Como enfrentar Ulysses

Por E. J. Rodríguez

James Joyce

 
Foi meu pai quem me aconselhou algumas vezes, com ênfase, a leitura de Ulysses. Suas recomendações sempre eram certeiras e sua paixão por este livro mais que evidente – ele havia lido quase de uma sentada a primeira vez e acreditou, crasso erro, que comigo ia acontecer a mesma coisa –, e então tentei mergulhar em sua leitura duas ou três vezes. E duas ou três vezes abandonei o romance depois de ler, ou melhor diria, de tropeçar entre linhas, durante um par de capítulos. Pensava que melhor dedicaria meus esforços a livros menos inóspitos.

Há algo no início do Ulysses que pode desfazer o ânimo inclusive dos leitores mais treinados e dispostos. Posso dizer, é o único livro que tive de abandonar não porque fosse um mal livro, mas porque me dava por vencido. Esta é uma sensação que muitos leitores experimentam com este romance, embora exista uma minoria privilegiada, ou sortuda, ou talvez mais evoluída, que consegue mergulhar na obra já num primeiro contato. Mas se escrevo estas linhas é precisamente porque não pertenço a essa seleta minoria. E ainda assim consegui terminar amando o Ulysses e gostaria de incentivar a outros para que consigam também. A curiosidade por descobrir os ignotos incentivos deste monumental e abrupto romance – e, por que não dizer, o orgulho de voltar a ser capaz de ler este artefato e não apenas passear os olhos por suas linhas – me impulsionou a não me deixar vencer, a buscar as pistas indicadas nas quais pude prestar a devida atenção, concentrar meu ímpeto em superar esses primeiros capítulos. O esforço foi recompensado. Ainda assim, tenho de admitir que não se trata de um livro para todos os públicos e que sua leitura é difícil, mas não é um beco sem saída. Se eu consegui, você também consegue.

Que livro é este e para que serve

Ulysses é, antes de tudo, um experimento. Um jogo literário. O jogo de James Joyce; o escritor irlandês quis criar uma obra cheia de paralelismos encobertos e significados ocultos, cuja descoberta pudesse manter ocupados os críticos durante gerações. Não restam dúvidas de que conseguiu seu objetivo: ainda hoje, as inumeráveis referências camufladas no texto são objeto de estudo. Não nos deteremos aqui em fazer uma sisuda análise dos significados do livro, mas é inevitável apontar algum comentário a respeito. 

Detalhe da capa de uma edição de 1937 de Ulysses


Ulysses narra uma jornada na existência de vários habitantes comuns da Dublin dos anos vinte. Faz isso através de dezoito capítulos muito diferentes entre si, tanto no tom como no estilo. Segundo o próprio Joyce indicou a alguns amigos, cada capítulo faz referência a uma personagem ou episódio da Odisseia de Homero e o título do romance já dá uma pista disso. O Ulisses da Odisseia era a figura literária favorita de Joyce, por isso que o converteu no título e centro de seu jogo literário, embora no livro não exista nenhuma personagem com esse nome. 

O equivalente do grego Ulisses no romance é Leopold Bloom, e sua odisseia individual não se passa num oceano mas pelas ruas da pitoresca capital irlandesa. Molly Bloom, sua esposa, é uma moderna encarnação de Penélope. E Stephen Dedalus não apenas se refere a Telêmaco – o filho de Ulisses e Penélope –, como é uma espécie de alter ego do próprio Joyce. Além disso, alguns capítulos fazem alusões sutis aos ciclopes e às sereias, Calipso, Proteu e outros da mitologia homérica. Não vamos aprofundarmo-nos mais nesses paralelismos e noutros segredos do texto. Qualquer leitor pode recorrer aos esquemas elaborados pelo próprio Joyce e enviados aos seus amigos Carlo Linati e Stuart Gilbert. Ambos esquemas diferem um tanto entre si, isto é, dão uma boa ideia de quais são os motivos ocultos no romance.

O que vai acontecer comigo quando ler este romance

... se é que podemos chamá-lo romance. Ulysses é como um daqueles velhos rádios de ondas longas, nos quais a gente girava os botões tentando captar emissoras distantes que falavam em línguas desconhecidas. Do rádio surgiam ecos, sibilos e fragmentos de conversa ou música; pareciam vindos de outro mundo, uma aparente cacofonia sem sentido que podia lhe aborrecer, exasperar, até que você começava a se acostumar a isso. No fim, os estranhos sons do cosmos vazio se transformavam num novo tipo de música, cuja raridade formava parte do encanto do ato de tentar localizar novas emissões. 

