sábado, 27 de agosto de 2016

Boletim Letras 360º #181

Mais alguns papéis digitalizados e já teremos online boa parte do arquivo de Gabriel García Márquez; esta semana novidades sobre o intenso andamento desse trabalho foram divulgadas, claro, com alguma amostra do já-feito.

Aqui, copiamos todas as notícias relacionadas ao núcleo de interesse do blog, que estiveram ao nosso alcance e foram postadas em nossa página no Facebook. Em breve iremos divulgar nossa promoção - há muito prometida. Aguardem só mais um pouco. É que iremos aproveitar as ocasiões de coisas boas que pensamos já para o aniversário de 10 anos do Letras e gostaríamos de inserir essa big promoção.

Segunda-feira, 22/08

>>> Brasil: Livro-referência de Eduardo Lourenço ganha edição no Brasil

Em meados de 2016, publicamos por aqui que a editora portuguesa Tinta-da-China, com sede no Brasil, passaria a editar uma coleção com autores de Portugal há muito conhecidos no nosso país mas pouco ou já não editados. Os três primeiros títulos vieram a lume: de Herberto Helder, Agustina Bessa-Luís e Antero de Quental. A boa notícia é que em breve sairá O labirinto da saudade, de Eduardo Lourenço, sua obra mais conhecida e já uma referência do pensamento lusitano.

Terça-feira, 23/08

>>> Brasil: Projeto Poemaria lança em setembro aplicativo gratuito para smartphone voltado para poesia

Em tempos de inúmeras possibilidades de o sujeito aparecer na internet, tirar selfies, mostrar o que vai jantar ou o que está pensando, por que não, usar a grande rede como um disseminador de poesia? O ator, diretor e poeta, Davi Kinski, idealizador e realizador do projeto Poemaria, vai realizar um Sarau Poético para promover o lançamento, no dia 13 de setembro, às 20h, no Reserva Cultural, na Avenida Paulista, do App DECLAMAÍ o primeiro aplicativo para smartphones. Inteiramente gratuito, pelo App o usuário poderá ver, gravar e partilhar vídeos com poemas. Os vídeos feitos através do aplicativo serão compartilhados nas redes sociais e divulgados no site onde abriga boa parte do projeto, que contém várias ações, dentre elas a série documental (em fase de criação), além de um longa-metragem, próximo passo do projeto.

>>> Brasil: Chega à web brasileira um hotsite sobre Roald Dahl

O centenário do escritor que é considerado um dos mais importantes contadores de histórias para crianças do século XX é comemorado em 2016. Para marcar a data a Editora 34 disponibiliza um espaço na web que apresenta seus títulos e personagens inesquecíveis, a edição especial de "O Bom Gigante Amigo", que este ano ganhou uma versão cinematográfica, dirigida por Steven Spielberg, além de diversas informações sobre o escritor e o principal ilustrador de seus livros, o genial Quentin Blake. Roald Dahl nasceu em 1916 no País de Gales, filho de pais noruegueses. Passou a infância na Inglaterra e, aos dezoito anos, foi para a África como empregado da companhia de petróleo Shell. Participou da Segunda Guerra Mundial como piloto da Real Força Aérea da Inglaterra. Começou a escrever quando era adido da embaixada inglesa em Washington. Seus livros para adultos e crianças são hoje traduzidos e apreciados no mundo todo. Roald Dahl morreu em 1990, aos 64 anos. De Roald Dahl, com ilustrações de Quentin Blake, a Editora 34 já lançou no Brasil: O BGA, O Bom Gigante Amigo (edição comemorativa do centenário de nascimento), Os pestes, O remédio maravilhoso de George, James e o pêssego gigante, O dedo mágico e O vigário de Mastigassílabas.

>>> O processo de digitalização dos papéis de Gabriel García Márquez

Desde dezembro de 2015 uma equipe de digitalização do Harry Ransom Center tem trabalhado no projeto de digitalização do arquivo do escritor de Cem anos de solidão - algo em torno de 24.000 páginas. Uma nota recente divulgada para a imprensa cita que já foram digitalizadas mais de 2.500 páginas manuscritas. O processo deve se estender ao longo dos próximos 18 meses. O material inclui, além de manuscritos, cadernos, álbuns de recortes, fotografias e coisas efêmeras do arquivo. No Tumblr do Letras postamos algumas peças divulgadas como de interesse aos leitores/curiosos sobre o material. Estão um roteiro de García Márquez para um filme sobre um jogo de futebol perfeito e notas para elaboração de Do amor e outros demônios.

Quarta-feira, 24/08

>>> O centro doméstico que dominou a vida literária de John Updike, a casa no número 117 de Philadelphia Avenue, em Shillington, cidade de pouco mais de cinco mil habitantes no condado de Berks, a 96Km da Filadélfia, se tornará museu em homenagem ao escritor

Foi ali que Updike cresceu depois de ter nascido na vizinha Reading em 1932, e viveu até 1945, quando fez 13 anos e a família se mudou para Plowville, o local a 20Km dali que a mãe conseguiu recuperar para a família. Desde então, a grande casa branca da Philadelphia Avenue teve outros moradores até ter sido comprada em 2012 pela John Updike Society (JUS). Criada em Maio de 2009, quando se celebraram os 50 anos de vida literária do escritor, e quatro meses após a sua morte, o espaço pretende promover a leitura e o conhecimento da obra de um dos autores fundamentais na história recente da literatura estadunidense. Além de uma revista, a JUS organiza conferências, atribui bolsas e conseguiu fundos para criar um museu com o nome e o legado de Updike. Será justamente na casa de Shillington que está prestes a abrir ao público totalmente recuperada, tal como era quando Updike ali viveu. A casa pretende ser um símbolo, a prova de que Updike nunca se descolou das suas origens, apesar de as relatar tantas vezes como claustrofóbicas, marcadas por forte religiosidade, moralmente e sexualmente castrantes, onde o indivíduo luta pela sua singularidade num meio que quer apagar as diferenças. A obra de JU é editada no Brasil pela Biblioteca Azul.

>>> Portugal: A nova edição da Revista Blimunda, mensário da Fundação José Saramago, já está online

"Um livro só existe se é lido; senão é um cubo de papel", diz Alejandro García Schnetzer na entrevista publicada na edição 51 da revista. Ele é quem está por trás da apresentação de "O Lagarto", que une as palavras de José #Saramago ao traço do artista popular brasileiro J. Borges (cf. divulgamos por aqui). A jornalista e escritora portuguesa Carla Maia de Almeida visitou a Biblioteca Internacional da Juventude, em Munique. Criada em 1949, numa tentativa de se trazer um pouco de cultura a um país arrasado pela guerra, a biblioteca reúne hoje mais de 600 mil livros. "É uma espécie de paraíso", relata. E Sara Figueiredo Costa passou uma tarde com os responsáveis pelo projeto "Livros na estrada" – que divulga autores em língua portuguesa aos turistas que visitam Lisboa. Há mais. Para ler basta ir aqui.

