Boletim Letras 360º #214

Uma semana intensa para o universo dos livros no Letras in.verso e re.verso. Poderá o leitor comprovar pela leitura deste Boletim de Páscoa. Que o feriado seja repleto de leituras e chocolates. Merecemos, que a realidade já é crua e amarga. 

Sylvia Plath e Ted Hughes. Um conjunto de cartas que reafirma a conturbada relação do casal.


Segunda-feira, 10/04

>>> Brasil: Um conjunto de documentos considerado secretos sobre a vida de Pedro Nava, mais de trinta anos depois de sua morte, está agora aberto à consulta dos pesquisadores.

São anotações de Nava sobre homossexualidade e faziam parte de seu acervo não aberto guardado na Fundação Casa de Rui Barbosa. A liberação do arquivo se dá pouco depois de revelada uma carta de Mário de Andrade sobre o mesmo tema e mantida em censura por quatro décadas. Em reportagem para o jornal Folha de São Paulo, Maurício Meirelles afirma que grande parte dos papéis não estão datados. “Em um deles, Nava escreveu uma pequena oração: ‘Senhor, Senhor! Dilacerai a minha carne, mas tende pena dos homossexuais’.” E revela uma carta anônima possivelmente material das chantagens que levou o escritor à morte; enviada ao memorialista em 28 de janeiro de 1983, a carta diz: “Se já não estivesse você senil com os seus oitenta e alguns, eu diria que você é um cínico perfeito, um molambo moral, um indecente, um torpe. [...] Já em Belo Horizonte eu ouvia dizer coisas sobre você.” As “coisas”, cita Meirelles em relação ao conteúdo da missiva eram que Nava gostava de “troca-troca” e termina com uma ameaça: “Vou lhe telefonar uma noite dessas.” A carta está assinada com as iniciais J.L.M.F. e a única pista que o autor do documento dá é ter frequentado a faculdade de medicina com Nava na década de 1920, mas “um ano adiantado”. Um dos documentos mais fortes, conta Meirelles, traz o desenho do dorso de um homem musculoso com a seguinte anotação de Nava: “Possivelmente impressão guardada desde 1929, no meu quinto ano de [hospital] Pedro 2º. Fui [...] ver os trabalhos anatômicos no anfiteatro da Santa Luzia. [...] Dentro da solução formolada o cadáver de bruços de um homem musculoso. Seus cabelos flutuavam no líquido, sem gravidade. [...] A impressão que guardei foi a do posterior do tórax como a região mais avara, muda, anímica, cadaveirosa do homem. Homem, não gênero humano, mas homem macho”. Há nos papéis amarelados um glossário de gírias gays que Nava recortou. São palavras e expressões como ocó (homem), amapô (mulher), mona de equê (homossexual), ilê (casa), aquê (dinheiro), tia Cleide (carro de polícia) e frases completas como “fazer o calçadão da Broadway” (passear na Cinelândia, no centro do Rio), “levei o ocó para o ilê e fiz um baculolê odara” (levei o homem para casa e “ficamos numa boa”) ou “conheceu um ocó que tinha a ocanha odara” (conheceu um “homem lindo”). Desde a morte de Nava, em maio de 1984, os amigos haviam lançado uma operação abafa sobre a tema da homossexualidade do escritor. A matéria pode ser lida em aqui.

>>> Brasil: O ano de Lima Barreto

Em 2017, a Festa Literária Internacional de Paraty escolheu a obra de Lima Barreto para homenagem. E, como todo mundo já sabe, um dos eventos literários mais importantes do país rende aos editores interesses diversos de publicação. Não podia ser diferente com Lima Barreto. Até agora pelo menos 10 títulos estão a caminho entre reedições e homenagens. A Companhia das Letras, que publica algumas de suas obras prepara novas edições para Cemitério dos vivos, Diário íntimo e biografia inédita de Lima Barreto. Já a Autêntica Editora publica uma nova edição da biografia A vida de Lima Barreto. O selo de digitais e-galáxia planeja a publicação de Lima Barreto e a Literatura, antologia com crônicas do autor e uma coletânea de ensaios organizada por Beatriz Resende. E a Verso Brasil Editora (cf. noticiamos por aqui outro dia) prepara lançamento de A correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto, em edição revista.

