Baudelaire & Poe, Ltda.

Por Rafael Ruiz

ilustração: Falk Nordmann

Leia-me e saberás me amar. Assim adverte Baudelaire seus leitores. E faz, além disso, num dos melhores livros da história da literatura: As flores do mal. Isto de leia-me e saberás me amar sempre me pareceu um convite mágico, desafiante e até corajoso, mas sobretudo triste. Baudelaire foi acima de tudo um necessitado de amor. Desde seu sentimento de dândi, desde seus poemas retorcidos, desde sua fama de depreciar tudo e todos, dá continuamente a impressão de buscar amor no artifício das letras, no jogo de inteligências da palavra escrita. O mesmo ocorre com Poe, um que alguém aprende a amá-lo como pessoa lendo-o. Não leia sua biografia, nem mergulhe em seu anedotário e muito menos no que os seus contemporâneos afirmam que fez ou deixou de fazer. Apenas leia-o e saberá amá-lo. Baudelaire e Poe forjaram um tipo de leitor que poderia entendê-los e estavam seguros de que se alguém os lessem adequadamente os amariam de maneira incondicional. Tinham razão e por isso encontram-se hoje entre uma legião de admiradores.

O destino quis, além disso, que fosse Baudelaire, o maldito dos malditos, um poeta depreciado por todos em sua época, esse grande leitor que soube amar o trabalho de Poe e o introduziu na Europa. Poucos recordam que Baudelaire foi o grande artífice do conhecimento do escritor estadunidense na França e, por contágio, no resto do continente europeu. Conheceu seus textos ao acaso e ficou envenenado para sempre com eles, dedicando boa parte de seu tempo a traduzi-los para o francês. Em alguns períodos de sua vida esteve tão obcecado com a ideia de traduzir e difundir a obra de Poe que chegou a se descuidar de sua própria obra. O autor de As flores do mal parecia haver caído num desses feitiços que exercem um aprisionamento mental do qual tanto gostava o escritor de Baltimore.

Contam que Baudelaire leu Poe pela primeira vez na tradução que o jornal La Démocratie Pacifique fez de O gato preto. Era 1847, apenas dois anos antes de morte do estadunidense. Desde esse momento, a vida do poeta francês foi transformada. Contou a seus amigos: “A primeira vez que abri um de seus livros vi, para minha surpresa e prazer, que ali se encontravam não somente certos motivos com os quais eu havia sonhado, mas frases que eu havia pensado, escritas por ele vinte anos antes”. Ante a incredulidade dos que lhe ouviam, Baudelaire normalmente contava a anedota com um acréscimo que borrava seu habitual espírito egocêntrico e demonstrava a sincera admiração que sentiu por Poe: “Igual ao que eu havia pensado, mas melhor escrito”.

É uma pena que Baudelaire tenha conhecido muito tarde Poe, pois do contrário poderíamos fantasiar com o encontro entre os dois malditos. Baudelaire publicou o primeiro trabalho sério sobre Poe em 15 de outubro de 1848 e o estadunidense morreu um ano depois. De fato, essa profunda admiração só circulou num sentido: acredita-se que o autor estadunidense não chegou a saber nada sobre aquele iluminado francês que havia caído hipnotizado pelos veios de sua literatura.

A obsessão de Baudelaire por Poe chegou a ser tanta que o francês criou o costume de seguir e parar estadunidenses que encontrava por Paris a fim de pedir informações sobre seu ídolo literário. Numa ocasião, Baudelaire soube que um estadunidense* hospedado num hotel da Boulevar des Capucines havia conhecido Poe; logo, não pensou duas vezes e bateu no quarto do hóspede. O estrangeiro o recebeu em cuecas enquanto provava alguns sapatos que pretendia comprar em Paris. Baudelaire deve ter soterrado a criatura de perguntas sobre o autor de A queda da casa de Usher, até que ela se sentiu tão incomodado com a presença daquele fanático francês que reduziu tudo a uma simples sentença: “Sim, o conheci. E lhe digo que é um sujeito estranho e antipático”.