Quinta-feira, 25/08

>>> Itália: Davi, de Michelangelo, o belo de pernas frágeis ou como a integridade da estátua está ameaçada

O jornal New York Times publicou na semana passada uma extensa reportagem relatando como as imperfeições poderão levar à queda a estátua mais perfeita do mundo. A emblemática escultura, situada desde 1873 na Galeria de la Academia em Florença poderá ruir, segundo o texto, a qualquer momento se exposta ao um leve tremor provocado mesmo pelo tráfego dos visitantes, pelas obras no subsolo da cidade ou a leve réplica de um abalo sísmico. A fragilidade de Davi não se deve ao maltrato dos anos (ele já sobreviveu a um ataque em 1991 e às intempéries na Piazza della Signoria, onde agora há uma réplica). A causa está na delicadeza desta imensa figura de 5,17m de altura e 5.572Kg de peso se deve a um pequeno deslize de seu criador: o centro de gravidade da escultura se encontra ligeiramente desviado, o que faz com que o peso da peça recaía mais em certos pontos de sua anatomia que, depois de 512 anos, poderá acabar por não resistir. A fragilidade da estátua foi objeto de estudo de um grupo de geocientistas italianos em 2014. Uma inclinação de apenas 15 graus pode fazer ruir a estátua - concluíram. Espera-se que as autoridades responsáveis encontrem uma saída para a situação: dispor o Davi numa área equipada para resistir a sismos é uma das possibilidades.

>>> Brasil: Título inédito de Lewis Carroll no Brasil ganha edição

Publicado originalmente em 1876, na Inglaterra, o poema Caça ao Esnarque (uma agonia em oito surtos) é um épico do nonsense. Trata-se de um longo poema escrito por Lewis Carroll com alguns dos mesmos personagens do poema Jabberwocky, citado em Alice através do espelho. Dez personagens viajam em busca de um ser imaginário, o Esnarque, entre eles um Castor, um Banqueiro e um Padeiro. Traduzido ao longo de dez anos pelos mesmos tradutores de A bicicleta epiplética, de Edward Gorey, a edição brasileira da editora Laranja Original publica a obra com Ilustrações da artista plástica polonesa Gosia Bartosik e tem projeto gráfico assinado por Ana Caruso e Arthur Vergani.

>>> Estados Unidos: Cinzas de Truman Capote vão a leilão

Nos 32 anos da morte do escritor estadunidense eis o anúncio insólito: a empresa de leilões Julien Auctions (segundo conta o jornal The Guardian) levará à venda os restos mortais de Truman. Julien, presidente da casa, justifica a sua ideia com o fato de o autor gostar de criar oportunidades para aparecer na imprensa e ler o seu nome no jornal. Preservadas numa caixa esculpida japonesa, as cinzas fazem parte do patrimônio de Joan Carson, ex-mulher do lendário anfitrião do The Tonight Show, Johnny Carson. Joan acompanhou Truman nos seus últimos momentos e tinha as cinzas do escritor guardadas na divisão da casa onde Capote morreu em 25 de agosto de 1984. As comparações mais próximas que o leiloeiro conseguiu arranjar foram os leilões de uma pedra renal de William Shatner e o pênis do imperador francês Napoleão Bonaparte, este comprado em 1972 por um urologista de Nova Jersey. 

Sexta-feira, 26/08

>>> Inglaterra: O canal BBC2 encomendou a produção de seis episódios de Os luminares, adaptação de Eleanor Catton de sua própria obra

Situada no ano de 1866, período da corrida do ouro, a narrativa do extenso volume, acompanha Walter Moody, um escocês, que viaja para a Nova Zelândia em busca de sua fortuna. Numa noite chuvosa, ele chega a um hotel onde encontra doze homens que participam de uma reunião secreta para tentar solucionar uma série de eventos inexplicáveis que ocorreram na região. Entre eles, o desaparecimento de um homem rico, a tentativa de suicídio de uma prostituta e a descoberta de uma grande quantidade de ouro na casa de um bêbado. Cada um dos homens relata os eventos sob seu ponto de vista. Na adaptação para a BBC, a história acompanhará a trajetória de Anna Wetherell, que no livro de Catton é uma prostituta viciada. Ela é uma britânica que viaja para a Nova Zelândia no ano de 1895, também em busca de sua fortuna. Lá ela se envolve com Emery Staines (outra personagem do livro), com quem se envolve romanticamente. Ao longo da história, os dois lutam para ficar juntos. As filmagens terão início em 2017, com produção da Working Title Television (empresa adquirida pela NBC Universal) em parceria com a WTT. Ainda não há uma previsão de estreia. No Brasil o livro foi publicado pela Biblioteca Azul.

>>> Inglaterra: Mais sete livros de Agatha Christie serão adaptados nos próximos quatro anos

As novas adaptações fazem parte de um contrato firmado entre o canal BBC1 e a Agatha Christie Productions Ltd. Até agora o canal divulgou apenas três títulos dos sete que serão adaptados: Punição para a inocência, E no final a morte e Os crimes ABC. Para 2017 (cf. divulgamos aqui noutra ocasião), estreará a minissérie Testemunha de acusação. Em 2015, a rede de TV iniciou a série Partners in crime que foi cancelada depois de apenas uma temporada; e a minissérie E não sobrou nenhum/O caso dos dez negrinhos


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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O desvelar da existência em Beleza americana



Beleza americana me faz pensar nas obras de Clarice Lispector que terminam com a morte da personagem central em seu momento de maior graça existencial. Tal momento é como que o desvelar de uma verdade absoluta a qual revela ao ser que a tem o caminho para uma vida mais autêntica. Lester, personagem central do universo dirigido por Sam Mendes, passou a vida preso a um padrão familiar e por isso se revela como a prova viva de que o modelo de família tradicional é falho quando se torna algo sem sentido, mantido apenas para causar sentimento de pertencimento ao ciclo social tido como normal. Quando isso ocorre, há a negação de que outros modelos familiares podem, também, ser fonte de felicidade, como se houvesse um código – e na verdade muitos de nós pensam que ele exista de verdade – que impeça que haja amor além das fronteiras impostas por nossa linguagem.

