sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O amor dos homens avulsos, de Victor Heringer


Por Pedro Fernandes



Em 2012, Victor Heringer marcou sua estreia no romance com o pé direito: Glória recebeu, no ano seguinte, o Prêmio Jabuti. O que chama atenção nessa narrativa é o tom, em contínuo crescimento, de um narrador cuja marca é o improviso, o uso dos bordões – ocasião em que propositalmente enxerta à linguagem escrita outras maneiras de uso da língua – e o caráter irônico com que constrói seu relato, a começar pelo título, que sugere uma coisa e cumpre outra.

Nesse O amor dos homens avulsos o escritor confirma duas coisas: a promessa que deixou aos leitores na boa realização do primeiro romance e sua capacidade de se reinventar, sem perder o fôlego da boa largada. Para um escritor cujo interesse parece se distanciar do mero protocolo de contar uma história para ser o de alguém capaz de inovar os protocolos da narração bem como os lugares da literatura brasileira isso é fundamental.

A narrativa de O amor dos homens avulsos é um grande relato de um amor adolescente interrompido muito antes de os envolvidos saber até aonde seriam levados pela correnteza desse rio caudaloso que é o primeiro amor; é, noutra parte, a execução, tantos anos depois, da possibilidade uma vingança – os termos talvez nunca sejam bem esses, mas talvez uma libertação de uma angústia e um ódio acumulados durante tanto tempo, para não dizer de toda uma vida.

Camilo, o seu condutor, tem a marca dos narradores machadianos, seja pelo estado de completa condição à parte do comum, seja pelo tom melancólico e sombrio que despeja quando olha para sua posição atual, seja ainda pela maneira com que constrói suas reflexões sobre os do seu entorno. Isto é, todo relato não deixa de ser salpicado pelo tom que marcou a estreia de Victor Heringer, constituindo-se, dessa maneira, no nascimento de marca que mais tarde poderá ser a marca distintiva de sua literatura.

Exercício de memória, a narrativa de O amor dos homens avulsos combina duas linhas temporais, entre a distensão praticada pelo narrador: ora é o passado, os anos entre a infância e a adolescência vividos na década de 1970 no interior de uma tradicional família do subúrbio carioca, cujo pai presta serviços obscuros – certamente para o regime militar, ora é o presente, de homem sozinho, num aparamento, entregue à rotina – condição e lugar a partir dos quais olha esse passado numa circunstância em que as arestas do vivido teimam em aparecer, como se uma peça solta que lhe arranha constantemente a alma. A posição de figura apartada do comum é dada não apenas por um olhar diferenciado de ser no mundo, ou melhor, esse olhar diferenciado está materializado no resquício de uma paralisia que impede Camilo de se locomover sem a ajuda de muletas ou bengala.

O traço que une um tempo e outro é a chegada e o convívio com Cosme, um menino trazido, sem explicações pelo pai de Camilo para o interior da família. Por isso, este é um romance não apenas sobre o primeiro amor mas sobre as descobertas do outro, de si, do corpo, do desejo. Se há uma fixação pelo comezinho, há uma extensa voltagem erótica, em parte ainda toda envelopada pela inocência da infância, que aos poucos começa a circundar as situações em que estão envolvidas essas duas personagens; isso, claro, visto sempre pela ótica desse homem que teve a vida toda dedicada a trazer essa memória guardada na melhor e mais marcante passagem de sua existência.



Mas, O amor dos homens avulsos combina esse movimento de corte subjetivo com uma percepção social, ora filtrada pelo olhar do Camilo-criança, ora pelo olhar do Camilo-adulto. Essa combinação, que não é estanque, mas contínua, revela-se como um extenso e complexo painel sobre um Brasil cuja história se confunde com o drama do indivíduo. Essa sorte diversa de intersecções produzidas por essa narrativa é, quando bem executada, sempre um ponto alto da narrativa. E no caso agora examinado essa confirmação se cristaliza. Da mesma maneira, que se verifica o diálogo com toda uma tradição da nossa literatura; não é somente um narrador com marcas de um Machado de Assis, são as infiltrações da narrativa pela poesia – recurso verificado na linguagem, tantas vezes lírica, e na recuperação de determinados textos, como o poema “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade na extensa citação de primeiros amores costurada com uma declaração de amor que, apesar de ficcional (e não é mérito aqui determos-nos nessas implicâncias entre o interno e o externo ao texto), é uma das mais sinceras  que o leitor encontrará pelo caminho. E Victor Heringer tece essas relações sem parecer sintético como é comum encontrar no texto mal realizado.

Há corpo, suor, tara, carne, esperma e sexo. Subversão. Mas há um desenho platônico do amor. Entram aí os veios líricos. E partir da não continuidade desse primeiro amor, porque este, apesar de sempre o inesquecível está fadado a ser sempre passagem (mas não precisava findar como finda – pensaria Camilo), há o discurso cheio de ódio, de quem não absorveu a dor da perda, de quem transforma essa dor em denúncia de sua condição e da condição alheia, porque a dor de Camilo é a dor de todos aqueles que escolhem ser livres, não porque lhe é uma obrigação mas um direito. Esse discurso de constantes tons melancólicos, conforme ficou assinalado aqui, não deixará de nos arrancar uma lágrima furtiva de dor, danação e indignação pelo drama vivido pelo protagonista.

