Ievguêni Ievtuchenko



Nenhuma crítica é dissidente sobre o talento criativo de Ievguêni Ievtuchenko, conhecido mundialmente pela sua poesia, mas também pelo grande romancista, ator e diretor de cinema que foi. Nascido em Zimá, pequena cidade camponesa da Sibéria, Rússia, em 18 de julho de 1933, Ievtuchenko morreu em Tulsa, Oklahoma, Estados Unidos, em 1º de abril de 2017. Ele foi o último dos poetas que, juntamente com Bella Akhmadulina (reconhecida por Joseph Brodsky), Robert Ivanovitch Rojdestvenski e Andrei Voznesensky, lotavam estádios de futebol. Era o tempo em que na União Soviética a poesia podia competir com o futebol. O degelo fez aquele milagre de levar dezenas de milhares de pessoas a lotar o Estádio Lênin de Moscou quando a poesia encarnou a liberdade que se respirava depois da condenação oficial ao culto à personalidade de Stálin.

Ievtuchenko nasceu numa família que em parte tinha o veio da arte: sua mãe era atriz. Quando tinha 11 anos de idade mudou-se para Moscou, onde fez seus estudos: do Instituto Literário, foi expulso por desobediência. O traço rebelde seria um dos elementos que melhor serviria à sua obra, em parte, marcada pela irreverência. Num país eivado pela política, sua poesia não poderia ter outro destino que o da crítica à história e à sociedade. Se o traço da ousadia saiu da vida para obra, não deixou de, na vida, servir sempre de marca para sua personalidade. Ousou criticar o julgamento contra o futuro Prêmio Nobel Joseph Brodsky, em meados dos anos sessenta; posicionou-se contra a invasão da Tchecoslováquia; e não demorou muito para logo se tornar um “dissidente permitido” que podia peitar o Kremlin.

Começou a escrever poesia muito cedo: o primeiro poema saiu quando tinha só dezesseis anos no jornal Pensamento soviético. E desde então não parou. Publicou sua primeira antologia com poemas em 1952: Exploradores do futuro. Estes e os poemas de A terceira neve (1955) e Estação de Zimá (1956) mostravam claras influências da poesia de Maiakóvski. Foi só depois, que o estilo passou a ser dirigido pela retórica e crítica sócio-política.

No mesmo ano de seu primeiro livro, ingressa na União de Escritores Soviéticos, convertendo-se no membro mais jovem da organização. Não foi esse o caso de torná-lo um submisso ao poder; a atitude rebelde, diga-se, seria para toda a vida. Logo, não demorou em ser expulso, primeiro não da UES, mas da Liga Comunista Juvenil, da qual também era membro. A acusação da vez: ser individualista. No âmbito do clube de escritores foi uma das vozes que se opuseram à aplicação estrita do realismo socialista, mesmo que não tenha se distanciado dos parâmetros culturais da sociedade comunista.



Basta dizer que, durante os anos 1960, década dos grandes recitais, foi um ídolo do povo. Cultivou a poesia social dirigida principalmente à juventude sonhadora com as mudanças profundas na então União Soviética. Essa contradição – entre a rebeldia e a celebração – marcou sua obra, eivada ora pela crítica ora pelo louvor. Como disse várias vezes ao comentar sobre os seus recitais em praças e em toda parte dos espaços públicos que levantavam multidões de ouvintes, “na Rússia o poeta é mais que um poeta”.

A frase e a tamanha inserção popular explicam porque não se desvincularia da possibilidade política; em 1980, era da Perestroika, foi eleito deputado para Soviete Supremo, numa representação junto a um grupo de escritores progressistas. Pouco depois, deixou o país; foi para a Universidade de Tulsa, Oklahoma, e desde então passou a viver nos Estados Unidos, tornando seu país natal, apenas destino de retorno. 

Muitos de seus poemas se converteram em frases populares que condensam o contexto da época em que viveu. Assim, o verso “Não morrem pessoas: morrem mundos” de um de seus poemas pode ser aplicado a ele, visto que com Ievtuchenko morreu toda uma geração. 

Deixando de lado outras manifestações de sua atividade artística (como o cinema, o teatro...) a obra literária de Ievtuchenko é extensa. Foram mais de meia centena de títulos incluindo poesia, romances e ensaios. Nela, cruzam-se os temas políticos, amorosos e sociais. Dentre os títulos que se destacam estão Adeus, bandeira vermelha onde inclui-se alguns dos poemas mais famosos seus como “Babi Yar”, “A metade não quero de nada” e “Cai a neve pura” – o primeiro deles foi o que lhe deu fama internacional. Trata-se de um poema em que denuncia o extermínio de judeus e o antissemitismo na Rússia.



Os outros gêneros vieram durante e depois da década de 1970: o romance Os frutos selvagens da Sibéria (1981), escrito sob a influência de Dostoiévski e Boris Pasternak; o roteiro para o cinema Jardim de infância (1984); a peça de teatro Sob a pele da Estátua da liberdade (1972); o documentário Não morras antes de morrer (1996) são outros de seus títulos.

O texto de 1996 trata-se de um híbrido entre a ficção romanesca e o testemunho documental, onde descreve com amarga ironia e humor ácido a situação da extinta União Soviética durante a metade da década de noventa. O crime, o alcoolismo, as dificuldades econômicas, a nostalgia dos antigos totalitarismos e a irrupção de um capitalismo selvagem compõem um afresco desolador, onde a sobrevivência cotidiana é o que anima às personagens a levantar-se todos os dias.

No Brasil, teve editado o livro de 1981 aqui citado. Pearl Harbor (1968), Ardabiola (1984) e a peça de teatro Autobiografia precoce são outros títulos dos traduzidos para o português. O romance de 1984 "traça um retrato sutil da realidade contemporânea da extinta URSS, num momento em que os dogmas socialistas são questionados e o comunismo ganha força, sobretudo entre os jovens" (cf. lembra Gilfrancisco). A obra conta  a história do biólogo Ardabiév, que acredita ter criado uma nova planta, que dá nome ao romance, capaz de curar o câncer. O jovem então travará uma intensa batalha a fim de demonstrar a validade de sua descoberta. A narrativa firma-se como uma denúncia sobre a burocracia de seu país e está carregado de um traço existencialista, uma vez que Ardabiév, também passará por sérias transformações pessoais ante o embate com o poder. Em 1985, os poetas Augusto e Haroldo de Campos e o tradutor Boris Schnaiderman incluíram Ievtuchenko na antologia 25 autores da poesia russa moderna (1985).

O trabalho de ser um poeta das massas ultrapassou as fronteiras da Rússia. Ao longo de sua vida, percorreu o planeta, sobretudo, a América Latina – veio inclusive ao Brasil – mantendo uma estrita relação com diversas outras culturas e arrebatando multidões que repetiram o fenômeno soviético por onde passou e lotaram estádios de futebol para ouvir sua poesia; foi quando conheceu o amigo Gabriel García Márquez. Nesse período interessado pelas convulsões políticas no continente latino-americano, escreveu o roteiro para o filme Sou Cuba, dirigido pelo fotógrafo Mikhail Kalatozov, e denuncia a opressão do povo cubano em plena revolução.

Foi professor nas universidades de Pittsburg, Santo Domingo; membro honorário da Real Academia de Belas Artes de San Telmo, da Academia Estadunidense de Artes e Letras, para a qual foi distinguido em 1987 como membro honorário da Academia Americana de Artes e Ciências,  e ocupou o lugar na Academia Europeia de Ciências e Artes.

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