Minhas falas

quarta-feira, 11 de novembro de 2009


O grito de Caim por José Saramago

Pedro Fernandes de Oliveira Neto


É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue

José Saramago "O evangelho segundo Jesus Cristo (OESJC), 2006, p.327.


Já era de se esperar. E não há novidade alguma no fato. O novo romance de José Saramago, Caim, lançado há poucos dias, recebeu da Igreja o já esperado visto de condenação devido seu teor. Segundo o episcopado lusitano, a nova obra do escritor português não passa de uma operação publicitária e reduz o romancista à categoria de sujeito amante da descordialidade e da ofensa.

Depois de insistir na concepção carnal de Jesus, "nascido como todos os filhos dos homens, sujo do mesmo sangue de sua mãe, viscoso de suas mucosidades" (OESJC, 2006, p.65), de uma Maria não virgem, do relacionamento amoroso entre Jesus e Madalena e do que possivelmente esteve envolvido no desfecho da vida de Cristo, Saramago avança sua veia crítica sobre o discurso religioso cristão quando nesse seu novo romance intima o leitor a se pôr novamente de cara com a face crua de um Deus que já no seu evangelho dava ares de seu egocentrismo, maquiavelice e crueldade.

Caim reconta a modo de Saramago, numa leitura leve e densa montada no seu já conhecido fluxo de narrar e nos jogos especulares de uma escrita que mira a si e os movimentos externos de alienação obliterados pelo balé das ideologias correntes, entrecortados tudo isso pelo tom de uma realidade às avessas, a já conhecida história do Gênesis, em que a oferenda de um dos filhos de Adão, no caso Caim, não teria sido do agrado de Deus, e, por isso, fora punido.

Com um título seco, Caim há de possuir uma carga forte de sentido quando faz por a personagem bíblica à horda dos oficiais mártires e recupera seu lance na materialidade mítico-histórica por outras vias. Esse romance vem retomar feixes de compreensão que são próprios do escritor português: os de que desde os primórdios já esse Deus a que adotamos como ser supremo nutre sua sede de sangue e o que o amor dedicado às suas crias à imagem e semelhança sua é algo questionável. Isso estaria implícito em atitudes como a de não aceitar como oferenda as frutas de Caim em detrimento do cordeiro oferecido por Abel. Em "Caim" quem recebe boa parcela da culpa pelo trágico desfecho - já sabemos que um irmão por inveja mata o outro - é o mesmo Deus sanguinário d'O evangelho.

Caim é para ser lido como se escrito antes d'O evangelho. Tem aqui a gênese do mal que vem entranhado nos modos ler Deus. No romance de 1991, recordo-me da cena em que se dá um dos primeiros encontros de Jesus com Deus: Ele o obriga o sacrifício de um cordeiro que Jesus a todo custo tentou esquivar do trágico fim; vendo a displicência do filho para com a ordem, Ele próprio fulmina o quadrúpede sem nem ao menos reparar que Jesus cortara-lhe pedaço da orelha para parecer cria sem serventia. Além dessa cena, é bom lembrar de outra: a em que Deus rejeita o arrependimento do diabo pelo interesse no sangue de Jesus: "Não te aceito, não te perdoo, quero-te como és, e, se possível, ainda pior do que és agora" (OESJC, 2006, p.328). São ambas as cenas como que fios que se amarram a esse novo romance, uma vez que "Caim" recupera os debates para o entendimento para o que venha ser a culpa e os sacrifícios feitos para o perdão. Ao mesmo tempo vem instaurar uma questão nova no debate: a do redimensionamento do conceito sobre a inveja.

No fundo o que pretende Saramago é injetar nos eixos das ideologias pequenos cartuchos a fim de proporcionar uma reflexão, uma nova maneira de ver e de mostrar que tudo o que nos cerca, inclusive nós próprios, é materialidade construída à base de nossas próprias escolhas.

Mas, matérias de ficção à parte, voltemos a querela da Igreja. Se estamos diante de artefatos ficcionais, o que a Igreja se finge de doida e não entende, se entende não admite, é o medo; esse não é nenhuma ingenuidade. É o arrepio que lhe corre pela dorsal de uma implosão de suas bases ideológicas, isto é, o desmantelamento de suas historietas de carochinha pelas vias "indevidas" dos fatos. O arrepio que lhe corre pela espinha da Igreja é o de um vento que desbarate toda a complexa rede de um poder que nada tem adiantado senão subverter os verdadeiros preceitos cristãos e estilhaçar as já frágeis bases da convivência humana.

