias, não acreditei até receber o contato da BBC”. E reafirma um discurso comum a outros ganhadores. “Nunca acreditei ser um candidato. Pensava que era algo apenas para os autores mais velhos e isto me fez compreender que já sou um. Foi uma verdadeira surpresa”.
O prêmio para Ishiguro é uma surpresa ainda porque seu nome não figurava nas listas de aposta…

Boletim Letras 360º #240

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Uma semana intensa. Veio com grandes e preciosas novidades do mercado editorial; lançamentos de cair o queixo. E recuperamos aqueles que acompanhamos através de nossa página no Facebook. E, por falar em grandes lançamentos, se preparem que uma nova promoção vem aí.


Segunda-feira, 09/10
>>> Brasil: A poeta e colunista do Letras in.verso e re.verso Fernanda Fatureto apresenta seu novo livro
Ensaios para a queda, título que faz menção ao livro A viagem vertical, de Enrique Vila-Matas é o segundo título de Fernanda Fatureto e é apresentado pela Editora Penalux. O livro dividido em três partes (Travessias, Miragem e Polifonia) reúne poemas que falam da queda humana – o abismo, a condição falha que conduz a humanidade ao seu limite e também à redenção. A poeta dialoga com autores que permeiam seu imaginário poético tais como Paul Celan, Maria Gabriela Llansol, entre outros, em que é possível traçar afinidades. No prefácio à obra o poeta, escritor e jornalista André Caramuru Aubert a…

Lolita, amor e perversão

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Por Rafael Kafka


Lolita não é um romance de amor. Isso é tão óbvio, mas dito com um ar de crítica profunda por pessoas de setores supostamente progressistas que adoram censura baseada em uma leitura apologitiva de obras de arte. O neologismo que emprego aqui serve para designar uma visão na qual as pessoas acham que toda obra de arte serve para enviar uma mensagem grandiloquente sobre a vida, talvez influenciadas demais por livros de Paulo Coelho e filmes de Jim Carrey. O que elas esquecem é que arte é vontade de mostrar algo usando determinada técnica. Nada mais. Mesmo que esse nada mais gere uma série de efeitos e reflexões muito interessantes.
Assim, Lolita não se propõe a ser um romance romântico. Nabokov na verdade nos ajuda a refletir na essência do sentimento amoroso como algo que pode ser bastante pervertido. Pensei nisso quando vi o intenso Love, do brasileiro Gaspar Noé e depois decidi ler comentários sobre o filme em uma rede social. Muitas pessoas dizendo que o filme na ver…

O céu de Lima, de Juan Gómez Bárcena

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Por Pedro Fernandes



“O amor é um discurso, meu amigo, é um folhetim, um romance, e se não for escrito na cabeça, ou no papel, ou quer que seja, não existe, fica pela metade; não passa de uma sensação que imaginou ser um sentimento...” Esta frase não é do narrador de O céu de Lima; é de uma personagem desse romance do espanhol Juan Gómez Bárcena, o bacharel Cristóbal, um missivista por encomenda que vive nas ruas de Lima do início do século XX a escrever cartas para gente diversa, daqueles não alfabetizados e precisam comunicar qualquer coisa por escrito ao Estado ou aos parentes distantes a aqueles alfabetizados mas que não sabem ao certo como dispor no papel seus estados de espírito sobretudo nos casos de fortes amores, especialidade esta pela qual quer ser reconhecido e por isso o gesto que pratica com melhor gosto.
A sentença cética e irônica de Cristóbal vem numa longa conversa com Carlos Rodríguez, quando o jovem rapaz começa a pensar juntamente com o amigo José Gálvez qual o des…

Os ventos (e outros contos), de Eudora Welty

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Por Pedro Belo Clara 


Nascida no estado do Mississípi, durante a primeira década do século passado, Eudora Welty desenvolveu um trabalho sólido e veramente diversificado, o que lhe valeu a digna integração no restrito lote das mais marcantes personalidades da literatura estaduniense do século XX.
Embora se tenha dedicado de forma mais constante à narrativa breve, de igual modo revelou os seus brilhantes dotes na área do romance e até do ensaio, conquistando em 1973 o Prémio Pulitzer com a obra The Optimist’s Daughter (numa tradução livre, “A Filha do Optimista” – obra que até à data ainda não mereceu uma versão portuguesa).
Os temas em regra propostos pela autora, assim como as suas pessoais abordagens ao processo narrativo, não sofreram grandes flutuações de obra para obra. Tendo por base o cenário que frequentemente imprimia em seus trabalhos, assim como o descrever dos costumes da época, Welty evoca traços que facilmente se encontrarão em autores como John Steinbeck, Carson McCull…