Terça-feira, 11/04

>>> Estados Unidos: Várias cartas inéditas de Sylvia Plath denunciam Ted Hughes por violência doméstica

As missivas, catorze no total, foram escritas entre 18 de fevereiro de 1960 e 4 de fevereiro de 1963, uma semana antes de sua morte. O arquivo com aproximadamente 45 páginas pertence a Harriet Rosenstein, uma pesquisadora que nos 1970 tentou, sem êxito escrever uma biografia de Sylvia Plath. São cartas enviadas a Ruth Barnhouse, com quem a poeta fez tratamento psicológico logo depois de sua primeira tentativa de suicídio, e integra parte dos materiais que segundo Hughes havia sido extraviado, tal como averiguam os pesquisadores. Mesmo depois de se mudar para Inglaterra, o contato entre Plath e Barnhouse se manteve forte - eram confidentes. Além de Plath contar sobre a traição do companheiro, o que mais tem chamado atenção das descobertas são as acusações de violência doméstica sofridas pela poeta pouco antes de abortar seu segundo filho em 1961; Hughes, diz a missivista, teria desejado vê-la morta e lhe batido muito nos dias anteriores ao aborto. Os textos devem sair em outubro no universo de língua inglesa e integra o primeiro de uma edição em dois volumes, descritos como fundamentais para saber mais sobre elementos da biografia da poeta até então desconhecidos.

>>> Brasil: Meu coração está no bolso, de Frank O’Hara - uma antologia que apresenta a poesia do poeta ao leitor brasileiro

A edição sai em maio pela Luna Parque Edições. A antologia bilíngue reúne 25 poemas. O'Hara, entre 1950 e 60, fez parte da New York School of Poetry; seus poemas nos conduzem por um universo urbano e veloz, que dialoga fortemente não só com as vanguardas literárias, mas também com outras artes, como cinema e artes plásticas. As traduções são de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto.

>>> Estados Unidos: Colson Whitehead é o ganhador do Pulitzer de Literatura de 2017 por The Underground Railroad. Os caminhos para a liberdade

É a primeira vez em mais de 20 anos que uma mesma obra ganhou dois dos principais prêmios do gênero nos Estados Unidos. Antes do Pulitzer, Whitehead havia ganhado o National Book Award. O escritor é conhecido por explorar mitos americanos em seus livros. O livro premiado conta a história de Cora, uma escrava de 15 anos que trabalha numa plantação de algodão na Georgia. A vida é infernal para todos os escravos, mas especialmente terrível para Cora. Ela está chegando à maturidade e logo se tornará vítima de dores ainda maiores. Quando um recém-chegado da Virgínia, Caesar, revela uma rota de fuga chamada a ferrovia subterrânea, ambos decidem escapar de seus algozes. Mas nada sai como planejado. Cora e Caesar sabem que estão sendo caçados: a qualquer momento podem ser levados de volta a uma existência terrível sem liberdade. O livro sairá no Brasil pela HarperCollins em maio.

Quarta-feira, 12/04

>>> Brasil: Uma das novelas consideradas mais marcantes do século XIX ganha edição por aqui

A aranha negra foi admirada por nomes como Thomas Mann, Walter Benjamin e Elias Canetti. Escrita em 1842 por Jeremias Gotthelf, pseudônimo do pastor protestante suíço Albert Bitzius (1797-1854), trata-se de uma novela inspirada em lendas medievais, na Bíblia e nos surtos de peste negra que assolaram o vilarejo de Sumiswald, região natal do escritor, Emmental, nos séculos XIV e XV. Gotthelff é autor de uma obra vasta e profundamente arraigada na vida rural; seu grande talento artístico levou Otto Maria Carpeaux a compará-lo a ninguém menos que Homero. A narrativa se inicia com uma festa de batizado e o relato da terrível história da aranha negra, que no passado aterrorizou e dizimou a população local após a quebra de um pacto com o diabo.A tradução é de Marcus Vinicius Mazzari, que assina prefácio da obra. A edição é da Editora 34.