O que o estadunidense dos sapatos não sabia era que uma afirmação como essa, feita a uma pessoa como Baudelaire, podia provocar ainda mais o interesse pelo escritor. Com o tempo, chegou a estar convencido de que Poe e ele estava unidos de uma maneira sobrenatural, e presumia que haviam sido ditadas palavras ao ouvido entre eles, de algum modo fantástico. Também argumentava que a explicação de que seus estilos se pareciam tanto (algo que praticamente todo mundo duvida, mas que para Baudelaire era evidente) havia que ser buscada na similitude de suas vidas. 

A este respeito, é paradoxal pensar que muita da informação sobre Poe que Baudelaire obteve em seu tempo e que se dedicou a difundir era falsa: vinha dos relatos biográficos de Rufus Griswold, quem intencionalmente havia alterado um bom número de situações no intuito de desprestigiar o autor de Os assassinatos da Rua Morgue. Entre as informações inventadas por Griswold que Baudelaire recebeu e difundiu, se encontram que Poe abandonara sua casa para participar da Revolução Grega, que fora levado à Rússia para molestar o governo russo e que alguns valentes companheiros americanos o salvaram in extremis de um exílio na Sibéria. Não era desde então um material nada depreciável para a biografia de Edgar Allan Poe, inclusive muito melhor que alguns episódios reais de sua vida, menos novelescos e sem dúvidas mais vulgares, mas nada disso era verdade. A relação entre Griswold e Poe serve de acesso para outra situação: o biógrafo e crítico literário responsável pela primeira edição póstuma da obra do gênio de Baltimore chegou a falsificar cartas do escritor em sua obsessão por desprestigiar sua figura.

Forçando alguma realidade, podemos encontrar, sim, elementos biográficos comuns entre ambos escritores, embora não tantos como Baudelaire afirmava e deixou por escrito: o ponto de união mais evidente é que ambos cresceram à sombra de um padrasto que o detestava. O do francês, François Baudelaire, foi um ex-seminarista que ganhava a vida como professor de desenho, que se casou quando tinha já sessenta anos, num segundo casamento tardio e desigual. A mãe do futuro poeta tinha então somente vinte e seis anos. François morreu quando Charles Baudelaire tinha só seis anos. O poeta, enfermo de egoísmo, nunca perdoará sua mãe que voltaria a se casar especialmente com alguém que ele considerava tão detestável como o marechal Jacques Aupick, descrito como alguém de uma arrogância quase teatral. Baudelaire recebeu a felicidade do marechal com sua mãe como sua própria desgraça e seu ressentimento será uma chama melancólica que o acompanhará para o resto de seus dias. Muito jovem foi enviado para um internato, fato que entendeu como uma tentativa por parte dos pais de desfazer-se dele para desfrutar de uma vida livre de empecilhos. Com isso, sua rebeldia se desbragou definitivamente e, a partir desse momento, os centros nos quais estudou podem se dividir entre aqueles dos quais fugiu e aqueles dos quais foi expulso. Conta a lenda que em alguma ocasião Baudelaire se permitiu uma exclamação que seria a delícia de um freudiano interessado em estudar o complexo de Édipo: “Quando se tem um filho como eu, não é necessário que alguém volte a se casar”.

