Romances de Patrick Melrose (vol. 2), de Edward St. Aubyn

Por Pedro Fernandes



Não importa o que se faça dessa vida. Se dediquemos a gastar cada minuto do tempo entre o ócio ou o trabalho exacerbado de construir uma eternidade, isto é, se aproveitemos ou não à maneira que nos for conveniente, sobretudo, se nos for dada a sorte de nos sobressair de todos os empecilhos que se mostram desde quando não passamos de uma vaga ideia na cabeça de um casal que gostaria de seguir o curso natural da existência com a reprodução. Nada importa. O fim é sempre o mesmo. Ninguém escapa à passagem inexorável do tempo, essa lâmina que corrói vagarosamente ou não a vida. 

Se são diversas as maneiras como transcorrem as vidas de cada um, e se o romance é, desde sua gênese, uma espécie de sismógrafo dessas diversidades individuais, por mais que o fim seja sempre o mesmo, não tem faltado exercícios que buscam observar de maneira igualmente diversa esse fluir da vida. E se, em algum momento, a crítica julgou sepultado esse interesse do romance, principalmente desde quando esta forma literária se tornou experimental em várias dimensões, da estrutura aos temas, já agora deverá voltar atrás nesse exame para observar uma recorrência em grande parte sua definidora. O exercício literário de Karl Ove Knausgård em Minha Luta, de Elena Ferrante na série napolitana são dois exemplos que, ao lado de Edward St. Aubyn comprovam o necessário mea culpa da crítica que uma vez sepultou o tipo de romance desinteressado no universal totalizante de um indivíduo.

No segundo volume de Romances de Patrick Melrose, composto pelas sequências “O leite da mãe” e “Enfim”, o leitor encontrará um Patrick que sobreviveu a todas as intempéries possíveis de alguém que decidiu atravessar uma longa noite da existência, seja porque os primeiros anos da vida deram-lhe traumas impossíveis de superá-los ao longo da vida, seja porque a maneira como a vida foi-lhe apresentada não se oferecia como uma linha cujo fim é iminente. 

Se nas três primeiras partes do primeiro volume – “Não importa”, “Más notícias” e “Alguma esperança” – somos confrontados com a relação conturbada entre Patrick e um pai alcoólatra, violento e viciado no abuso sexual do filho, agora nos é mostrada outra relação, a entre mãe e filho; se nas três primeiras partes trilhamos o submundo das drogas, dos vícios e das elucubrações do universo underground, agora reencontramos Patrick herdeiro de alguns males do pai, como o vício no álcool, mas imerso num trânsito contínuo em se adequar a uma vida determinada pelo status quo social. Ora casado com Mary e pai de dois filhos, Thomas e Robert, ora amante de Julia e divorciado de Mary, além das implicâncias com a busca por uma linha determinada da vida, o Patrick de agora tem outra preocupação latente, a de lutar pela ruptura do desequilíbrio financeiro instaurado desde a geração de sua mãe e capaz de colocar em risco todos os rios de fortuna dos Melrose construídos desde há séculos. É que Eleanor, sua mãe, depois da morte de David, pai de Patrick, recobrou alguns interesses de quando jovem como o de ser um tipo de figura caritativa e sem medir esforços para ajudar projetos cujas forças de atuação são sempre duvidosas porque coordenados por tipos interesseiros em milionárias fragilizadas: na juventude um padre italiano que se dizia salvador de garotos italianos das zonas de conflito, estratégia para praticar livremente a pedofilia e agora, na velhice, uma fundação comandada por Seamus cuja preocupação é a transformação espiritual das pessoas, mas na prática um mero instrumento de apropriação indevida da fé alheia. 

Assim, em “O leite da mãe”, transcorrido em três anos e em episódios de férias nos mesmos três meses de cada ano – agosto de 2000, agosto de 2001, de 2002, e de 2003 – investiga esse ir e vir dos Melrose e é contado em parte pelo ponto de vista do pequeno Robert e em parte por um narrador em terceira pessoa. Aqui é necessário observar um efeito de ordem estrutural da narrativa, empregado magistralmente por St. Aubyn. O leitor é levado por uma perspectiva alheia, mas precisará percorrer boa parte dos primeiros capítulos de “O leite da mãe” para perceber quem de verdade é o sujeito enunciador. Até então confundirá essa voz narrativa com a do recém-nascido Thomas ou com a possibilidade de ser o próprio Patrick que se recorda pelo ponto de vista do recém-nascido a fim de melhor captar os sentidos do filho e de quando esteve na mesma fase inicial da vida, aquela da qual, por mais prodigiosa que seja a memória não recordamos coisa alguma, mas responsável por se formar grande parte daquilo que somos. Mesmo porque, nessa primeira parte, a narrativa lida muito com a ideia de imitação, gesto comum às crianças e favorável ao desenvolvimento de nossas relações com o mundo. 