Em Ulysses o leitor está obrigado a fazer o esforço de sintonizar sua rádio para poder captar a emissora de Joyce. É muito difícil estar na mesma faixa ao começar a leitura e isso produz enfado ou desespero em muitos leitores; sofrem o que noutros termos poderíamos chamar a “mal-estar do Ulysses”. Mas esse mal-estar esconde uma recompensa. Se alguém faz o esforço de seguir adiante, a dificuldade inicial do livro pode chegar a ser superada. Isso mesmo se tivemos de voltar a sintonizar nossa rádio no começo de cada novo capítulo – tão diferentes são entre si –, mas chega um momento em que começamos a entender as regras do jogo planejado por Joyce. E é então quando começamos a desfrutar inclusive das passagens mais experimentais e bizarras.

James Joyce. Desenho para a Arion Press Editions, 1988.


O único erro que ninguém deveria cometer ao enfrentar Ulysses é pretender encontrar um roteiro convencional, claro, à vista e que o permita continuar lendo pelo mero interesse de comprovar como se desenvolvem os acontecimentos. Não existe tal coisa neste livro; o roteiro é o de menos. Ulysses é uma bricolagem, uma narrativa cubista, tão decomposta em pedaços que deixa de parecer uma narrativa. É preciso lê-lo sabendo antes que será difícil começar a desfrutá-lo até não conseguir formar certa visão global do que o livro pretende. E para isso é necessário ler alguns capítulos sem compromisso, que nos permitam apenas ter uma perspectiva sobre o todo da obra, como alguém se distancia alguns metros de um grande quadro para poder contemplá-lo – e entendê-lo – melhor.

A bíblia da vulgaridade

Um exercício literário interessante é o de comparar Ulysses com outros dois grandes romances de seu tempo: Em busca do tempo perdido de Marcel Proust e A montanha mágica de Thomas Mann. Além de sua importância literária e sua contemporaneidade, a comparação entre as três obras tem algumas outras razões. Para começar, temos três possibilidades distintas de descrição da realidade. O romance do escritor francês é um pictórico, retrata o mundo com atenção presa no detalhe e a profusão de pinceladas de uma tela barroca. O do escritor alemão é um livro musical, como uma sinfonia em que o ritmo e a duração são elementos fundamentais, ferramentas para perfilar um conceito da vida baseado na fugacidade dos anos, na impossibilidade de contenção do tempo. Ulysses, ao contrário, é um livro bíblico; distintos textos que, como na Bíblia, parecem vir de diferentes autores e épocas, escritos com estilos dos mais variados, às vezes até contraditórios. É impossível atribuir-lhe um estilo dominante. Cada capítulo tem um narrador diferente, uma forma de escrever (e de pontuar) distinta, uma característica alheia a anterior.

Além disso, caberia notar: os três livros citados têm a trivialidade como um de seus temas principais. No extenso romance de Proust, a superficialidade burguesa do seu contexto e das personagens que aí habitam. O próprio Proust é partícipe desta atitude frívola ante a vida, mas sua sensibilidade, sua aguda inteligência e seu talento literário lhe permite convertê-la num complexo objeto de estudo formal; sabe justificá-la até criar uma verdadeira Ciência do Banal. Thomas Mann, por sua vez, analisa essa superficialidade burguesa a partir do exterior, como observador crítico. Embora admita seus encantos e não negue sentir-se atraído por eles, também os censura e emite um juízo severo sobre uma noção insubstancial e improdutiva da existência. Com essa categorização moral e seu papel de juiz, Mann eleva o trivial não por si mesmo, mas como objeto – mesmo negativo – de uma reflexão filosófica profunda. 