Lester e sua esposa, porém, estão ocupados demais com sua própria tragédia para tentar anulas outras formas de felicidade, ao contrário do vizinho militar, que passa o tempo todo monitorando as atitudes do filho para impedir possíveis surtos de homossexualidade, sem reparar no profundo estrago existencial e psicológico que causa ao garoto e à mãe do mesmo, que demonstra uma apatia ao longo filme que mais parece com profunda demência, uma loucura que remete a romances russos que mostram a realidade como algo insustentável demais para não ser ignorada, mesmo que inconscientemente.

Carolyn e Lester sofrem por terem degenerado em uma dupla que faz de tudo para se suportar, enquanto contemplam os antigos sonhos de amor mortos pelo passar do tempo. Como o casal protagonista de Foi apenas um sonho (também de Mendes), os dois são a face viva do desespero e procuram de todas as formas romper com a bolha na qual estão imersos. Todavia, a cada cena dos dois juntos percebemos que já não há forças nem mesmo para disfarçar perante os outros e si mesmos que não há mais amor, nem mesmo afeição, entre os dois, exceto o ódio. Ambos servem de espelho um ao outro a exibir como as duas existências fracassaram em seus projetos individuais e coletivos, o que torna a comunicação entre ambos impossível ou muito dificultosa.

É na clandestinidade amorosa que acharão a chance de fugir de seu ciclo amorosa que acharão a chance de fugir de seu ciclo vicioso de conflitos e ódio, cada um projetando no novo ser amado o que sente faltar em si. Carolyn vê no famoso corretor imobiliário por quem se apaixona o sucesso profissional que ela tanto persegue e não alcança mesmo já sendo uma mulher de meia idade. Já Lester vê na jovem Angela a chance de rejuvenescer e de recuperar o vigor perdido ao longo da vida, o que de certa forma ele consegue.

Nesse momento, os dramas existenciais que moldam a família vêm à tona, mesclando-se a outras questões importantes para o entendimento de nossa sociedade e seus problemas de ordem moral e social. A pedofilia de Lester se mostra mais como uma perversão social – o macho fracassado em busca de redenção – do que uma patologia em si, mostrando como a conquista do sexo oposto se liga no ser do homem heterossexual a minuciosas questões do ego, que em certos contextos podem desencadear gestos absurdos e violentos. Ao mesmo tempo, o vizinho de Lester usa de um profundo fascismo homofóbico para impedir que o filho use drogas ou se torne homossexual. Nesse sentido, Frank Ritts é a voz totalitária dentro do universo fragmentado de Beleza Americana, tentando abafar os problemas existentes por meio do cerceamento da liberdade alheia, o que leva a esposa à loucura, o filho ao tráfico de drogas e ele próprio a um assassinato com o intuito de abafar a dolorosa verdade – para ele – de que o que considerava inimigo reside dentro de si. Assim como todo sistema totalitário, Frank se mostra um sujeito que usa a força para parar o fluxo do pensamento e o desenrolar da história. Desse modo, por trás da solidez do discurso há um profundo desequilíbrio que se revela em todos os momentos em que Frank enxerga do outro viva e nua.

A realidade de Beleza americana é cheia de cores, mas sem vida e sem cheiro, como a flor que simboliza o nome do filme. Tal realidade é repleta de artificialidade. Jane e Ricky – filha e filho de Lester e Frank, respectivamente – são os elementos de profundidade, de amor sincero e romântico dentro do ambiente melancólico do filme. Todavia, ainda são jovens e o tempo sempre gera o risco de que caiam na artificialidade dos pais no futuro. Ainda assim, são elementos de resistência dentro de uma série de condutas existenciais inautênticas. O casal de homens que pouco aparece no longa representa melhor a felicidade genuína que rompe barreiras sociais impostas. A escassez de aparições deste casal se deve ao fato de que o desejo do filme é focar nos núcleos familiares instáveis depois que as palavras já não bastam para garantir a ilusão de certeza e precisão.

Por mais asqueroso que o processo de Lester se mostre a priori, o enredo do filme o converte em algo profundamente tocante, belo e poético. O homem magistralmente interpretado por Kevin Spacey rompe uma série de empecilhos presentes em sua vida – a começar o emprego odiado – e deixa o ar patético e abobalhado  do começo de Beleza americana assumindo uma postura autônoma e corajosa. Porém, é no momento em que vai realizar o desejo por ele perseguido de forma obcecada – o corpo de Angela – que Lester possui a clara visão do quanto o patético de sua existência o dominou a ponto de ver em uma criança um obscuro objeto de desejo.

Curioso que mesmo Angela sendo tão jovem já se mostra também como uma vítima da artificialidade da realidade cotidiana. Bela, fumante e motorista, a jovem loira fala a sua amiga Jane o quanto gosta de se envolver sexualmente com homens mais velhos e o quanto isso mexe com sua vaidade. No fim do filme, o nervosismo diante de uma situação concreta com um homem mais velho leva sua capa a cair e ela serve de fator revelador para Lester se libertar das mentiras contadas a si mesmo. É aí que Lester percebe a beleza de sua vida até então ignorada e o amor nutrido por Jane e Carolyn. O monólogo final do filme é um poema de amor a uma vida cuja beleza muitas vezes percebemos apenas nos momentos em que a mesma se encontra no risco de um sumiço repentino, quando a vemos por inteiro regida por uma ordem diferente que não a do tempo.

A morte é a culminância de todos os desvelares do filme de Sam Mendes. Beleza americana se mostra ao mesmo tempo um interessante panorama social do fracassado sonho americano – que permeia muito dos discursos reacionários os quais se dizem em defesa da moral e dos bons costumes. Mas mais do que isso, esse belo longa-metragem se mostra como um belo painel das condutas existenciais inautênticas que permeiam muito de nossas vidas. Assim, ele também pode ser visto como um belo convite provocador para que nós rompamos nossas próprias ilusões pessoais, as quais limitando nossas vidas em modelos pré-formados só nos tiram o prazer de existir fazendo da morte um melancólico momento de redenção a nos salvar de nós mesmos.

