segunda-feira, 13 de março de 2017

Elizabeth Bishop e Lota Macedo Soares

Por Telma Amaral Gonçalves



Elizabeth Bishop, grande poetisa norte-americana, viveu durante quinze anos uma intensa história de amor com a brasileira Lota Macedo. Foi um período marcado por muita alegria, mas também permeado por inúmeras dificuldades que acabaram por separar o casal. Lota era oriunda de uma família aristocrática que viera para o Brasil no tempo da colonização. 

Nascida em Paris, falava fluentemente francês e português e dominava menos o inglês. No âmbito familiar era vista como intelectual, anticonvencional e homossexual. Apesar de não ter cursado uma universidade, tinha conhecimentos profundos em vários campos, como arte, arquitetura e urbanismo e era considerada pelos amigos como uma mulher inteligente, espirituosa, sofisticada, generosa e determinada. 

Desgastada emocionalmente com a separação dos pais, resolveu morar sozinha aos vinte e cinco anos, o que já significou um pequeno escândalo na alta sociedade da época. Retornando de um período em Nova York, projetou e construiu com a ajuda de um arquiteto sua casa no bairro de Samambaia, em Petrópolis, construção que se tornou um marco da arquitetura brasileira moderna.

Elizabeth ficou órfã de pai quando tinha oito meses e a mãe, que entrou em surto psicótico a partir disso, passou o resto da vida em clínicas psiquiátricas, não tendo tido convivência com a filha que foi criada inicialmente com os avós maternos, em seguida com os avós paternos e depois por uma tia materna. Terminou seus estudos e iniciou sua carreira como poetisa e escritora. Tímida e insegura, sua trajetória foi marcada por estados depressivos, momentos nos quais ela recorria ao álcool, chegando a se internar várias vezes para tratamento. 

A escritora chegou ao Brasil em novembro de 1951, passando inclusive por Belém e tendo ido até a cidade da Vigia, como relata em uma de suas crônicas (publicada em Esforços do afeto). Ela pretendia passar aproximadamente quinze dias, mas conheceu Lota e com ela permaneceu no país por quinze anos. Pode-se dizer que o motivo inicial da permanência de Bishop no Brasil foi um prosaico caju, no qual ela deu duas mordidas, o que lhe provocou uma crise alérgica, cujo inchaço deformou suas mãos e rosto (ver texto disponível no final desta post). 

Hospedada na cobertura de Lota na praia de Copacabana, a atenção dispensada pelos brasileiros a encantou; mais tarde, quando foi para a casa de Samambaia ainda em construção, Lota declarou-se apaixonada por ela e pediu-lhe que permanecesse ali, dizendo que tomaria conta dela e construiria um estúdio perto da casa no qual ela poderia se dedicar à sua 2047 poesia, o que de fato aconteceu. 

Elizabeth que se definia como “a pessoa mais solitária que jamais viveu” registrou em uma carta: “foi a primeira vez que alguém me ofereceu um lar, tanta coisa” e considerou que estava “extremamente feliz pela primeira vez na vida”. Ao lado de Lota, ela viveu um dos períodos mais harmoniosos e produtivos de sua vida – escreveu parte substancial de sua obra nessa época – mas também um dos mais turbulentos. 



Em 1960, Carlos Lacerda, amigo de Lota, tornou-se governador da Guanabara e a convidou para realizar uma obra pública, o Aterro do Flamengo, o que fez com que as duas tivessem que se mudar para o apartamento no Rio de Janeiro. Lota dedicou-se de corpo e alma a essa obra que se transformou num processo turbulento, agravado pelo fato de estar sendo encabeçado por uma mulher sem diploma universitário, o que gerou inúmeros conflitos com outros profissionais que participavam do projeto. 

A situação foi se tornando cada vez mais insustentável e o relacionamento das duas começou a sofrer um desgaste inevitável devido aos cinco anos de obras no Parque, com Lota trabalhando de doze a catorze horas por dia. Relegada, a poetisa voltara ao álcool e não mais produzia, acabando por aceitar um convite para dar um curso em Seatlle, nos EUA. 

Aliviada por afastar-se das turbulências políticas do Brasil, Elizabeth desejava que Lota pudesse estar com ela, mas Lota estava completamente envolvida com o projeto que estava desenvolvendo e não se prontificava a viajar. Apesar disso, Elizabeth pretendia voltar para o Brasil e viver com Lota “para todo o sempre”. 

Com a derrota do candidato de Carlos Lacerda em 1965, Lota foi retirada do comando dos trabalhos, o que resultou em um colapso nervoso e ela teve que ser hospitalizada. O médico de Lota pediu que Elizabeth se mantivesse afastada a fim de que esta saísse da crise e ela que já havia retornado ao Brasil, viaja para Nova York. 

Em setembro de 1967, Lota enviou um telegrama à Elizabeth Bishop dizendo que estava indo para Nova York encontrá-la. Elizabeth a recebeu no aeroporto e a levou para o apartamento que estava ocupando. Lota não estava bem e mostrava-se muito deprimida e fragilizada, física e mentalmente. 

Na mesma noite da chegada, Lota tomou um vidro inteiro de antidepressivos. Depois de uma semana em coma, seu coração parou. Só então Bishop comunicou a família de Lota no Brasil, o que lhe rendeu inúmeros constrangimentos e acusações de responsabilidade pela morte de sua parceira. Depois de quinze anos junto à Lota, Elizabeth se viu sozinha novamente teve que dar curso à sua vida.

Ligações a esta post:

* Este texto foi publicado inicialmente nos anais do XVII Encontro Nacional da Rede Feminista e Norte e Nordeste de Estudos e Pesquisa sobre a Mulher e Relações de Gênero e reproduzido com breves ajustes neste blog com aval da autora.