Mas não é esta uma narrativa que se deixa afogar pela dor perda ou de uma visada desencantada do mundo; há um brio de esperança – a confirmação de que apesar de todas as tentativas cruéis de ruptura do amor, a vida, coisa rara, não para. E, insiste, os que o destino não os castra de existir, em repetir a possibilidade do amor. Essa constatação sobre o mover-se da humanidade, através da variabilidade das maneiras como o amor se assume e entre figuras que o destino vez ou outra teima em colocá-las em contato é, sem dúvidas, o que melhor define essa obra de Victor Heringer. Só há que tomar cuidado, na construção escritural, para que alguns gestos de linguagem, como a criativa maneira de descrever as maneiras do riso, não se tornem, pela repetição abusiva, num cacoete que enfada o leitor toda vez que os encontre pelo meio da narrativa. No mais, que o escritor se mantenha tão atento e dedicado ao seu delicado movimento de ver as nuances menos ou nunca reparadas pelos olhos comuns; é sua tarefa de romancista.


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Aquarius, de Kleber Mendonça Filho

Por Pedro Fernandes



Uma aguda crônica social sobre um país em complexo acirramento das relações de poder. Assim resumiria numa linha o filme de Kleber Mendonça Filho. Uma narrativa, portanto, que aprofunda a investigação do cineasta sobre esse tema nascido em O som ao redor, seu primeiro longa-metragem e trabalho sempre lembrado pela maneira como se distancia de algumas persistências do cinema brasileiro para inaugurar outros vieses sempre possíveis à sétima arte.

É o dia-a-dia de Clara, uma jornalista viúva, filha de uma família que com a cara e a coragem construiu algum nome na cidade do Recife, e obstinada em preservar o lugar onde vive, na orla de Boa Viagem, região de alta especulação imobiliária. Quais peripécias essa personagem terá de passar na condição de perseguida pelo poder do capital ou se conseguirá fazer levar adiante sua necessidade de não deixar o Aquarius não interessa aqui – só ao espectador, que não deve deixar de ver este filme. Interessa, isso sim, a maneira como o diretor põe o dedo na ferida sobre uma sorte diversa de discrepâncias nascidas primeiro de uma sorte também diversa de vícios do Brasil-colônia e desde então perpetrados na sociedade com o mesmo tom de que as coisas são porque são.

Aquarius, se não tem o poder de desconstruir algumas dessas mentalidades – nem é esse seu propósito e qualquer arte ambicione esse resultado fracassará –, se mostra como instrumento propiciador de uma reflexão pela via contrária do comodismo. Isto é, as coisas não são porque são, são porque uma pequena parcela impõe determinados modos de vida e outra, a grande maioria, recebe passivamente como natural. Clara, com sua impulsividade é a típica figura que encarna a postura de alguém que não se submete e prefere, custe o que custar, servir de cupim que corrói a madeira desse sistema, para recuperar aqui uma das imagens singulares finalizadoras do filme.

Clara é quem nos diz que só há sentido para a vida quando o vivente tem por que lutar, sobretudo se a bandeira que escolhe é aquela que prioriza o lado mais fraco e não está manchada pelos vícios comuns: seja o apadrinhamento e as relações de domínio das oligarquias, a falta de respeito e o desprezo para com o outro, a ganância pelo dinheiro e pelo poder a qualquer custo. Não bastasse isso, essa voz de oposição recorre a uma das qualidades dos atuais donos do poder (assim pelo menos se sentem), a união familiar em torno de suas obsessões, embora, neste caso, é o lema “o povo unido jamais será vencido” o amálgama de tais relações.

No interior das divisões profundas que dão forma ao Brasil, Aquarius é um dos poucos filmes cuja narrativa registra o pequeno cismo causado pelo levante das classes submissas. Não tece nenhuma constatção enganosa, tampouco compreende que as divisões de classe se restrijam a dois grandes blocos: as do poder e as do que o almejam. Num país em que sua identidade é naturalmente fragmentada e multifacetada – falar sobre essas relações por dois desses fragmentos – é reduzir o debate sobre a formação do país. 

O Brasil não é possível de compreensão apenas tomando uma divisão em duas partes, tal como aponta Clara ao explicar para uma carioca, futura namorada do sobrinho, a divisão entre o Pina e Brasília Teimosa, para se referir a distância entre a elite e a periferia do Recife ou a câmera que aponta o corte na tela numa única imagem entre um edifício e a zona do subúrbio. Mesmo que viéssemos a constatar apenas duas grandes classes sociais, é preciso compreendê-las como um jogo dialético de forças, tal como os trânsitos da periferia na elite ou desta no subúrbio, ou mesmo o trânsito de maneiras de pensar.