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Rafael Kafka é colunista no Letras in.verso e re.verso. Aqui, ele transita entre a crônica (nova coluna do blog) e a resenha crítica. Seu nome é na verdade o pseudônimo de Paulo Rafael Bezerra Cardoso, que escolheu um belo dia se dar um apelido que ganharia uma dimensão significativa em sua vida muito grande, devido à influência do mito literário dono de obras como A Metamorfose. Rafael é escritor desde os 17 anos  (atualmente está na casa dos 24) e sempre escreveu poemas e contos, começando a explorar o universo das crônicas e resenhas em tom de crônicas desde 2011. O seu sonho é escrever um romance, porém ainda se sente cru demais para tanto. Trabalha em Belém, sua cidade natal, como professor de inglês e português, além de atuar como jornalista cultural e revisor de textos. É formado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará em Letras com habilitação em Língua Portuguesa e começará em setembro a habilitação em Língua Inglesa pela Universidade Federal do Pará. Chama a si mesmo de um espírito vagabundo que ama trabalhar, paradoxo que se explica pela imensa paixão por aquilo que faz, mas também pelo grande amor pelas horas livres nas quais escreve, lê, joga, visita os amigos ou troca ideias sobre essa coisa chamada vida.


quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A definição do amor, de Jorge Reis-Sá


Por Pedro Fernandes



Jorge Reis-Sá visita um tema que não é novo na literatura (aliás qual é esse, se, desde sempre, a literatura é variação dos mesmos tons). O tema em questão é o da ausência do outro que se ama. Da literatura portuguesa recente é possível citar de passagem pelo menos três romances que reconstroem, cada um à sua maneira, sobre: António Lobo Antunes fez reiteradas vezes e com maestria em obras como Sôbolos rios que vão, José Luís Peixoto fez em Morreste-me, e Inês Pedrosa, em Fazes-me falta. Das três, a última parece ser a que mais se aproxima A definição do amor.

Fazes-me falta é construído como um jogo entre dois narradores – um ponto de vista masculino e outro feminino – que se conversam pela ausência, visto que ela está morta, sobre um amor possivelmente nunca realizado. No romance de Jorge Reis-Sá, o ponto de vista é só o do homem que, às voltas com a mulher num leito de hospital condenada à morte, reflete sobre a ausência dela na sua vida e até quando esse amor, à primeira vista insuperável, é capaz de resistir à provação do acaso. Susana foi/é-lhe o grande amor, a mãe dos filhos – um menino ainda muito novo e uma possível menina com doze semanas ainda na barriga. Enquanto em Inês Pedrosa o sublime do amor reveste-se em sua totalidade porque nunca foi realizado, aqui, em A definição do amor, essa ideia é construída por outro prisma, que é o do limite de amar e o que outro faria se a condição fosse contrária a que se apresenta.

Também como no romance da escritora portuguesa, A definição... se compõe de breves relatos em tom diarístico; a escrita de Jorge Reis-Sá, entretanto, reveste-se do mesmo interesse empregado para a estruturação da narrativa – o de encontrar um tom que ao que parece não terá ainda se desenvolvido totalmente, se pensarmos em obras do mesmo gênero, como Todos os dias e O dom. Se deste último fica a impressão de que tomou o tema emprestado da obra de José Saramago e sua alegoria de uma cegueira branca para transformar num tom fantástico e igualmente alegórico uma cidade onde todos são tornados em contas de bijuteria, num claro exercício de compreensão sobre a objetificação do homem, neste romance ora lido, permanece um escritor preso entre a influência da narrativa do próprio escritor Prêmio Nobel – pela maneira como constrói parte dos diálogos e do relato – e da narrativa de um António Lobo Antunes – pelo trabalho de construção fragmentada do narrado, sua descontinuidade e a mistura de diálogos.

Sobre isso, é preciso dizer que o escritor é melhor quando não está nem sobre a sombra de um, muito menos do outro; isto é, quando Jorge demonstra ser Jorge e não outro Saramago ou outro Lobo Antunes ou um novo escritor pela combinação dos dois. Esse Jorge é o da narrativa simples, sem subterfúgios estilísticos que não o de representar o fluxo de uma consciência perturbada pela possibilidade da perda da figura onde depositou grande parte da sua própria existência; é o Jorge interessado mais no relato e na reflexão de cunho, por vezes, filosófico, poético e existencial, as três marcas de que se reveste A definição do amor; é o Jorge, por fim, que não se preocupa com determinadas obviedades do tom escritural – como quando substitui o riscado do texto que sinaliza um titubeio do narrador (e outra fraqueza da narrativa, tal como um escritor que escreve em caixa alta para sinalizar o grito de uma personagem, por exemplo) pela expressão escritural do próprio titubeio.

A reflexão sugerida por A definição do amor foge do sentido objetivo que este título sugere; não no mau sentido, mas porque encontra outros meandros pelos quais ficam provados a impossibilidade do sugerido, isto é, se pode refletir eternamente sobre o tema (e grande parte literatura é toda isso), mas não há esse conceito acabado porque a ideia de amor se constrói na extensa diversidade com que as experiências da vida, a dois ou não, são manifestadas. Nesse sentido, o romance parece sugerir (pelo próprio tom dramática encarnado) que, não é possível saber do amor, se a vida, ela mesma uma grande incógnita, não nos provocar a testá-lo e num limite em que a própria existência se manifeste num exílio capaz de fazer romper a estabilidade entre nós e a quem dizemos amar.

Os questionamentos de Francisco, se Susana, uma vez fosse ele e não ela a atravessar o coma, faria o mesmo que ele faz por ela, se ela conseguiria enfrentar toda a angústia da possível perda com a mesma parcimônia e lentidão da natureza da recuperação possível, são de uma brutal força que provoca o leitor a também refletir pelo “e se” fosse algo que se passasse consigo. Neste sentido, estamos ante uma narrativa de sugestões, cujas decisões cada vez mais dependentes do narrador que lida com a situação, cobram-lhe, sempre uma tomada de postura ante a vida – esta condição que parece ter sido dela e não dele, reanimando outra evidência bastante comum, a de que os homens são sempre criaturas dependentes da mulher ou expondo-os como figuras que em grande parte são, movidas pelo individualismo e pela mesquinharia, construção cultural imanente do lugar centro de todas as coisas.

Ante um acaso que coloca em risco a vida, quando nada tinha para ser da maneira escolhida pelo acaso e sim da maneira planejada pela capacidade de sonhar do homem, a obra ainda questiona sobre até quando e onde está ao nosso alcance o controle sobre nossa existência ou será tudo um produto de um destino, quase sempre maquiavélico e cruel. É aqui que entra em debate um espírito que cobra, pela incredulidade ante o divino, os valores que o definem, ao mesmo tempo que uma atitude sublinhada pelos desígnios da razão humana. O embate entre a fé em algo que não está ao alcance do próprio homem – sem quaisquer efeitos místicos mas de cunho filosófico – e a descrença é uma das direções que colocam em relevo o melhor da narrativa de Reis-Sá.



