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Biografia involuntária dos amantes, de João Tordo

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Por Pedro Fernandes

“O amor também é uma mentira. A mentira mais velha do mundo”. As duas sentenças aparecem numa conversa entre o professor narrador de boa parte da história contada em Biografia involuntária dos amantes e a chefe de uma editora em Londres, Antonia McKay, e justapostas, como foram propositalmente apresentadas aqui, podem evidenciar sobre o que é este romance de João Tordo. Se não traduzem efetivamente a obra, são significativas para o estágio de permanente frustração que acometem as personagens envolvidas nos dramas centrais da narrativa. Pode-se mesmo dizer que a tentativa do narrador ao se enredar pela história trágica entre o poeta mexicano Miguel Saldaña Paris e Teresa de Sousa é uma tentativa – e sobre ela caberá ao leitor descobrir se é ou não uma tentativa igualmente frustrada – em reverter sua condição de sujeito à beira de sucumbir às forças indeléveis do amor.
Isto é, não deposite o leitor grande arroubo ante o título da obra, esperando encontrar aí um daqu…

Sartre: a autenticidade e a violência

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Por Jorge Martínez Contreras



Jean-Paul Sartre morreu no dia 15 de abril em Paris, onde havia nascido há 74 anos. Numa entrevista publicada no início do ano no semanário francês Le Nouvel Observateur, havia declarado que viveria provavelmente mais cinco anos, talvez dez. Não sobreviveu nem dois meses às previsões. Sartre é agora um destino, o conjunto de suas obras e suas ações e dos juízos que sobre ele podemos fazer. Mas já que não poderá se defender do que no futuro afirmemos sobre sua vida e obra, comecemos por lhe infligir o inevitável e exato lugar-comum que o reconhece como um dos pensadores mais decisivos e prolixos do século XX. É dos poucos que puderam se expressar praticamente em todos os gêneros literários, sob o lema da nula dies sine linea (nenhum dia sem escrever). Publicou seis obras de cunho filosófico, quatro romances, um livro de contos, nove peças de teatro e duas adaptações, três roteiros de cinema, dez volumes de ensaios, três biografias e um infinidade de artigos,…

Aurora Bernárdez, sem Julio Cortázar

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O nome de Aurora Bernárdez nunca conseguiu ser desassociado da figura de Julio Cortázar, com quem se casou em 1953 e com quem viveu em Paris durante a etapa mais prolífica do escritor argentino, incluindo a de criação de O jogo da amarelinha. Mas com a publicação de O livro de Aurora (Alfaguara), vem à luz uma faceta desconhecida desta tradutora argentina filha de galegos, viajante ativa e, agora, escritora póstuma.
A edição é publicada graças ao empenho do compositor e cineasta francês, amigo íntimo de Aurora Bernárdez desde o início dos anos 1980, e quem, junto com Julia Saltzamnn organiza o livro. Segundo Philippe Fénelon, não há mais nada além dos textos agora publicados. Isto é, este o primeiro e também o último livro da escritora.
Livro que é uma revelação mesmo para alguns do seu círculo de amizades, afinal, se os mais achegados a Aurora sabiam que ela escrevia, mesmo assim, grande parte não haviam lido nada. “Ninguém, exceto sua irmã Teresa e Perla Rotzait, sua amiga poeta d…

Boletim Letras 360º #224

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Neste domingo, 25 de junho, encerramos a promoção que sorteia um exemplar dos Contos completos, de Dostoiévski; como dissemos no Facebook, alcançando ou não a marca dos 200 inscritos, meta que havíamos estipulado para a realização do sorteio. Interessados em participar, basta ir aqui. Bom, sem delongas, eis, então, as notícias que copiamos esta semana no mural do Letras no Facebook. Muita novidade boa – diga-se.


Segunda-feira, 19/06
>>> Brasil: A Sesi-SP Editora lança o Auto da Sibila Cassandra, de Gil Vicente
A peça foi representada pela primeira vez no Mosteiro de Xabregas nas matinas do Natal à rainha viúva D. Leonor, provavelmente em 1503 ou 1513, embora a Compilação não dê nenhuma indicação sobre a data. Segundo as próprias palavras do autor, o auto trata "da presunção da Sibila Cassandra, que como por espírito profético soubesse o mistério da Encarnação, presumiu que ela era a virgem de quem o Senhor havia de nascer. E com esta opinião nunca quis casar". Ou se…

Como enfrentar Ulysses

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Por E. J. Rodríguez

Foi meu pai quem me aconselhou algumas vezes, com ênfase, a leitura de Ulysses. Suas recomendações sempre eram certeiras e sua paixão por este livro mais que evidente – ele havia lido quase de uma sentada a primeira vez e acreditou, crasso erro, que comigo ia acontecer a mesma coisa –, e então tentei mergulhar em sua leitura duas ou três vezes. E duas ou três vezes abandonei o romance depois de ler, ou melhor diria, de tropeçar entre linhas, durante um par de capítulos. Pensava que melhor dedicaria meus esforços a livros menos inóspitos.
Há algo no início do Ulysses que pode desfazer o ânimo inclusive dos leitores mais treinados e dispostos. Posso dizer, é o único livro que tive de abandonar não porque fosse um mal livro, mas porque me dava por vencido. Esta é uma sensação que muitos leitores experimentam com este romance, embora exista uma minoria privilegiada, ou sortuda, ou talvez mais evoluída, que consegue mergulhar na obra já num primeiro contato. Mas se escr…

A ilha, de Aldous Huxley

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Por Pedro Fernandes


O romance de tese é costumeiramente descrito como produto do naturalismo. Trata-se de uma prosa narrativa a serviço da demonstração de um determinado ponto de vista assumido pelo escritor. Mas, atenção! Em menor ou maior grau, toda obra literária, porque construída na e pela linguagem, está interessada em apresentar ou defender certa maneira de compreensão do mundo. Isto é, toda obra literária não está apartada de uma esfera ideológica como foi possível passar acreditar ingenuamente a partir de certo momento da história da literatura. O que, entretanto, favorece o conceito do romance-tese, é que, neste os pontos de vistas são muito transparentes e participam no enforme das personagens, situações e mesmo da atmosfera da narrativa; ou seja, não se trata meramente de uma incursão dispersa através da qual se materializa direta ou indiretamente uma dissertação sobre um tema ou uma questão qualquer. Outra observação pertinente: não se trata de uma forma presa ao período …