A duquesa, de Saul Dibb

Por Maria Vaz



A duquesa é um filme britânico de 2008, baseado em um best-seller de Amanda Foreman sobre Georgiana: uma mulher que, antes de completar 18 anos de idade, casou com o duque de Devonshire, tornando-se duquesa. Na trama, o papel de Georgiana caiu como uma luva na interpretação bem conseguida de Keira Knightley: de uma mulher simpática, sensível e forte ao mesmo tempo, inteligente, artística e espirituosa. O filme histórico conseguiu o óscar de melhor figurino.

Segundo uma visão tradicionalista – e historicamente situada –, todas as meninas nascidas em famílias abastadas sonhavam casar com alguém que lhes pudesse proporcionar uma vida confortável e a ostentação de títulos nobiliárquicos banhados na aparência do status, de pretensa superioridade e do poder de intervenção isso lhes garantia. A educação dessas mulheres era bastante ecléctica, muito embora não pudessem ir além do ‘papel possível’ de mães e zeladoras da casa, encarregadas de dar à luz um filho do sexo masculino que pudesse perpetuar o nome da família e possuir o título, como se de um galhardete se tratasse. Esse papel de mulher costumava incluir, ainda, a elegância (e a renúncia essencial) necessária para aceitar todas as traições do marido – a quem o poder e o cromossoma Y garantiria essa liberdade – e a permanecerem totalmente dominadas, no back stage da personalidade e da popularidade do marido, que poderia, até, deixar um nome na história.

 Isso seria o normal adormecido na mesmice. Contudo, Georgiana não se enquadrava nesse padrão. A educação ecléctica que recebera gerou um espírito gracioso e inquieto, com fome de trocas, cumplicidade e espirituosidades que a sua vida conjugal com o duque não satisfaziam. O duque era um homem introvertido, contido, dominador, de poucas palavras, dotado da obstinação egoísta que o tornava óptimo a emitir imperativos. A relação baseava-se na residência conjunta, na prática (ou submissão) sexual necessária para que nascesse o filho herdeiro e no dever de comparecer em festas e eventos, de forma apreciável, em nome da etiqueta. Quem disse que não há opressão nas classes mais altas? Não podemos, na minha opinião, cair nos chavões a preto e branco de que a opressão reina apenas no binómio riqueza/pobreza. Seria redutor demais. Há opressões em todas as classes sociais. Há costumes opressores que alimentam mentalidades opressoras em ciclos viciosos de normalidades cegamente aceites. 

Ao longo do filme, Georgiana aprende a soltar-se, a dar nas vistas, a viver para si, a ser feliz à sua maneira. Talvez a felicidade venha mais de ‘pequenos nadas’ consonantes com a nossa essência do que com os títulos ou status social. Convivia com as pessoas, participava indirectamente na política, bebia e dançava nos banquetes, viajava: era a alma de todas as festas da corte inglesa da época. Abafava nisso as tristezas e o amor, singular, que nunca tivera – o duque foi sempre uma desilusão afectiva e intelectual –, na dádiva da sua atenção a todos, à sociedade, ao colectivo.


Enquanto Georgina ganhava a admiração de todos, o duque traia-a com todas aquelas que lhe davam o mínimo de atenção, nem tanto pela figura, o charme ou carisma, mas unicamente pelo poder que ele representava. À medida que a duquesa ia aguentando as aventuras extraconjugais do marido, ia tendo filhas. Mão não o tão almejado filho que portaria o ‘bom nome’ da família, aliada à presunção social de ‘bons costumes’. Georgiana aceitou, inclusive, tratar de uma criança – filha do duque com outra mulher – como se fosse sua filha biológica. Aqui se pode ver o seu coração, a sua generosidade e a sua forma de descomplicar, com uma mente tão à frente do seu tempo. Contudo, a sua proximidade com a política – enquanto forma de influência do futuro das pessoas – levou-a a criar laços de amizade, que se foram estreitando, com um dos líderes do partido whig (o partido liberal da época) –, Charles Grey.