A definição do amor é, assim, um romance mais sobre a perda e os seus reflexos na vida dos que perdem que sobre o amor, que no fim, é mero fio alinhavando a trama; este aqui se revela como relação, o vínculo que une uma a outra pessoa. Poderia ser uma declaração de amor de alguém transtornado, ou melhor, assombrado pelo fantasma da perda, mas quando questiona sobre os limites do amor, torna-se uma reflexão sobre até qual ponto vai a fé de alguém na possibilidade de existência do outro para si. Isto é, Jorge Reis-Sá desloca o tema daquela condição do sublime e do platônico para compreendê-lo como matéria pulsante entre existências, de modo que chega a subverter aquilo que possa haver de sagrado quando coloca a angústia ante a impassibilidade do fim ou do retorno à normalidade com o fluxo dos jogos de futebol e o humor da personagem entre a alegria da vitória e a raiva da derrota.

Outra linha que sustenta esse tema na obra é não o amor carnal assumido entre homem e mulher. Mas, a construção do amor do indivíduo por si, pelo seu semelhante e por aqueles que direta ou indiretamente dependem dele. Na medida em que se esvai a vida de Susana, o amor da vida de Francisco, aparecem outras maneiras de amar (ou possivelmente aquela mais coerente porque dá ao sujeito outro sentido para existir além da perda): o amor que precisa ser levantado palmo a palmo pela filha que nasce enquanto morre a mãe; o amor pelo filho mais velho; e pelo cão que sempre foi o xodó de Susana. Isto é, mais que uma definição do amor, o coerente seria pensar então nas formas diversas de como este se constitui.

Sobram, entre um mês e o outro que são capítulos do romance, histórias soltas de outras personagens cuja única ligação que mantém com a trama principal parece a unidade temática que enforma a obra. E se cada uma pode ser interpretada como uma condição para uma definição do amor é novamente o tom descrente e trágico a dominar as situações: o homem que abandona o sacerdócio por uma mulher cujo o interesse por ele é desfeito; o padre que se entrega aos prazeres da pedofilia numa redoma de sexo com vários garotos; são alguns dos exemplos. Além das formas de amar, a única história – e esta cruza as reflexões diarísticas do narrador – que parece revelar, por assim dizer uma expressão positiva do amor é do casal de velhinhos que guarda segredo sobre a relação porque são amantes, mesmo com toda vizinha sabedora dos dois. Estaria o amor para se manter condicionado ao proibido ou a impossibilidade da plena realização? Ou seria o amor em sua inteireza apenas aquele que não tocado pelo desejo da posse? É visitar essa obra de Jorge Reis-Sá para buscar não uma resposta mas uma reflexão.


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Dois anos, oito meses e 28 noites, de Salman Rushdie

Por Luisgé Martín



Salman Rushdie foi marcado há anos com um destino que obscureceu publicamente sua grandeza literária; suas últimas obras, depois disso, não voltaram nunca à mesma altura de Os versos satânicos e, também, Os filhos da meia-noite. De modo que o escritor tem se convertido mais num mártir ou numa personagem icônica e não num escritor respeitado. Este novo livro poderia ajudar a corrigir esse desvio de caminho, o que faria Salman Rushdie um dos maiores nomes vivos da literatura de nosso tempo.

Dois anos, oito meses e 28 noites são exatamente mil e uma noites; esse é o modelo que, com um olhar irônico, ele emprega na construção desse livro: um romance cheio de histórias triviais, marcadas pela fantasia delirante, e de indignação imaginativa sobre a natureza humana. Salman Rushdie quis ser a Sherazade de nosso século, mas o empenho não parece ser grande o suficiente. Isso, não serve em nada para desmerecer a riqueza da obra ora publicada.

O título conta a história da Era da Estranheza, a tirania dos djins e a Guerra dos Mundos. O narrador, de um futuro muito distante, relata o que ocorreu nessas mil e uma noites fundamentais. O mundo humano e o mundo das fadas entram em grande conflito. Começam a produzir-se fenômenos insólitos: o jardineiro Geronimo, cuja esposa havia sido fulminada por um raio numa tempestade terrível, começa a flutuar sobre o solo. Logo aparece um bebê que é capaz de deixar marcas nos corruptos ou um desenhista de quadrinhos que descobre em si mesmo poderes sobrenaturais. Todos eles são descendentes de uma dinastia fundada há muitos séculos por uma djínia – Dúnia, do Reino das Fadas – e um filósofo racionalista. Depois desses fenômenos paranormais, que protagonizam a Era da Estranheza, os djins tentam dominar a Terra.  Finalmente se produz uma guerra em que os dois mundos se enfrentam: os dos seres mágicos e os dos humanos. Vencem os humanos capitaneados pela fada Dúnia.

Não quero chamar ninguém de errado: mas Dois anos, oito meses e 28 noites não é, como tem repetido a crítica, um livro de literatura fantástica. Podem lê-lo – e devem os amantes de O senhor dos Anéis, de A guerra dos tronos ou de qualquer das sagas semelhantes. Mas podem e devem lê-lo também os que se sentem aborrecidos com esse tipo de literatura. O livro de Rushdie fala sobre nós, sobre o mundo no qual vivemos, sobre as turbulências da história, sobre os dilemas éticos e sobre a condição humana eterna e perdurável.

Há alguns anos esteve na moda falar sobre a totalidade do romance (uma espécie de Romance Total, um hipergênero narrativo que não se conforma em abordar um só aspecto da realidade mas que quer abarcá-la como um todo: Dom Quixote, Guerra e paz, Cem anos de solidão ou A guerra do fim do mundo). Dois anos, oito meses e 28 noites tem essa mesma vontade. Por suas páginas desfilam o integrismo islâmico, a sociedade do consumo, o feminismo, a homossexualidade, as novas formas de comunicação, a nostalgia ou o aristotelismo. Os céus e a promiscuidade. A violência, as crenças e a organização política. Tudo. Um universo sem limites, nem centro.

O livro é também um romance-luva. A um volteriano como eu, por exemplo, chama-lhe a atenção suas opiniões (é um romance cheio de características simbólicas a Voltaire); mas para um crente religioso, pela via contrária, a obra dará sustento para seguir confiando no valor de sua fé (atentos a esse final brilhante e imprevisto, um canto à fragilidade humana e à melancolia). Isto é, cada leitor encontrará um caminho distinto a seguir, mas nenhum deles será falso nem banal.

Neste livro cabe tudo, mas há dois assuntos que são centrais e que Rushdie alinhava com maestria ao longo de suas páginas. O primeiro é um dos temas essenciais do autor: a luta entre a fé a razão, entre o dogmatismo e a tolerância. O escritor se atreve a pressagiar a morte dos deuses, a antecipar uma época em que o medo foi vencido e os templos se converteram em hotéis, museus para exposições, cassinos ou em shoppings.