Mas a imagem do corte na tela citada no parágrafo acima responde por outro tema que não o do enfrentamento o de classes no Brasil. É a contínua ameaça de tomada de lugares e esmagamento dos menores – uma repetição contínua praticada no país desde a colonização portuguesa, a que confiscou um patrimônio em nome de grupo minoritário e fez o possível para dizimar aqueles que consideravam de raça inferior, incivilizados e sem alma, o Brasil de índios e a África de negros.

Notem a morte do jovem filho da empregada doméstica de Clara num acidente de trânsito cujos responsáveis nem então nem depois foram responsabilizados pelo que causaram. O país da impunidade ou da justiça bruta para uns e outros não ou o país tomado por aqueles que nunca fizeram por merecer para estarem no poder mas mesmo assim impõem um discurso de meritocracia, o país onde uma justiça é cega porque é paga para não ver e está mancomunada com os poderes dominantes. Se não bastasse, porque isso só já é o suficiente para afundar uma nau de loucos, repete-se nos dias atuais a combinação venenosa e explosiva dos idos dias de Cabral: a religião, a política e o capital numa relação de profunda alienação e imposição dos interesses unilaterais. Se então, toda uma cultura foi dizimada, agora, é um modo de ser e estar no mundo que é cada vez mais rechaçado: o de ser livre e o do apego à memória dos que nos antecederam, para citar duas das diversas questões suscitadas por Aquarius.

Este tema, o do apagamento da memória, é dominante nesse filme; os vínculos de afetividade pelo lugar e o zelo pela presença dos antepassados que nunca nos deixam de ser peças de sentido para os vivos, bem como as relações pessoais, são cada vez mais tomados necessidade imposta pelo capital pelo falseamento das atitudes como se a vida fosse reduzida a um emoji, se os mortos fossem restos sobre os quais nada vale preservar ou as relações pessoais estivessem sempre marcadas pela interposição da tecnologia. 

Logo, a ideia de ser livre pressupõe que as decisões individuais devam sempre ser respeitadas e não tomadas por alguém de fora, pior ainda se esse alguém for tomado pela única e simples conveniência de impor um desejo cuja base está alinhada com esse poder do capital travestido da forma de necessária modernização, um fluxo que de tempos em tempos atinge ao Brasil sempre pela lógica de tonar o país com a cara do que é civilizatório porque nos país ditos avançados é de uma maneira e não a maneira do que somos.

É possível ainda ver muitas outras coisas porque este é um trabalho naturalmente rico de elementos visuais produtores de sentidos; mais uma vez restringi-me a comentar sobre a narrativa filmográfica e os temas que esta suscita. Mas, mesmo os temas não estão fechados nessas observações aqui apresentadas. Outras visões sobre o filme com mais vagar é capaz de corroborar com que a sua própria superfície já não deixa mentir: é uma obra-prima do nosso cinema contemporâneo. 

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

"Amo como mulher e é te amo por que és mulher": a paixão epistolar de Virginia Woolf



Foi o cunhado de Virginia Woolf, Clive Bell, quem avisou que uma aristocrata bem conhecida de toda Londres por suas faladas aventuras homossexuais, Vita Sackville-West, também escritora, havia posto os olhos nela e queria conhecê-la, e sobre ela se organizou um discurso exagerado. “Vita é uma lésbica declarada, tens cuidado”, teria alertado Clive, a quem a mordaz Virginia respondeu, “Pois como esnobe que sou, não saberei resistir”.

Apesar dos displicentes comentários iniciais da romancista, parece que o encontro surtiu o efeito desejado por Vita: despertar o interesse, primeiro, e depois, o desejo da grande Virginia Woolf. Em algum ponto intermediário do encontro fez presente o amor, cujo testemunho ficou registrado por escrito em muitas cartas trocadas pelas duas protagonistas.

Virginia Woolf não tinha nenhum problema em se expor numa relação homossexual. Havia sido criada num ambiente de absoluta liberdade – ao seu redor eram comuns tanto os escarcéus extraconjugais como as relações entre pessoas do mesmo sexo. Apesar da rígida moral vitoriana que parecia imperar com toda força, ao grupo de Bloomsbury em que ela reinava juntamente com sua irmã Vanessa, tudo viria ser uma coisa comum – todos estavam acostumados com todos. Oficialmente, diz-se, era uma mulher frígida, incapaz de sentir desejo sexual por seu companheiro, Leonard, com quem formava um casamento muito bem formado.

Enquanto a Vita, sua conduta em questão de amor beirava à promiscuidade, mas estava há muito também casada. Seu companheiro, Harold Nicolson, era abertamente homossexual e aceitava de bom grado as saídas dela por mais escandalosa que fossem. Na sua totalidade, o mundo pelo qual transitavam essas personagens era igualmente tolerante. Mas, fora dele, nem sempre. O companheiro de uma de suas amantes, o poeta sul-africano Roy Campbell, perseguiu Vita por meia Londres com arma em punho quando soube da infidelidade de que era vítima. Ao que parece havia sintonia e cumplicidade só no seio de casais como Virginia e Leonard ou Vita e Nicolson, embora, claro, as situações de homossexualidade se repetissem em outros pares não tão alinhados assim.