Esta segunda hipótese somada a esse exercício repetido ao longo de “O leite da mãe” é o que nos levará a compreender que a narrativa é construída em parte pelo ponto de vista não de Thomas, mas de Robert que fantasia ou se recorda pelos olhos de Thomas num experimento espelhar de investigação sobre como o irmão se vê e como compreende a realidade desde a concepção. Esse exercício criativo de St. Aubyn ganha uma projeção impressionante porque a partir dele o escritor pode colocar em funcionamento um ponto de vista inusitadamente novo capaz de revelar as relações entre pais e filhos de uma perspectiva que capta como os pequenos detalhes ou gestos dos adultos para com os pequenos participam na elaboração e formação de suas persona. Seria essa alternativa de construção do narrador uma estratégia do escritor em revelar que o filho um dia poderá se tornar sem perceber (estamos numa formação que inclui um extenso processo de sedimentação do inconsciente) o que pai se tornou, como demonstra a brincadeira com a linguagem engendrada pelo distanciamento do narrador a partir de uma pessoa que se mostra como quem indica a terceira pessoa. 

Vale apresentar um excerto que mostra o fim de uma cena em que estão Mary e a sogra numa discussão sobre os usos dos bens dela, especificamente a residência de verão em Saint-Nazaire, onde os Melrose sempre passam os meses de agosto: “‘Está tudo bem’, disse sua mãe. ‘Patrick só quer ajudá-la, ele está preocupado que você faça a doação cedo demais; ninguém está questionando que você pode fazer o que quiser com a Fundação. Os advogados apenas contaram isso a ele porque uma vez você lhe pediu ajuda. ‘Eu... preciso... descansar’, disse sua avó. ‘Então nós vamos sair’, declarou sua mãe”. O uso do possessivo marca a construção dessa visão em terceira pessoa mas assumida por uma figura em cena, Robert, entretanto, o leitor poderá compreender, uma vez que Eleanor é a mãe de Patrick, que este pronome se refira à própria protagonista da narrativa, isto é, o próprio Patrick Melrose, cumprindo assim um jogo de espelhos entre os lugares do pai e do filho. 

Muito mais adiante à cena apontada, é a própria narrativa que esclarece esse jogo assumido em parte de “O leite da mãe”: trata-se de uma perspectiva infantil quando a criança assume a terceira pessoa para se referir a si e a primeira para se referir à terceira pessoa. Isto é, o narrador se beneficia desse jogo de reflexão e refratação espelhar infantil para problematizar as relações pai e filho no intuito de oferecer uma compreensão de que a herança de um para outro não meramente genética, é também de padrões culturais e comportamentais. “Ela pegou Thomas e o pôs sentado em seu colo, balançando-o delicadamente. Sempre que se machucava ele voltava a se chamar de ‘você’, apesar de já ter descoberto o uso correto da primeira pessoa do singular seis meses antes. Até então, ele costumava se referir a si mesmo como ‘você’ pelo motivo perfeitamente lógico de que todo mundo fazia isso. E também se referia aos outros como ‘eu’, pelo motivo perfeitamente lógico de que era assim que eles se referiam a si mesmos”. 



“O leite da mãe” é uma metáfora capaz de dizer diversas acepções buscadas nesta quarta parte da saga de Patrick: é o que verdadeiramente designa, isto é, o leite materno que sustém o recém-nascido Thomas, aliás, quase sempre marcado pela ausência e distanciamento do pai, quem teme repetir com os filhos, as mesmas mazelas que o pai lhe transmitiu, muito embora tenha claramente uma postura que em tudo se distingue de David. Mas é também a herança de Eleanor, um dos epicentros da intriga, desde a ideia de doar a propriedade de Saint-Nazaire, uma ação que representa para Patrick uma deserção da mãe com o próprio filho. 

Isto é, esse primeiro momento do segundo volume de Romances de Patrick Melrose dedica-se a explorar as relações entre Patrick e Eleanor e entre mães e filhos, já que encontramos aí não somente o par Patrick-Eleanor, mas ainda relação entre Mary e os filhos. E não finda aqui. O desfecho da briga sobre a herança, leva a família Melrose a uma viagem nos Estados Unidos – em agosto de 2003, última seção de “O leite da mãe” – e St. Aubyn aproveita a ocasião para ampliar seu olhar fino sobre o modelo de vida do estadunidense, esse que, infelizmente, é tomado como padrão por grande parte das nações, incluindo o Brasil. Aquilo que exercita de forma grandiosa no primeiro volume dos Romances sobre o Reino Unido e ignora aí o país mais ao norte de América, afinal, Patrick vai aos Estados Unidos para resgatar os restos mortais do pai, recai agora nesta parte da obra. E com um tom muito mais mordaz. 