O segundo é um dos temas eternos: o poder da ficção, dos sonhos, da magia. “somos a criatura que conta histórias a si mesma para entender que espécie de criatura ela é” – diz numa passagem memorável. “essas histórias se tornam o que sabemos, o que compreendemos e o que somos, ou talvez devêssemos dizer, o que nos tornamos ou podemos, talvez, ser”.

Salman Rushdie demonstra em Dois anos, oito meses e 28 noites pelo menos três coisas. Primeira: que para ser moderno não há necessidade de escrever em forma de tuítes, que a modernidade é um estado de inteligência. Segunda: que o humor é uma das melhores e mais imperecíveis armas literárias. E a terceira: que como crianças, queremos que nos contem mil e uma vezes a mesma história. Mas que nos contem sempre assim, com palavras de mago.


terça-feira, 23 de agosto de 2016

A prosa de Ana Cristina Cesar


Toda vez que um leitor encontra a poesia de Ana Cristina Cesar reunida na primorosa edição que, no mesmo rastro do livro com a obra poética de Paulo Leminski galga espaços em estantes diversas Brasil afora, é de saltar a busca pela resposta sobre como seria ter entre nós em atividade uma poeta cujo talento se revela ainda na criatividade de quando criança e se aperfeiçoa naquele tempo em que para muitos não é mais que o de experimentação – afinal, mesmo que não haja um tempo para a poesia, é verdade que a maturidade é, sem dúvidas, quando podem os deuses soprar o seu melhor ao poeta. A título de curiosidade, sobretudo para aqueles que não têm a edição de Poética, Ana C., como gostava de ser chamada, e nome pelo qual podemos identificar como o de sua persona poética, publicou pela primeira vez quando tinha só sete anos no jornal Tribuna da imprensa; e amigos íntimos da poeta, como o também poeta Armando Freitas Filho, lembra reiteradas vezes que muito nova ditava coisas para que a mãe registrasse.

O passo de desistência de Ana Cristina Cesar desse universo que possivelmente poderia ter-lhe sido o mesmo de quando esteve viva (isto é, o do não-reconhecimento nos meios mais intelectualizados – presença quase-contornada não fosse o fato de muitos ainda acusarem-na de que esse espaço foi galgado graças a situação trágica com que a poeta findou a vida) não é, ainda assim, um empecilho para que imaginemos sua vida até a idade mais avançada. A intensidade com que escreveu sua obra demonstra que seria alguém entre os de relevante importância entre os intelectuais brasileiros. O que custa acreditar é na imagem da poeta enquanto tal. Agora, sempre pareceu que ela tinha uma certeza muito absoluta de que o já-feito poderia sempre servir de resposta aos detratores, haja vista que a diversidade de leitores de sua obra e dos lugares alcançados é, ao contrário das acusações, a confirmação pela sua obra e não por um dado curioso de sua biografia de que produziu algo de relevante para a literatura brasileira.

Agora, a Ana Cristina Cesar nem sempre lhe pareceu que a poesia fosse seu único meio de expressão, tampouco aquele que lhe daria o sustento – por mais que soubesse fazer parte junto com outros nomes de sua época e do mesmo movimento literário que ajudou a dar forma na literatura brasileira. Tanto que investiu numa carreira acadêmica. Possivelmente influenciada pela figura do pai – jornalista e sociólogo dos responsáveis pela fundação da editora ecumênica Paz e Terra –, por esse apego à criação literária manifestado desde pequena e pelas forças do destino a partir das decisões que tomou desde muito cedo.

Nesse âmbito dos estudos parece que demonstrou ser também dotada de uma consciência avant-garde, tanto por essas decisões (por exemplo, na década de 1970, preferiu deixar o curso clássico no Colégio Aplicação da Faculdade Nacional de Filosofia para estudar inglês fora do Brasil, na Richmond School for Girls em Londres num programa de intercâmbio e, pouco tempo depois, em regresso ao Brasil, vai para a curso de Letras na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), quanto pelos nomes que escolheu estudar, muitos ainda quase desconhecidos no Brasil – como é o caso de Katherine Mansfield, sobre quem escreveu seu trabalho de conclusão de um mestrado em estudos da tradução.

Esses anos acadêmicos foram-lhe os mais rentáveis dada a convivência com outras figuras de mente tão ou quanto irrequieta como a de Ana Cristina: Cacaso, Heloísa Buarque de Hollanda, Armando Freitas Filho, são alguns desses nomes. Enquanto escrevia poesia, fazia faculdade, trabalhava como professora de língua inglesa em escolas e depois de concluir o curso superior colabora intensamente com jornais mais tradicionais como o Opinião, Folha de São Paulo e Jornal do Brasil – o que de certa forma coloca em xeque a tese de que tenha sido uma poeta marginal porque não possuía uma ligação com os grandes meios dominantes quando o assunto é escrita. Dedica-se ainda à tradução e, possivelmente, interessada na área, é quando resolve tornar o ofício em campo de estudo para o mestrado no qual estuda o conto "Bliss", de Mansfield; durante esse período esteve na Universidade de Essex, novamente na Inglaterra.

A fertilidade da e criação para Ana Cristina Cesar se dá pela aparição de seus livros (dos poucos que publicou em vida). Nesse ínterim publica A teus pés Luvas de pelica, um de cada gênero que mais praticou nesses anos. 



Outra grande parte das produções dessa época, sobretudo as que diferem da face de poeta, foi revista e apresentada numa edição que, agora reeditada, segue a mesma linha editorial de Poética; Crítica e tradução reúne ainda trabalhos do mesmo gênero indicado pelo título escritos uma década antes dessa vivência mais intensa com os outros meandros da criação. Não é somente um trabalho de reaproximação da memória da poeta com seu público leitor, cada vez mais amplo; é uma maneira de melhor compreender sobre seus interesses de leitura e quais obras ou autores melhor influenciaram numa visão individual da existência e cujas marcas estão evidenciadas no seu trabalho como poeta.

Por exemplo, desde ao trabalho de pesquisa sobre o cinema brasileiro em torno da literatura à aproximação com a chamada literatura maldita e a escrita por mulheres – citáveis: Sylvia Plath e Emily Dickinson, de quem traduziu poemas, ou mesmo Katherine Mansfield – dão uma dimensão sobre sua condição de não ajustada aos chamados grupos dominantes, seja na literatura seja nas artes em geral, o que, oferece, agora sim, uma possibilidade de melhor compreensão sobre o epíteto de marginal com que sempre tem sido designada.