O certo é que Baudelaire, a maior parte do tempo incapaz de obter benefícios da literatura, praticou um parasitismo constante dos bens da família. A necessidade de tirar dinheiro de sua mãe o levou a extremos profundamente imorais como o de fingir tentativas de suicídio para comovê-la e receber mais dinheiro. No dia 30 de junho de 1845 escreveu a um de seus amigos uma carta na qual dizia: “Mato-me porque sou inútil para os outros e perigoso para mim mesmo”. Para deixar mais pistas sobre sua aparente intenção, consultou Louis Ménard, um amigo poeta, sobre formas práticas e seguras de suicídio. Para que não faltasse nenhum detalhe, enviou a Cousin, outro amigo de tertúlias, alguns manuscritos acompanhados de indicações para publicação póstuma. Seus amigos, assustados pelas supostas intenções suicidas, fizeram tudo o que estava ao alcance para impedir localizá-lo. Encontraram-no num cabaré na rua Richelieu, onde explicou com cínica tranquilidade que tudo era uma estratégia para pegar dinheiro de seus pais. Diante deles, meteu um punham no peito, embora com muito cuidado para fazer apenas um ferimento superficial: suficiente para que sua mãe fosse avisada pela polícia e lograr despertar nela a ternura necessária para conseguir o dinheiro.

O berço de Poe era muito mais pobre que o do seguidor francês: os pais do estadunidense eram atores itinerantes. Ele nasceu em 19 de janeiro de 1809 e seu pai, David Poe, morreu dezoito meses mais tarde. Elizabeth Arnold Poe morreu durante uma excursão quando ele tinha só dois anos. De modo que o menino Poe passou aos cuidados da família Allan, daí o nome de Edgar Allan Poe com que assinava sua obra. Nunca foi legalmente adotado por esta segunda família e muitos dos desencontros e dissabores de sua idade adulta foram provocados pelo fato de o senhor Allan se negar sempre a reconhecê-lo como filho.  Uma das maiores decepções de John Allan a respeito de Edgar foi porque ele decidira se dedicar a algo tão confuso e pouco reconhecido como a escrita, não se interessando pelo posto num negócio de exportação de tabaco.

Na busca pela glória literária, Baudelaire e Poe padeceram a pobreza e o desprezo social, mas reagiram de maneira muito distinta à situação. Baudelaire tentou fazer do vício uma virtude: sua vida foi um contínuo choque com a sociedade que depreciava e desfrutava (como Wilde no outro lado do canal da Mancha) tomando as cores da hipócrita sociedade a que pertencia com seus desplantes e extravagâncias. Poe também se sentiu sempre um outsider, alguém incapaz de se encaixar na sociedade, mas levava isso de maneira íntima e taciturna, como uma espécie de triste apostolado.

Baudelaire passou à história como só fizeram os verdadeiros gênios: mal. Todos os escritores de forte personalidade – e a de Baudelaire parece que foi verdadeiramente infernal, porque retorcida e grotesca – correm o risco de ser relembrado mais por seu anedotário que pelo que realmente ofereceram à história da literatura.

Crépet, um de seus biógrafos, escreveu uma frase brilhante a respeito: “Sua lenda é muito mais intensa que sua vida”. Existem tantas anedotas e tão disparatadas sobre Baudelaire que ninguém chega a pensar que a invenção de proezas insólitas do poeta se deu como uma espécie de divertimento com a sociedade  da época muito semelhante ao que na América contemporânea constituem as histórias de Yogi Berra.

Minha anedota favorita de Baudelaire é aquela em que Théodore de Banville, cronista de Paris, encontra o poeta e, depois de uma conversa sem grande importância, Charles lhe diz: “Não lhe pareceria agradável, querido amigo, tomar banho em minha companhia?” Banville não quis que aquele dândi presunçoso lhe amedrontasse e respondeu-lhe de modo wildiano: “Ia sugerir exatamente isso neste momento”. O plano parecia tão claro que ambos foram a uma casa de banhos e pediram um banheiro com duas banheiras. Os dois escritores tiraram a roupa e jogaram-se na água. Um instante depois, Baudelaire lhe disse: “E agora que não tem possibilidade defender-se ou escapar, querido colega, vou ler para você uma tragédia em cinco atos”.

Baudelaire sempre é lembrado como o autor dessa obra-prima que é As flores do mal e em menor medida por esses Paraísos artificiais que podem ser lidos como uma espécie de Divina comédia doente, uma descida aos infernos tomado pelo consumo de drogas. Da pessoa restou somente os despojos: o descreveu como o maior egoísta que pisou na terra e é muito provável que tenha sido. Agora, não há como esquecer que mesmo o dandismo de Baudelaire ou Wilde se agora nos parece algo genial e chamativo, para seus coetâneos era francamente antipático, pueril.