As duas escritoras mantiveram-se amigas até o fim da vida. “Só havia céus entre os Woolf e os Nicolson, pois haviam chegado, independentemente, à mesma definição de confiança”, escreve Pillar Bellver, autora de um romance sobre a relação ora em questão, Virginia gostava de Vita. Talvez Leonard fosse ao menos conveniente com a situação, mas não por medo que Virginia se separasse dele mas pelas emoções partilhadas entre os dois que poderiam voltar a lhe perturbar a mente; a escritora padecia de depressões causadas pelo que hoje sabe-se como transtorno bipolar desde os 13 anos, depois da morte de sua mãe e, como se sabe, acabaria por levá-la ao suicídio mais tarde no Rio Ouse.

Vita e ela, apesar de separadas por 10 anos de diferença, iniciam uma relação de alta intensidade. Envolvem-se pela primeira vez na noite de 17 para 18 de dezembro de 1925, segundo sabemos através de uma carta de Vita para seu companheiro e através do registro em diário. Virginia mantém-se recatada em relação às suas confissões por saber que Leonard tinha o costume de lê-las, enquanto sua libérrima amante não se preocupa em deixar no silêncio suas aventuras.

Desde cedo as duas se convencem de que o ideal é continuar com seu status tal como estavam quando se conhecem. Nada de pensar em mudanças de vida; “O amor nos basta para querermos, não necessitamos adicioná-lo à rotina de uma convivência que poderia ser desastrosa”, supõe Bellver. Se a aristocrata e escritora – que certamente goza de maior êxito no momento que sua amiga – chateia-se com alguma coisa é que Virginia parece não se entregar por completo, como se sua natureza estivesse sempre, de algum modo, tomando nota do vivido para tornar em tema de sua obra. A autora de Um teto todo seu parece não conseguir digerir bem os constantes affaires de sua amante.

No caminho para Teerã, onde seu companheiro é encarregado de negócios com a embaixada inglesa, Vita sente o desejo de estar com Virginia e fantasia em raptá-la. “Ela não estava acostumada a desejar sem conseguir”, lembra Pilar Bellver. No retorno da Pérsia, afloram os primeiros indícios de distanciamento entre o casal.  Virginia Woolf anotou, nessa ocasião, em seu diário: “Estava mais descuidada [Vita], pois havia vindo diretamente com sua roupa de viagem; e não tão bela como outras vezes [...]. Assim, nós duas sofremos certa desilusão [...]. É muito possível que isto seja mais duradouro que a primeira rapsódia”.

Apesar de tudo, as amantes se fixam, para passado o mais efervescente do amor, em construir o que Vita define como “uma amizade respeitável, certa, durável, casta e tranquila”. Algo menos intenso mas mais duradouro que aqueles primeiros encontros ardentes na grande mansão de Vita, Knole, tão grande que ninguém podia contar quantos quartos tinha. A imensa propriedade dos Sackville-West, que continua sendo uma das cinco maiores da Inglaterra – maior que a do Palácio de Buckingham, por exemplo –, desempenha um papel importante nesta história.

Depois de escrever Mrs. Dalloway e Ao farol, Virginia Woolf pede permissão a Vita, que se encontra em plena voragem de traições, para escrever sobre ela, e Vita aceita. O resultado é outra obra superlativa da escritora, Orlando, que trata sobre uma personagem que vive cinco séculos, primeiro como homem e depois como mulher.

Orlando começa com uma famosa cena em que a protagonista observa do alto de uma colina os movimentos de pessoas às portas e dentro de uma casa gigantesca, tal como Knole, ante a chegada da rainha e de seu cortejo. Tem que vestir-se de forma adequada, percorrer incontáveis corredores e tomar vários atalhos para chegar a tempo de receber a visitante.

É possível que além das consequências emocionais, a relação em parte tempestuosa de Virginia Woolf com Vita, “todo esse caldo de sedução primeiro e depois de amor, de desejo, de alegria e de frustração, ao mesmo tempo, deram como resultado o entusiasmo e a intensidade com que Virginia escreveu nesses anos seus melhores romances: Mrs. Dalloway, Orlando e As ondas”, sublinha Bellver.

Irene Chikiar, quem escreveu recente uma biografia sobre a escritora inglesa, escreve algo que não deixa dúvidas sobre esse amor: “Se Virginia sentia que num plano passional ou sexual não podia competir com essas outras mulheres que atraíam Vita, era evidente que nenhuma delas podia escrever Orlando”. Mas o fato é que nunca saberemos se ser consciente disso terá servido de consolo para Virginia Woolf.