No que se refere ao seu trabalho poético não é difícil assinalar o exercício de recriação oferecido pela poeta em situações em que reescreve sentenças desses autores lidos e cujas leituras foram apresentadas noutras circunstâncias que não o do ambiente poético. No instante em que revela as influências revela também os procedimentos de sua escrita poética – escrita que se define por essa natureza, antropofágica, no sentido proposto pelo movimento modernista de 1922. Isto é, os trabalhos reunidos em Crítica e tradução são uma fonte rica para se descobrir os possíveis usos e metabolismos da poeta num exercício cuja compreensão participa da ideia de que o trabalho escritural não está afastado da contínua relação que o criador mantém com o lido, o vivido e o imaginado.

Já quando o leitor volta a atenção para o exercício de tradução, percebe que Ana Cristina não se assume noutro lugar que não o semelhante ao do seu trabalho – ou seja, também, tem pelo trabalho de traduzir o de recriar, fornecendo, quase sempre, novos sentidos para o que traduz. Isso porque tem a notável compreensão de que os contextos não apenas são pano de fundo sob a escrita e sim elementos cooperativos e participativos na relação do leitor alheio ao texto original com o texto traduzido.

Por tudo isso, essa não uma antologia acessível só aos leitores que queiram visitar outras faces da múltipla Ana Cristina; é também uma mina através da qual é possível perscrutar o que não é possível olhar a olho nu quando diante apenas da leitura livre de sua poesia.


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

No teatro de Arthur Miller, as mulheres em segundo plano

Por Lourdes Ventura

Cena de uma das adaptações de As bruxas de Salém para o teatro. Aqui, em 2003, pelo grupo CCM.

Em certos dramas de Arthur Miller as mulheres parecem destinadas a gravitar como satélites ao redor dos protagonistas masculinos, heróis fracassados que carregam o peso do mundo. Se a família é o núcleo centro para evocar as pressões sociais sobre os indivíduos, a figura da esposa-ama da casa contribui para a projeção de uma sombra, um sujeito em segundo plano.

O professor Jeffrey Mason considera que nas obras iniciais de Miller os papéis femininos pertencem a dois estereótipos: o da esposa e o amante. As primeiras são complacentes e sacrificadas e as segundas tentadoras e sensuais; em ambos casos, com personalidades passivas, sem individualidade própria e só definidas em relação com os homens. Martin Gottfried chega a dizer que “as obras de Miller são essencialmente histórias de homens”, mas um olhar mais atento sobre Linda Loman, a mulher-esposa em A morte de um caixeiro-viajante (1949), ou sobre Kate Keller, a mulher-mãe em Todos eram meus filhos (1947), nos levará a compreender que nessas mulheres apagadas se dão os mesmos dilemas éticos que dominam e colocam em relevo os homens. Elas se revelarão mais complexas, lúcidas e resistentes; são as que sobrevivem enquanto eles findam tragados pelas circunstâncias sociais.

No primeiro ato de As bruxas de Salém (1953), o autor diz: “A caça às bruxas foi uma manifestação extrema do pânico que se apoderou de todas as classes sociais quando a balança começou a inclinar-se a favor de uma maior liberdade individual”. Naturalmente, Miller está fazendo um paralelo entre Salém de 1692 e as listas negras sonhadas por McCarthy nos anos 1950. Mas, embora a radicalidade religiosa e as vinganças de um povoado sejam o alimento desta obra, as personagens femininas põem em xeque o puritanismo coletivo. Impetuosas, sensuais, conscientes das pulsões proibidas, as acusadas se mostram como mulheres de sexualidade moderna.

Quando Miller se casou com Marilyn Monroe e escreveu para ela o roteiro de Os desajustados (1961) seu objetivo era confrontá-la com um trabalho sério de interpretação, mas a Roslyn da trama findou demasiado parecida com a sensual e vulnerável atriz. A partir de sua ruptura com Monroe, suas personagens femininas lutaram contra a enfermidade mental.

A Sylvia de Broken Glass (1994) representará o horror pela barbárie nazista e a incapacidade da Europa para salvar os judeus, mas também encarnará as mulheres profundamente devastadas psicologicamente. Em Depois da queda (1964), Miller quis exorcizar seus anos com Marilyn. A personagem de Maggie é o alter ego da atriz com sua inocência e sua necessidade de autodestruição. Quem, o protagonista, evocando as mulheres de sua vida, compreende a impossibilidade de salvar uma mulher que não quer ser salva.

Pode alguém salvar outro? Dificilmente na dramaturgia de Miller. Suas mulheres estão na bruma, entre a prisão e a sobrevivência, mas, com suas contradições, têm muito de carne e osso.

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sábado, 20 de agosto de 2016

Boletim Letras 360º #180

Reedição da obra de Vater Hugo Mãe no Brasil sai já com dois títulos. Mais informações ao longo deste Boletim.

Aqui estão as notícias que fizeram mais uma semana no Facebook do Letras; o boletim vem com a novidade de que, em breve soltaremos a promoção dos 40 mil amigos! Sim, somos uma cidade literária no Facebook!

Segunda-feira, 15/08

>>> Brasil: Novos livros de Wislawa Szymborska ganham tradução por aqui até 2017

Dia desses anunciamos a publicação pela Companhia das Letras de um novo livro de poemas da poeta ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 1996. Muito antes divulgamos a chegada ao mercado editorial brasileiro de uma nova editora: a Âyiné. Agora, juntem as duas notícias. Isso mesmo! Um nome que só passou a circular no país com mais frequência a partir de 2011 terá mais dois motivos para ser sempre lembrado: a Âyiné trará em 2017 um volume com a crítica literária e outro com as colagens (acompanhadas de breves poemas) de Szymborska.

>>> Brasil: Nova edição da Revista de Estudos Saramaguianos traz inédito um capítulo para O Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago

O número 4 do periódico traz intervenções de estudiosos da obra do Prêmio Nobel de Literatura de pelo menos três países diferentes: são leituras sobre a obra poética e teatral de ‪Saramago, sobre os romances Ensaio sobre a lucidez, A caverna, A jangada de pedra, Todos os nomes, e o próprio Evangelho. O texto "Um capítulo para o Evangelho" veio a público quando Saramago mantinha seu blog - último lugar de intervenções do escritor cujos trabalhos foram depois reunidos em dois volumes com o título de O caderno. O segundo volume é inédito no Brasil. No texto agora publicado na edição, Saramago constrói um fluxo de consciência de Maria de Magdala (Madalena) sobre o amor entre ela e Jesus. No romance, os dois mantém uma relação amorosa e é ela a responsável pela iniciação de Jesus à vida terrena. A Revista de Estudos Saramaguianos é eletrônica e gratuita e pode ser acessada aqui

Terça-feira, 16/08

>>> Brasil: As novas edições para a obra de Valter Hugo Mãe

Com o fechamento da Cosac Naify, a obra do escritor português foi para a Globo Livros - selo Biblioteca Azul (cf. divulgamos por aqui noutra ocasião). Os dois primeiros títulos, o filho de mil homens e a máquina de fazer espanhóis chegam às livrarias ainda neste mês de agosto. Além do novo projeto visual, as novas edições vêm acompanhadas dos prefácios acrescentados aos títulos reeditados em Portugal; o primeiro livro traz texto de Alberto Manguel e o segundo de Caetano Veloso.