>>> Brasil: Um projeto gráfico inusitado trabalha um livro conceitual de Paulo Leminski

"um bom poema / leva anos / cinco jogando bola, / mais cinco / estudando sânscrito, / seis carregando pedra, / nove namorando a vizinha, / sete levando porrada, / quatro andando sozinho, / três mudando de cidade, / dez trocando de assunto, / uma eternidade, eu e você, / caminhando junto" Este é um dos muitos poemas mais conhecidos de Leminski e foi ele que serviu de base para o projeto idealizado por Guilherme Caldas: uma edição toda impressa em serigrafia, ilustrada por ele, e encadernada artesanalmente pelo Estúdio Invertido, com o diferencial de simular uma fita cassete, inclusive sendo acomodada em caixas de acrílico antigas.

Quinta-feira, 13/04

>>> França: Uma equipe de arqueólogos e historiadores podem ter realizado uma extraordinária descoberta: uma cápsula do tempo pertencente à Júlio Verne

Os pesquisadores da Universidade de Descartes, em Paris, e The Explores Club NYC encontraram a caixa metálica de finais do século XIX, próximo os Pirineus franceses, região de Occtania. Os trabalhos começaram desde setembro e a descoberta foi conseguida graças ao uso de drones e georradares. A investigação faz parte de um estudo meticuloso sobre a obra de Julio Verne que inclui análises até mesmo da tumba do famoso escritor. O conteúdo agora está em fase de análise. No que se considera uma cápsula do tempo os arqueólogos encontraram através de raios-X o que podem ser documentos, livros e objetos metálicos de diferentes tamanhos e formas. É possível que a cápsula não tenha pertencido a Verne, mas na mais alta das expectativas, poderiam ter encontrado textos inéditos do autor de Vinte mil léguas submarinas? A resposta, só nos próximos meses. Uma nova fase da pesquisa está em realização.

>>> Espanha: Uma extensa quantidade de inéditos de Juan Ramón Jiménez ganha edição

No Brasil, um poeta desconhecido. Mas, seu nome está no panteão dos mais importantes nomes da poesia. Em 1956, foi quem recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. E, agora, sai um livro com inéditos. O silêncio é ouro reúne 83 poemas, dos quais, 36 são inéditos. São poemas escritos em Moguer no tempo de sua obra mais famosa, Platero e eu.

Sexta-feira, 14/04

>>> Brasil: Uma gozação bem-sucedida, inédito do italiano Italo Svevo no Brasil

Mario Samigli tem 60 anos e vive com o irmão, que sofre de gota, em Trieste. Tem uma vida vagarosa, porém feliz, com um emprego burocrático que lhe garante um salário ao fim do mês. Essa existência é temperada pelo sonho de um tardio reconhecimento público de seu talento como literato. A produção de Samigli como escritor resume-se a um romance escrito quatro décadas antes e às fábulas sobre pequenos animais, como moscas ou pardais, que rabisca diariamente. Até que um amigo apresenta-lhe um grande editor de Viena interessado em adquirir, por 200 mil coroas, o direito de tradução em todo o mundo de seu livro de juventude. O projeto logo se revelaria uma farsa. A narrativa de Uma gozação bem-sucedida se passa em 1918, ano em que a cidade portuária de Trieste sai do domínio austríaco e é finalmente anexada à Itália. A obra chega ao Brasil pela primeira vez pela Editora Carambaia, com tradução e posfácio de Davi Pessoa.

>>> Brasil: Projeto anseia recuperar romance de Dalcídio Jurandir há 46 anos fora de catálogo

Ponte do Galo foi publicado em 1971 pela Editora Martins/MEC e nunca mais reeditado. É o sétimo livro do chamado Ciclo do Extremo-Norte - conjunto de dez livros do autor que contam a saga de Alfredo, um menino de Cachoeira do Arari, no Marajó, que sonha em conhecer a cidade grande (Belém) e terminar seus estudos. O livro se tornou raro nas livrarias e mesmo nos sebos, onde não se encontra mais nenhum exemplar da primeira edição. Agora, um projeto prevê uma segunda edição com prefácio do escritor e pesquisador Paulo Nunes, fotografia de capa de Eliseu Pereira e ilustrações de Paloma Franca Amorim. Para apoiar a ideia basta ir em: Dalcídio Jurandir nasceu em Ponta de Pedras, Ilha do Marajó, em 1909 e faleceu em 1979. Escreveu 11 romances. Recebeu com eles o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra, em 1972, além de outros prêmios nacionais como o Prêmio Dom Casmurro, da Editora Vecchi, e o Prêmio Luísa Cláudio de Sousa, da Pen Clube.

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