* Extensa parte deste texto é uma versão livre de "La pasión epistolar de Virginia Woolf: "Amo como mujer y te amo porque eres mujer", de P. Unamuno para El Mundo.



terça-feira, 27 de setembro de 2016

Flannery O'Connor se molha

Por Patricio Pron



“Sou dessas pessoas que antes morreriam por sua religião que tomar um banho por ela”, escreveu Flannery O’Connor a uma amiga: não falava de um banho qualquer, mas da imersão nas águas da Cave Spring Lourdes, a que os enfermos de todo mundo atribuem propriedades curativas desde quando, segundo a lenda, a Virgem apareceu ali a uma jovem em 1858.

O’Connor tinha trinta e três anos no momento de realizar sua viagem; apesar de jovem, já era considerada uma das escritoras estadunidenses mais importantes de sua época graças principalmente a dois livros: o romance Sangue sábio, publicado em 1952, e os contos de Um homem bom é difícil de encontrar (1955). O primeiro é a história de Hazel Motes, um sobrevivente da Segunda Guerra Mundial que, depois de perder a fé em detrimento da experiência, a recupera fundando uma seita, a Igreja Sem Cristo. Os outros textos estão povoados por assassinos piedosos, falsos pastores, aleijados, idiotas, vendedores de bíblias, cegos e seres deformados cuja falta da beleza física reflete, no mundo narrativo da autora, a da graça espiritual.

A obra de Flannery O’Connor é parte do denominado “renascimento do sul” das letras estadunidenses que teve como figura principal William Faulkner (de cujo experimentalismo a autora de Sangue sábio se distanciou deliberadamente) e incluiu autores do porte de Thomas Wolfe, Tennessee Williams e Robert Penn Warren, assim com as chamadas Ladies of the South: Edutora Welty, Katherine Anne Porter e Carson McCullers, entre outras.

O “renascimento do sul” surgiu na década de 1930 como resposta àquilo que uma parte dos escritores sulistas considerava a perda da idiossincrasia e dos valores da região provocada pelo transição de uma forma de vida essencialmente rural para outra industrial e urbana.  Para O’Connor, quem havia nascido em 1925 na região sul de Savannah, no Estado da Geórgia, e em 1938 havia se instalado com sua família no condado de Baldwin, no Alabama (e alguma vez levaria a afirmar que as duas circunstâncias que haviam dado forma à sua escrita eram “o ser sulista e o ser católica”) essa transição era uma tragédia de proporções (precisamente) bíblicas.

Existe um elemento a mais na tragédia pessoal da escritora e é o que explica a viagem a Lourdes de 1958, o que mais lhe pareceu em sua vida a umas férias: desde 1951 estava com lúpus, uma doença que ataca o sistema imunológico que se volta contra os próprios tecidos do corpo; a autora havia detectado enquanto trabalhava em seu primeiro romance, quando se queixou do esforço que fazia ao levantar os braços para alcançar a máquina de escrever. Logo, os temas da redenção, da dor e da fé que atravessam Sangue sábio começaram a ressoar de forma singular em sua vida prática: os corticoides não foram de grande utilidade e as doses de hormônios que lhe foram prescritas tampouco.

A escritora precisou mudar-se com sua mãe para um sítio no Estado da Geórgia, onde se dedicaria nos anos seguintes a escrever, cuidar de galinhas e caminhar de muletas e criar pavões imperiais. Alguns anos depois de notar os primeiros sintomas do lúpus, teve que começar a usar uma bengala para manter-se de pé; tempos mais tarde só podia levantar-se com muletas.

O’Connor demonstrou uma atitude singularmente estoica ante a enfermidade, que em sua correspondência pessoal comentava de maneira humorística: se esta constituiu uma fonte de infortúnios, também foi um excelente estímulo à escrita, já que a autora foi excepcionalmente prolífica dadas suas circunstâncias pessoais. Em 1958, estava meio desacreditada de tudo e aceitou o convite de ir assistir ao jubileu das aparições de Lourdes.

Flannery O’Connor teria alguns sentimentos encontrados graças à viagem, já que sua obra tendia a ridicularizar os excessos do entusiasmo religioso, daí que se negara inicialmente a entrar nas águas “milagrosas”. Viajava como peregrina, não como paciente, afirmou. Algo que viu em Lourdes e a comoveu especialmente, sem dúvidas, (talvez uma profusão de aleijados e enfermos que parecia o elenco de personagens de uma de suas obras) acabou por levá-la a aceitar o mergulho no manancial.

A escritora morreu em consequência do lúpus seis anos depois dessa viagem, em 1964, aos 39 anos, sem que a água de Lourdes houvesse obrado nela um milagre. “Estou segura de ninguém reza nessa água”, escreveu na mesma carta à amiga, mas também confessou (mais tarde) que enquanto a mergulhavam havia rezado pelo romance que estava escrevendo “e não pelos meus ossos, que me importam menos”.

Ligações a esta post:
>>> Leia mais sobre Flannery O'Connor

* Esta é uma versão de "Flannery O'Connor se moja" publicada no jornal El País.