A situação piora, ainda mais, quando – na sua boa vontade – Georgiana se aproxima de Bess: uma mulher com três filhos, praticamente abandonada e desprezada pelo marido. Com pena da senhora e compaixão ante a situação, leva-a para a sua própria casa e tornam-se as melhores amigas. Contudo, passado pouco tempo, Bess começa a ter relações sexuais com o próprio duque, marido de Georgiana. A falta de princípios (e de amor mínimo) do duque elevava aquilo que mais não era do que um egoísmo, indiferente e hiperbolizado. Georgiana perdeu o chão. Entrou em crise existencial profunda. E não teve outro remédio senão aguentar. Resistir. Permanecer. Aos poucos percebeu que, obviamente, Bess não tinha amor pelo duque, nem vice versa: o duque não gostava nem dele próprio. Ali não havia mais do que sexo em troca de protecção das crianças, que eram homens –, que o duque adoptou e amou como se fossem os filhos homens que nunca tivera com a duquesa.

Tentemos ver a situação do lado de Georgiana: além de ter de lidar com a própria dor, com o desrespeito e a falta de amor do marido, ainda tinha de aceitar a traição da pessoa que tinha como melhor amiga (a quem abrira a mão, a casa e o coração) e com a visão de uma sociedade altamente conservadora e machista, que lhe dizia que ela não deveria fazer outra coisa senão aguentar, dado que não tinha oferecido ao duque o tal filho-homem, sendo, ainda, que uma duquesa teria de ter elegância e manter os modos, de forma a não gerar dramas e boatos.

No meio dessa crise, a duquesa aproxima-se ainda mais de Charles: um homem em que via materializado tudo aquilo com que sempre sonhara e nunca tivera; um homem determinado, elegante, destemido, inteligente e dotado de carisma natural, que o levara à liderança do partido liberal. A atracção entre os dois foi natural e gerou um romance intenso e apaixonado. Contudo, o romance é descoberto e proibido pelo duque. Afinal, certo tipo de liberdades não poderiam ser exercidas por uma ‘mulher de família’. Georgiana deveria deixar de ver Charles e permanecer na sua residência, onde o marido mantinha uma vida dupla com a sua ex-melhor amiga. Se fizesse o contrário, se continuasse o tórrido romance, ser-lhe-ia vedada a possibilidade de ver os filhos. Além disso, o duque deixou bem claro que Charles perderia a sua posição na liderança do partido e todas as possibilidades de ter uma vida minimamente bem sucedida.

Ante uma profunda hesitação existencial – entre o amor que tinha pelos filhos e a paixão (tão feliz) que tinha por Charles –, Georgiana, uma vez mais, opta de forma altruísta pelo papel de mãe, pela possibilidade de ver crescer as filhas e pela felicidade do próprio Charles, de quem, passado pouco tempo, descobre estar grávida. No entanto, o marido disse-lhe que teria de entregar essa filha à família do ex amante, pelo que não tomaria conta de filhos dela com terceiros (como se Georgiana não tivesse cuidado da filha dele com uma desconhecida, ou mesmo dos filhos de Bess).

O filme termina com a duquesa rodeada pelas crianças, que foram crescendo, algures no jardim. Com a passagem do tempo e, marcada pelas próprias escolhas em relação às suas filhas, acaba por perdoar a traição de Bess, com quem conviveu até morrer. Uma história triste, sempre regada pela graciosidade e pela força interior de Georgiana. A filha da duquesa com Charles recebeu o nome de Sarah (atribuído por ela e mantido pelo pai da criança). Este último, depois, casou e chegou a ser eleito primeiro ministro de Inglaterra.