Poe teve um estilo que definitivamente não agrava aos leitores nos Estados Unidos; condenado às margens da literatura e que ainda hoje tem muitos detratores entre o establishment universitário, sendo ao menos qualificado de “muito diferente”. Mas, entre seus leitores incondicionais Poe segue agradando mais que qualquer outro contemporâneo, porque encontra uma fórmula perfeita em apelar tanto à razão como à emoção, algo que em Baudelaire está francamente descompensado pela emoção.

Os malditos revolucionaram a literatura porque sempre tiveram outro estilo, uma forma de escrever que ninguém havia imaginado em seu tempo e nem outros se atreveram a fazer até agora. Encontram-se mais próximos que todos em alcançar a originalidade porque realmente têm uma mentalidade única. O que verdadeiramente unem os dois autores não é um padrasto, nem o ódio à sociedade, mas que nenhum dos dois jamais pensou que uma beleza comum ou tradicional fosse suficientemente atrativa. Precisam buscar algo mais diferente. A beleza pura, para ambos, se encontrava sempre ligada à aberração, à anormalidade ou à distorção.

O livro As flores do mal saiu à venda em 1857 e imediatamente o livro foi condenado por indecência e abriu processo contra o seu autor. Baudelaire foi condenado a retirar seis poemas de sua antologia. O poeta obedeceu, reelaborou e reordenou o material, chegou inclusive a reescrever alguns poemas para adequá-los ao pedido pela justiça. Nunca ninguém soube, de fato, as mudanças realizadas pelo poeta e nem se pode reconstruir a organização original do livro, ainda que não tenham faltado tentativas desde então. Paradoxalmente, o maior êxito econômico que Baudelaire gozou em vida foi a tradução das Histórias extraordinárias de Poe.

O escritor estadunidense deixou que o álcool lhe acompanhasse no caminho tortuoso da literatura e o álcool o matou. Em 3 de outubro de 1849 foi encontrado semiconsciente numa taberna de Baltimore e depois de quatro dias de delírio morreu. Baudelaire morreu em 31 de agosto de 1867 – tinha quarenta e seis anos, estava com o corpo praticamente paralisado pelas sequelas de seus vícios.  Foi enterrado no cemitério de Montparnasse, curiosamente, junto à tumba de seu padrasto, a pessoa que mais detestou em vida. Poe está enterrado em Baltimore. Quando do sepultamento foi feita uma sepultura anônima que logo foi encoberta pelo mato. George W. Spence teve compaixão pela memória do escritor e colocou um pequeno bloco de pedra com um número nele gravado. A tumba se manteve sem nome até que anos mais tarde Maria Clemm, uma tia sua, soube do estado da sepultura e organizou uma comissão para criar um túmulo adequado. Estando os dois enterrados e já reconhecidos, não sabemos se seguirão sussurrando entre as linhas de seus textos ou em alguma outra parte em busca, juntos, dessa beleza grotesca que tanto amavam.

* Anedota recolhida no Baudelaire, de César González-Ruano (1958). Trata-se de um livro curioso, por ser a biografia de um maldito escrita por um maldito, embora esta denominação se aplique a Ruano por outras razões muito distintas.

Ligações a esta post:


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dez mulheres da literatura brasileira contemporânea

Onze livros para ler na estrada

Dostoiévski, um romântico desgarrado entre a revolução e Deus

Onze obras do teatro moderno e contemporâneo fundamentais a todo leitor

O manuscrito em que Virginia Woolf anuncia o seu suicídio

Escritores narcisistas

A arquitetura da cidade como mediadora de leitura

Obras-primas perdidas e felizmente recuperadas

Uma farmácia literária que pode curar quase tudo