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Poesia não-completa de Wislawa Szymborska




Em sua “Carta quase-íntima sobre a poesia”, Czesław Miłosz escreveu: “se a descrição de uma superfície da grama torna-se problemática, é possível haver ainda lugar para um panorama que inclua pessoas, animais, manhãs e crepúsculos?” Estranhamente, Miłosz nos adverte que sua terminologia é metafórica, embora não esclareça sobre o que corresponde a metáfora – se à superfície da grama ou se às pessoas. Em todo caso, a sua pergunta poderia ser respondida de modo afirmativa com a obra de Wislawa Szymborska. Em cada um dos seus poemas, sem exceção, se vislumbra o panorama, desde o menor fragmento até esse “vasto mundo”, que, de novo segundo Miłosz, já não servem às chamadas vanguardas poéticas, cheias de visões intelectuais mas carentes, muitas vezes, de “coração e de vísceras”.

É costume da alta estética ou ética dos poetas, de alguns poetas, a desaprovação da poesia de corte mais intimista ou subjetivista, como se ela existisse à margem de seus praticantes ou como se existisse uma regra de ouro e uma só maneira de escrever; por vezes também, é quase regra coincidir de poetas lançarem-se à desaprovação, curiosamente, ao tipo de poesia que faz o seu próprio gosto. O restrito Miłosz, em sua antologia Postwar polish poetry, planeja inclusive uma divisão geográfica para o bom desempenho poético e declara que, dada as constantes invasões que a Polônia sofreu, “o poeta polonês surge com mais energia, melhor preparado que seu colega ocidental para assumir as tarefas que dizem respeito à condição humana”. Mas ainda neste contexto ideal Miłosz cria determinações. Na breve nota à seleção que oferece de Szymborska nos explica que na edição prévia de sua antologia (a de 1965) só havia escolhido um poema da autora, pois considerou que “jogava com ideias pescadas da antropologia e da filosofia”. Posteriormente (em 1970) corrigiu seu discurso ao se dizer seduzido por “sua poesia amarga, cética e engenhosa”, pela honestidade na ocasião em que expressa sua desesperança. Acabou por incluir oito poemas.

O juízo severo, essencialista ou ideológico que geralmente ocorre colocar sobre meros poemas, esses acidentes aristotélicos que dificilmente resultam em vão, pois não alcançam transcender sua natureza: um conjunto de palavras com múltiplos sentidos. E nem uma só serve para capturar a essência nem para assimilar sua ideia principal. O problema ou o erro reside, possivelmente na tentativa do poema. Szymborska não dá a impressão disso. Sua poesia é, embora paradoxal, extraordinariamente circunstancial. Sempre trata de algo e, como um perfeito círculo, alguém sempre sabe do que trata, o que não deixa de ser um texto desconcertante. 

A leitura e o entendimento são simultâneos, assemelham-se a uma mesma experiência de entrega imediata que exclui tortuosas interpretações e não cria aquela margem feiticeira de silêncio entre a página lida e a mente cavilosa. Como se alcança algo dessa maneira? Como se consegue, além disso, que a claridade possua o mistério de uma revelação? Será literatura ou será puro peso da realidade?

Para começar, é preciso admitir, que aqui a diferença é tênue e depende da ordem dos fatores: é na realidade onde se inscreve esta literatura e onde logo se escreve, quase organicamente, por geração espontânea, estes poemas. O dispositivo poético não obedece a nenhuma teoria, a nenhuma definição restritiva da poesia, mas a uma espécie de urgência moral e política. Isto é, a poesia existe em qualquer parte; apesar do que afirma Miłosz, não pode ser exclusividade da poesia polonesa. Portanto, é uma eleição que acaba por converter-se logo numa característica distintiva e numa tradição em Miłosz, Zbigniew Herbert e, sobretudo em Szymborska, onde a História, com maiúscula, está incorporada como um instinto e constrói a teatralidade própria dos poemas, o cenário em que se contam as situações derivadas do simples. Sem nunca perder de vista o universal.



O caminho é direto. Szymborska não pretende pronunciar verdades; portanto nunca mente. Ela própria leva adiante esta modéstia, ou estratégia, em seu discurso de recepção do Prêmio Nobel de Literatura em 1996. Logo depois de esclarecer que havia escrito pouquíssimo acerca da poesia, confessou que sua única ideia fixa é que não sabe nada.  Daí brota-lhe a inspiração. “Também o poeta, se um poeta de verdade, deve repetir constantemente para si mesmo: não sei”. Mesmo que esta ignorância possua sua própria tirania, seu disfarce e sua caricatura, pois, por momentos, se sabe. Ou melhor, a consequência de ser autêntico cai como uma pedra. Há na obra de Szymborska uma poeta genuína porque não sabe. A esta altura há tantos poetas originais que possivelmente, com sorte, a quantidade anule as virtudes intrínsecas dessa qualidade até conseguir que já nada o importa. E vêm os poemas e talvez às vezes as intenções.