É interessante observar que o romancista não elege um modelo de vida sobre o outro, o inglês sobre o estadunidense e muito menos este sobre aquele, mas reabre o exercício irônico pela caricaturesco do jeito de ser e o hábitat em nada parecido com a Inglaterra, desde a língua aos hábitos alimentares. “Depois de ir lá, fazer compras na Carnegie Foods e assistir algumas horas dessa rede delinquente de televisão, cheguei à conclusão de que provavelmente deveríamos jejuar durante nossas férias aqui. A criação industrial não para no abatedouro, ela para na nossa corrente sanguínea, depois dos mísseis de comida de Henry Ford terem sido lançados de suas gaiolas para as nossas bocas abertas e dissolvido seus hormônios de crescimento e suas rações geneticamente modificadas no nosso organismo cada vez mais instável. Mesmo quando a comida não é ‘rápida’, a conta é instantânea, atirando um comedor preguiçoso de volta para as ruas cheias de lanches. No final, estamos na mesma esteira rolante das galinhas sem penas sendo eletrocutadas” – diz Patrick. E acrescenta, mais adiante: “mas o resto do país são pessoas em carros enormes se perguntando o que comer em seguida. Quando alugarmos um carro você vai ver que ele é realmente uma sala de jantar móvel, com mesinhas e porta-copos por toda parte. É uma nação de crianças famintas com armas de verdade. Se você não explode com uma bomba, explode com uma pizza Vesúvio. É assustador”.

Além da exposição sobre os danos do modo de vida do estadunidense, outro debate encerra a primeira parte do segundo volume dos Romances: a do direito do indivíduo sobre a vida. Isso porque, Eleanor, depois de uma queda em que fratura o quadril se vê cada vez mais entregue ao fim da vida e, sem quaisquer expectativas, recorre ao filho para conseguir o direito do suicídio assistido. Embora o romance não aprofunde uma discussão ética ou filosófica sobre o tema, não deixa de tratá-la como algo a ser feito pauta entre os diversos setores da sociedade e a uma cultura de hipervalorizarão da vida, capaz mesmo de querer lutar contra o destino inevitável da existência, situação que se coloca em oposição ao discurso dos direitos individuais do homem tão defendidos nas democracias contemporâneas.

Agora, o debate crítico sobre a eutanásia, cede espaço para a discussão sobre a morte em “Enfim”. O termo conclusivo, um último suspiro de quem espera por um desfecho, dedica-se a explorar em torno da morte de Eleanor, as diversas faces do luto – desde o instante de descanso do doente que sofreu uma vida ao de dor e comunhão entre os indivíduos irmanados pela figura morta ou mesmo uma reaproximação dos vivos para os polos mais significativos da vida e a repensar algumas atitudes e rumos sobre si, o outro e o morto. 

Aqui, o leitor tem contato sobre a vida de Eleanor, a extensa rede de sofrimentos a qual foi submetida, o que revela uma face capaz de redimir todas as opiniões ruins que porventura construíamos sobre sua figura, além, é claro, de saber, como no fim de uma novela, sobre os desfechos das vidas das personagens principais que deram forma ao longo enredo dos Romances. Não é, entretanto, como nas novelas, um instante de revelação ou mesmo de resolução de todos os conflitos ou inquietações construídas ao longo desse itinerário. St. Aubyn explora com maestria a ideia de deixar o leitor em suspenso sobre alguns desfechos – tal como faz no final de “O leite materno” sobre o possível suicídio de Eleanor. 

Os acontecimentos de “Enfim” se passam dois anos depois do agosto de 2003 e estão concentrados no funeral de Eleanor: Patrick já está separado de Mary, consegue uma saída para o problema financeiro que o perturbava desde a perda da propriedade de Saint-Nazaire, e Mary, consegue sobressair da relação simbiótica que havia assumido desde o nascimento de Thomas ao se envolver, ainda quando casada e ainda que de passagem, com um filósofo da extirpe decadente. Ou seja, St. Aubyn retoma de alguma maneira – e agora pela órbita do humor negro – às mesmas intenções da narrativa de salão que domina parte dos primeiros livros dos Romances. E, para encontrar uma saída que resuma esse itinerário também no ponto onde este texto começou vale citar uma passagem de “Enfim”: “A vida é só a história daquilo para o qual voltamos nossa atenção”. A definição, esclarece, portanto, o intervalo que se passa entre o nascimento e a morte. Para quais episódios damos atenção nesse curso de tempo?


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