A história oficial não nos deixa mentir. Quantos foram os mortos que em nome das causas da Igreja a terra embebeu-se de seu sangue e adubou-se com seus ossos e carnes? Quantos regimes de silenciamento e opressão tiveram as bênçãos da Igreja? Incontáveis são os números para as duas primeiras respostas. Todas, me parece ser a resposta mais concreta a última pergunta. Que o diga o extenso rosário de horrores rezado por Deus a Jesus por quase seis páginas corridas d'O evangelho, noutra cena também singular, a da barca, onde reunidos estão os dois mais o diabo a decidirem o destino de Jesus.

Caim vem pelas mãos de um escritor perspicaz, que enxerga por entre as frestas do nos posto como dito e aceito como realidade, propor um reengendramento dos discursos e da própria realidade. Senão isso, pelo menos uma reflexão criteriosa acerca disso tudo. Quanto ao entendimento da Igreja de que Saramago conhece superficialmente a Bíblia, me parece ser o contrário, ela é que conhece superficialmente a obra de Saramago.



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texto publicado inicialmente em Correio da Tarde, na sessão Artigos, em 23 de outubro de 2009; depois publicado sob o título O grito de Caim e o silêncio da igreja no Caderno Domingo, do Jornal de Fato, em 01 de novembro de 2009; depois publicado sob o referido o título no Caderno Universo do Jornal O Mossoroense, em 08 de novembro de 2009.

Alguns dos filmes brilhantes

segunda-feira, 9 de novembro de 2009



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Jules e Jim - uma mulher para dois, François Truffaut


Diretor celebra alegria de viver nos vínculos entre personagens que compõem triângulo amoroso


Se Jean-Luc Godard foi o cineasta mais inovador da Nouvelle vague, François Truffaut foi o mais amado. Dono de uma personalidade afetuosa e tranquila, ele nos legou uma obra delicada, que fala de sentimentos, relacionamentos, a alegria das pequenas coisas, e talvez essa ternura tenha ajudado no carinho do público pelo diretor. Alguns dos seus ideiais estão sintetizados em Jules e Jim - uma mulher para dois, história de um triângulo amoroso que sobrevive a uma guerra e a muitos percalços. A trama é baseada em um romance autobiográfico de Henri-Pierre Roché que Truffaut comprou em um sebo anos antes e ficou encanntado com o que chamava de "perfeito hino ao amor e, talvez à vida". O então crítico prometeu que, caso um dia fizesse filmes, adaptaria Jules e Jim.
O austríaco Jules (Oskar Werner) é retraído e introspectivo, culto e inteligente. Torna-se amigo do francês Jim (Henri Serre), escritor como ele e quase o seu oposto em temperamento - bem humorado e extrovertido. De volta a Paris depois de uma viagem à Grécia, os dois conhecem Catherine (Jeanne Moureau), uma mulher livre, liberal e apaixonada pela vida. Ambos se apaixonam por ela, e os três dão início a uma sólida amizade e um amor platônico. Catherine e Jules se casam e têm uma filha, e Jim é enviado para lutar na Primeira Guerra Mundial. Anos depois o trio se reencontra, ela se descobre apaixonada por Jim e eles se tornam amantes. E assim se passsam décadas, sem que ela consiga se decidir entre um deles.

Jules e Jim é celebração do amor e da sinceridade em tempos em que valores como esses parecem extintos. Impossível não se encantar com Catherine e sua alegria, graça e independência, somados a honestidade com os próprios sentimentos. Tragédias humanas como a guerra chegam e vão, e ela se mantém coerente com o seu único objetivo - ser feliz. Jeanne Moureau nunca esteve tão bem, tão bela, tão senhora de si.

Este é o terceiro longa de Truffaut. Os primeiros são as memórias de infância em Os incompreendidos (1959) e a homenagem ao noir Atire no pianista (1960). Em 1971, o diretor viria adaptar mais um livros de Henri-Pierre Roché, Duas inglesas e o amor.






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fonte. Revista BRAVO!, 2007, p.43.