Em Szymborska o leitor encontra tramas que são destinos. Como se cada anedota precedesse uma hipótese e o poema fosse sua demonstração. O efeito é contrário à perplexidade. Há pequenos contos e há parábolas; em quase todos os poemas existe um desenlace: textos escritos como se fossem uma narrativa. Porém, algo é tão certeiro como o poema “Medo do palco” (de Gente na ponte) em que a poeta se funde na denominação “Poetas e escritores. / É assim que se diz. / Logo, poetas não são escritores, então o quê”. A solução fala através da ironia em si, o que ocorre com frequência, uma e outra vez, na obra de Szymborska. Em “Elogio à irmã” a poeta conta “Minha irmã não escreve poemas / (...) Em muitas famílias ninguém escreve versos”, mas sua irmã cultiva “uma razoável prosa falada” e lhe manda postais de suas viagens onde lhe diz “que ao voltar / tudo / tudo / tudinho ela vai me contar”; em “A cortesia dos cegos” apresenta-se como o poeta que lê seus versos para os cegos sem imaginar que essa tarefa fosse tão difícil, “Treme-lhe a voz. / Treme-lhe as mãos. // Sente que cada frase / é posta aqui à prova da escuridão, / Vai precisar se virar sozinha / sem luzes e cores”; em “Pode ser sem título”, começa “Aconteceu de eu estar sentada sob uma árvore / na beira do rio, / numa manhã ensolarada”, admite que tal acontecimento mínimo não passará para a história, mas segue aí, sob a árvore porque “Mesmo o instante fugaz tem um passado fecundo” – voa sobre si uma borboleta branca, “Diante de tal vista sempre me abandona a certeza / de que o importante / é mais importante do que o desimportante”. No fim de contas, tantas coisas nos diz Szymborska; coisas que a própria realidade exige porque sempre acontecem toda parte.

Voltemos ao início potencial da ignorância, o “eu não sei” que adquire toda sua força por manifestar-se em primeira pessoa, mas que ao transmitir-se termina sendo aquilo que irmana a poeta a todos de sua comunidade, porque é isso o que todos sabemos. A consciência não tolera o vazio, salvo se se postula como uma pergunta que é uma resposta. Eu sou tu, diz Szymborska, e tu, quem és? Num mundo perfeito responderíamos, Eu; no imperfeito basta com Tu. Nessa corda bamba andam estes poemas e as ocasiões raríssimas em que caem os que estão do lado da astúcia pela astúcia: sempre se nota quando um poeta já aprendeu a fazer poemas. E isto às vezes acontece com Szymborska. Minutos apenas e logo volta a desaprender, escrevendo para fora, nunca para dentro. Seus poemas não falam consigo, não são alegorias da intimidade; não sussurram, não se ocultam, não postergam o sentido por etapas, em circunlóquios. Pura e sensivelmente, estão escritos para ler-se.

Ligações a esta post:

* Boa parte das observações apresentadas neste texto são de Ted López Mill.



sábado, 24 de setembro de 2016

Boletim Letras 360º #185

Ursula K. Le Guin. A escritora estadunidense entra para o seleto grupo dos que ainda em vida tiveram sua obra incluída em The Library of America

Durante esta semana, foram essas as notícias que recolhemos em nossa página no Facebook, casa que chegou aos 45 mil amigos (isso é já uma cidade artístico-literária!). Até o final de setembro, publicaremos nossa próxima promoção em dupla celebração: aos amigos que nos chegam e ao início da passagem dos 10 anos do blog Letras.

Segunda-feira, 19/09

>>> Brasil: Depois de sabermos da chegada de O homem sem doença, eis outras novidades sobre o holandês Arnon Grunberg

A editora Rádio Londres torna um dos nomes mais conhecidos da literatura holandesa contemporânea mais acessível aos brasileiros. Adquiriu os direitos de outros dois livros do escritor: O refugiado (2003) e Moedervlekken (Marca de nascença), lançado na Holanda em maio deste ano. São livros que saem até o final de 2017.

Terça-feira, 20/09

>>> Brasil: As aventuras de Tintim, de Hergé, em edição fac-similar

Três edições são publicadas agora em setembro pela Globo Livros: Tintim no congo, Tintim na América e Os charutos do faraó. No primeiro, o jornalista e seu cão Milu desembarcam no antigo Congo Belga, na África, para realizar uma série de reportagens. Além de enfrentarem os perigos da selva, os dois encaram um perigoso bandido que está tentando expandir seus negócios de diamantes na região. No volume seguinte a dupla desembarca em Chicago para deter os homens de Al Capone. Após descobrir o paradeiro dos bandidos, Tintim e Milu vão parar em uma tribo de peles-vermelhas, e o encontro com os nativos americanos não será nada amigável. Por fim, no terceiro volume Tintim e Milu vão em busca da tumba perdida do faraó Kih-Oskh. Logo após a descoberta, percebem que ela na verdade é uma fachada para uma sociedade secreta de traficantes internacionais que escondem misteriosos charutos em sua base. Para mandá-los para trás das grades, Tintim e seu companheiro precisarão de uma boa dose de coragem e sorte. As edições fac-similares copiam as primeiras edições das aventuras publicadas pela primeira vez em 1931 e 1932.