James Joyce e Sylvia Beach na Shakespeare and Company


James Joyce, entretanto, nem justifica nem condena. Sua classe de matéria superficial é outra: a vulgaridade, isto é, o vazio sem refinamento das vidas da gente comum. Mas Ulysses não reflete, pelo menos não de maneira aberta, sobre essa vulgaridade. Utiliza-a como matéria-prima sem que nunca se perceba uma intenção de elevá-la por sobre si mesma. De fato, essa vulgaridade, unida à relativa qualidade insubstancial da trama, serve a Joyce para destacar a forma sobre o fundo, o continente sobre o conteúdo. Se Ulysses narrasse uma tragédia ou descrevesse um quadro dramático, já não seria o livro que é. A odisseia vulgar que dura um dia e cujo pedestre encena na pouco homérica Dublin – essa é a matéria-prima necessária para a exaltação da literatura em si, como artefato e como arte. O romance está muito além do que conta e muito além das personagens que protagonizam; o romance como peça artística é aqui o primeiro e principal; não há de importar qual é o conteúdo dessa arte. Como numa tasca onde a imagem de uma humilde jarra e um par de tranças de alho servem para dar grandeza, o tema do ignóbil ganha importância em Ulysses: é a criatividade e o sentido estético do artista que está retratando esse tema o que devemos admirar.

Presunção, artificialismo e esnobismo

Que Ulysses é um livro pretensioso não negava nem o próprio autor. Como já comentamos, suas intenções estavam muito além de contar uma história; queria causar admiração, intrigar, dar o que falar à crítica. Mas não deveríamos cair na armadilha de pensar que por isso o livro não tem coração. Pode ser que seja, no princípio, um artifício. E é; mas é um artifício edificado sobre a base de um incomensurável talento e um artesanato cuidado com extrema paixão. São sua complexidade e o incompreensível de sua estrutura, assim como o revolucionário de muitas de suas propostas, os que fazem com que o artifício se transforme em Arte com maiúsculas. Embora Joyce brinque de gato e rato com as inumeráveis referências ocultas do livro, não é necessário conhecê-las em sua totalidade para desfrutar e julgar Ulysses como uma leitura acabada e redonda. É um jogo, mas como acontece no xadrez, por exemplo, sua profundidade estética e filosófica vai mais além do mero componente lúdico ou competitivo. James Joyce criou um romance muito rico, inovador e muito fascinante como se não fosse possível transcender o divertimento formal.

Quando se fala de Ulysses e se comentam suas virtudes literárias ou peculiaridades de sua estrutura e conteúdo é até inevitável soar algo pedante ou dar a impressão de quem o fala ser um esnobe. Como é óbvio, não estamos falando de um livro de iniciação à leitura para pré-escolares, assim é impossível falar dele em termos demasiado simples. É um livro difícil, muito difícil; intrincado, com vários níveis narrativos, retorcido, exigente. Mas, volto a insistir, não é necessário um doutorado em joycecologia para apreciá-lo. O único requisito é está disposto a dar o passo e fazer o esforço de superar os entraves iniciais. Inclusive o leitor que desconheça que se trata de um compêndio de segredos pode chegar a sentir-se fascinado por muitos momentos do romance, mesmo por várias das passagens de aparência mais desconexa, que com uma atenta leitura ganham vida como essas luzes de efeito tridimensional que alguém há de mirar durante um tempo para conseguir ver alguma forma reconhecível.  

Há obras que estão na boca dos esnobes e que, de fato, não contêm nenhuma substância além de sua natureza “vanguardista”, “experimental” ou “referencial”. Mas esse não é o caso de Ulysses. É um livro que vale muito, muitíssimo, a pena. O que alguns chamam de obra-prima de boca vazia e como parte de uma pose intelectual não significa que não tenhamos razão quem os citam também como obra-prima simplesmente porque acreditamos que esbanja maestria pelos quatro lados. Não é uma leitura de entretenimento, das que levamos à praia e nem todo mundo conseguirá apreciá-la, porque como acontece com todas as obras desenhadas como experimentos estilísticos pulsantes haverá paladares que não se adaptam. Mas não teria escrito este texto sem acreditar que, igualmente ao que me aconteceu, há quem esteja perdendo essa obra por não haver encontrado o momento adequado para lê-la ou por haver desanimado desde cedo mas que terminará apaixonando-se por ela se o conceder uma voluntariosa oportunidade. Não é para todos os públicos, mas há um certo público que ainda não sabe que poderia ser para ele. Boa sorte, talvez você seja um dos afortunados. E então poderei dizer: bem-vindo a um desses livros que não se esquecem jamais.

Ligações a esta post:

* Este texto é uma tradução de "Cómo enfrentarse a Ulises", publicado no jornal El País. 

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