Quarta-feira, 17/08

>>> Brasil: O que tinham em comum Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Carlos Drummond de Andrade, além do sobrenome?

Algumas respostas serão conhecidas em meados de 2017 quando está prevista a publicação de Os três Andrades. O livro de Álvaro Costa Silva que sairia no segundo semestre deste ano é um dos projetos adiados; conta a relação dos três nomes mais importantes do Modernismo brasileiro. A publicação da Editora Autêntica trará pequena antologia dos autores.

>>> Brasil: Nova edição de Flush, de Virginia Woolf

Virginia Woolf era uma escritora consagrada quando concebeu Flush, em 1931: já tinha publicado títulos como Mrs. Dalloway, Ao farol" e Orlando, por exemplo. A figura de um cão inusitadamente vivo e esperto que brotava da correspondência entre os célebres poetas vitorianos Elizabeth Barrett e Robert Browning serviu-lhe de ponta-pé para o texto. O cão salta das cartas não apenas com uma vida, mas sentimentos, amores, uma consciência e capacidade de expressão. Publicado pela primeira vez na Inglaterra em outubro de 1933, Flush é a deliciosa e inusitada biografia de um cão. A nova edição sai pela Editora Autêntica, com tradução de Tomaz Tadeu, ilustrações de Katyuli Lloyd e prefácio de Maria Esther Maciel.

Quinta- feira, 18/08

>>> França: Salman Rushdie: “Quero deixar de ser conhecido como ‘o escritor da fatwa

A declaração foi dada pelo escritor numa entrevista ao semanário francês Les Inrockuptibles. “Vivo em Nova York tranquilamente desde 200 e não me aconteceu nada salvo a gente que segue vendo o meu trabalho através do prisma da fatwa”. Rushdie reclama o “direito de ser só um escritor”. Em fevereiro de 1989, o então aiatolá do Irã, Ruhollah Jomeini, emitiu uma fatwa que inquiria os mulçumanos a acabar com vida de Rushdie depois de classificar como blasfêmia seu livro Os versos satânicos; até 1998, o escritor precisou ficar “desaparecido” sob forte proteção judicial até que o governo do Irã retirou o apoio à fatwa. Mas, a cada ano, ainda se eleva o preço pela sua cabeça; recentemente os meios de comunicação estatais se dispõem a pagar US$600 mil. No Brasil, recentemente, foi publicado seu mais recente livro, Dois anos, oito meses e 28 noites.

>>> Argentina: A justiça argentina comandará as investigações sobre o assassinato de Federico Lorca

O poeta e dramaturgo espanhol tinha 38 anos quando foi assassinado e mesmo depois de 80 anos depois seu corpo permanece desaparecido. Uma petição apresentada pela Associação para Recuperação da Memória Histórica foi aceite pela juíza María Sevini de Cubría, quem está à frente também da investigação por violações de direitos humanos cometidos pela ditadura de Franco. Toda documentação existente nos arquivos sobre a detenção e morte de Lorca será analisada com o objetivo de obter um documento da 3ª Brigada Regional de Investigação Social da Polícia de Granada datado de 9 de julho de 1965 que relata as últimas horas de vida do poeta. Os denunciantes suspeitam que o texto se encontra nos arquivos do Ministério do Interior espanhol. A denúncia apresenta que o documento apresenta Lorca como “socialista, maçom e homossexual”; detalha que quando se deu o golpe de Estado que deu início a ditadura de Franco, em 18 de julho de 1936, Lorca já estava em Granada – havia chegado dias antes de Madri, onde morava. Narra as buscas em seu domicílio e sua prisão entre os últimos dias de julho e os primeiros de agosto daquele ano. A morte, segundo o documento, teria se dado num local conhecido como Fuente Grande e o corpo “enterrado naquela região em cova rasa num barranco [...] num lugar muito difícil de localização”.

Sexta-feira, 19/08

>>> Colômbia: A imagem do Prêmio Nobel de Literatura Gabriel García Márquez está nas novas notas de 50 mil pesos colombianos

De um lado, a cédula tem o desenho de corpo inteiro do criador do fantástico mundo de Macondo (cidade fictícia de Cem anos de solidão), onde o escritor estará vestindo o lique-lique (roupa típica da Colômbia) usado por ele para receber seu Prêmio Nobel em 1982. Além disso, a mão esquerda do escritor estará levantada e dela aparecerão mariposas. Já no outro lado da nota, aparece a imagem da Cidade Perdida, núcleo da cultura indígena Tayrona, que habita a Serra Nevada de Santa Marta, no Norte da Colômbia. A cédula de 50 mil pesos colombianos é a terceira que o Banco de la República lança de sua “nova família” de notas, com desenhos de dois ex-presidentes colombianos já falecidos, de uma antropóloga, de um poeta, de uma pintora e agora do escritor.

>>> Brasil: Rubem Fonseca entre escritores da narrativa urbana interessados em repensar o lugar do anti-herói ou do herói urbano

A antologia Heróis urbanos reúne textos do escritor e de Raphael Montes, Luisa Geisler, Natércia Pontes, Leticia Wierzchowski, Cecilia Giannetti e Emiliano Urbim. São sete contos que desconstroem o arquétipo do herói presente na cultura pop, colocando em xeque o bom e o mau, o certo e o errado, o heroísmo e a vilania. Na sua colaboração, Rubem Fonseca conta a história de um herói que, a bordo de uma bicicleta de pneus grossos e armação pesada, é capaz de colocar para correr ladrõezinhos dispostos a atacar velhinhas desacompanhadas e desavisadas pelas calçadas da cidade. Nas páginas do volume organizado por Larissa Helena, aparecem outros pequenos justiceiros, heróis e anti-heróis nascidos da crueza da cidade grande. A coleção de histórias vem acompanhada pelas ilustrações do artista gráfico Rascal, que leva para as páginas um pouco da linguagem da arte urbana. A edição é da Rocco.

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