Em jeito de conclusão, fica a reflexão e o contentamento. A reflexão, na medida em que o filme se baseia em factos reais acerca da vida da duquesa de Cavendish.  Não tem um final fantasioso, nem feliz, mas tem a força do altruísmo. Dá para repensar as relações humanas, na sua estruturação. Facilmente percebemos que, ao longo da história, a grande maioria se baseava em relações de poder de um cônjuge sobre o outro: como se não tivesse de haver igualdade e respeito mútuo; como se tudo acabasse na velha teoria da existência de um dominador e de um dominado; como se a existência pessoal se reduzisse a um contrato solene – de teor pessoal, com efeitos patrimoniais –, que é o casamento, sendo certo que uma das partes ‘podia tudo’ e outra ‘não podia nada’. O contentamento vem perdido em mais uma reflexão: é inegável de que, hoje em dia, existe muita mais liberdade e uma maior possibilidade de ser feliz em razão da preferência de motivos imateriais sobre uma hipotética submissão material ou baseada no status. Existe, igualmente, menos opressão e mais igualdade. O casamento continua a ser um contrato, mas os termos evoluíram e  a sua dissolução tornou-se mais fácil. Pelo menos na teoria. É óbvio que em contextos de escassez de recursos (aliados a mentalidades conservadoras) as coisas mudam de figura. É óbvio que, quando há crianças envolvidas, as coisas também mudam um pouco de figura, por necessidade de colocar na balança o egoísmo e o altruísmo. Há coisas tão naturais às relações humanas que nem a história muda. Mas é inegável que foram dados passos de gigante.

Todavia, muito embora a mentalidade social tenha evoluído em torno da possibilidade de as pessoas concretizarem projectos de felicidade (mais imateriais do que materiais) – como o casamento homossexual, a co-adopção, a monoparentalidade, famílias com poli-amor, etc –, ainda estamos em um longo caminho para que a opressão um dia acabe, em todas as classes sociais: essas escolhas, não tradicionais, ainda se defrontam com muitos preconceitos desnecessários. E é muito triste, depois de algum contentamento, ainda constatar que existem casos semelhantes ao de Georgiana, por medo, submissão ou força das circunstâncias. Casos espalhados, aí, pelo mundo. Casos de opressão de género que não se passam, necessariamente, em contextos de pobreza ou escassez. Casos de opressão em que o próprio oprimido é conivente com o que o oprime, por força da mentalidade do meio em que se encontra inserido ou por uma série de factores pessoais, concretos e insusceptíveis de categorização abstracta.

Talvez o amor seja um luxo imaterial, que anda de mãos dadas com a paz e a liberdade, que não dá espaço a opressões. Talvez, para alguns, com o devido respeito da sua liberdade, o amor não interesse nada. Talvez, para alguns, baste a forma e a sobrevivência. Para os outros – para os que querem mais, para os ambiciosos da imaterialidade substancial –, resta muita liberdade e uma boa dose de coragem. Talvez essa coragem, em alguns casos, seja egoísmo puro. Talvez, em outros, como o de Georgiana, seja altruísmo de renúncia. Talvez nunca saibamos bem. Talvez seja tudo dual neste mundo de imperfeição. Mas enquanto nada se sabe, que fique, pelo menos, a coragem de dizer não à opressão. E como o diz, de forma concisa e muito melhor do que eu, termino com o excerto de um poema de Ari dos Santos. 


 “A posse vai-se acabar

no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade
Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher.”

***

Maria Vaz nasceu em Mirandela a 19 de Setembro de 1990, muito embora tenha vivido toda a infância e início da adolescência em Vila Flor. Aos 11 anos, apaixonou-se pela poesia ao encontrar, por mero acaso, um livro de Alberto Caeiro. A par da poesia e da literatura, é uma apaixonada pelas artes em geral, de entre as quais ressalta a música, dado que tocou clarinete entre os 11 e os 21 anos. Publicou o seu primeiro poema em Março de 2015, numa antologia de poetas portugueses contemporâneos e escreve regularmente no seu blog (“The philosophy of little nothings”). É agora colunista do ‘Letras in.verso re.verso”. Além da escrita, é doutoranda em ciências jurídico-criminais, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, desde finais de 2014.

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