Quarta-feira, 21/09

>>> Estados Unidos: Ursula K. Le Guin já figura na lista mais seleta da literatura estadunidense

Um grandes escritor sempre espera receber algumas notícias consagradoras de sua carreira: por exemplo, descobrir numa linda manhã de outubro que esperam sua presença na Suécia. No caso de um escritor estadunidense, além o almejado Prêmio Nobel, também se espera, para sua consagração, entrar para o cânone "The Library of America", o mais próximo da imortalidade entre capas duras. A coleção que se limita a Melville, Twain, Hawthorne e outros mortos destacados poucas vezes esteve segura de acrescentar entre eles um romancista ainda vivo; Eudora Welty, Saul Bellow e Philip Roth formam parte desse pouco. Agora também Ursula K. Le Guin. A ideia original da biblioteca era começar com alguns de sues clássicos de ficção científica. Mas ela insistiu que começasse pelas obras menos conhecidas. "Não quero que me reduzam em ser uma escritora de ficção científica", disse a escritora. "The Complete Orsinia de Le Guin" foi publicado agora em setembro; é o volume 281 da coleção. E inclui um romance pouco conhecido, Malafrena cuja narrativa é ambientada num país centro-europeu imaginário e se compõe de treze histórias relacionadas. O material inclui a primeira metade da carreira da escritora - desde o primeiro conto publicado em 1961 até 1990. Le Guin tem 86 anos.

Quinta-feira, 22/09

>>> Brasil: Até o fim de setembro, a primeira incursão de Luis Fernando Verissimo na literatura infantil

As gêmeas de Moscou, editado pelo selo infantil da Companhia das Letras, fala sobre solidariedade e rivalidade entre duas irmãs. A obra foi escrita sob encomenda da editora, mas Veríssimo diz que o convívio com a neta Lucinda, ajudou a desenvolver a história. O livro sai com ilustrações de Rogério Coelho, que já desenhou para infantis de Ferreira Gullar e Ruth Rocha.

>>> Brasil: Palmeirim de Inglaterra, uma novela portuguesa sobre a cavalaria escrita por Francisco de Moraes em 1544, ganha edição no Brasil

Para a edição publicada pela Ateliê Editorial, os pesquisadores Lênia Márcia Mongelli, Raúl Cesar Gouveia Fernandes e Fernando Maués realizaram um minucioso e primoroso trabalho, transcrevendo a partir de várias fontes para poder chegar a um resultado fidedigno, que interferisse minimamente no estilo original – um dos pontos altos da obra. O enredo está dividido em duas partes: a primeira trata do nascimento e as primeiras aventuras dos irmãos gêmeos, Palmeirim e Floriano, filhos de D. Duardos e Flérida. A segunda mostra os dois irmãos que saem pelo mundo, realizando façanhas ao lado de companheiros e damas, até culminar na grande batalha final entre “turcos” e “cristãos”, na qual sucumbem muitos dos heróis cuja trajetória acompanhamos nas páginas iniciais. Feitos de guerra e feitos de amor dão um colorido especial ao objetivo maior: a defesa da cristandade.

Sexta-feira, 23/09

>>> Portugal: A edição n.52 da Revista Blimunda, mensário da Fundação José Saramago, já está online

A edição traz conversa com os diretores do Freedom Theatre, companhia que esteve em turnê por Portugal neste mês de setembro e que aposta que o teatro pode ser uma alternativa para os jovens de regiões castigadas pela violência; a reportagem assinada por Ricardo Viel investiga o milagre de haver teatro entre os refugiados de Jenin, na Palestina. Outro destaque é sobre a Festa do Avante! que agora em 2016 marca os 40 anos da sua primeira edição; na revista uma crônica assinada por Sara Figueiredo Costa sobre a festa organizada pelo Partido Comunista Português. Na seção Saramaguiana uma das primeiras críticas ao romance O ano da morte de Ricardo Reis, livro de José Saramago que este mês de setembro regressa às livrarias portuguesas na nova edição da Porto Editora. Escrito por Leonor Xavier e publicado em novembro de 1984, poucas semanas depois da chegada do romance às livrarias, o texto destaca o caráter inovador do romance ao propor um “jogo entre o real imaginário e o imaginário real”, tendo o leitor como parceiro. Isso e mais pode ser lido aqui.

>>> Brasil: Dos livros para as telas do digital, uma versão pós-moderna de Iracema

Um dos clássicos da literatura brasileira, o livro de José de Alencar, ganhou uma versão digital para fazer parte da coleção Clássicos da literatura brasileira em e-books. Apresentado pela Primavera Editorial, além do texto original, o leitor tem acesso a um conjunto de perguntas de múltipla escolha e dissertativas sobre a obra, além de link para assistir videoaulas com explicações e comentários feitos por professores convidados. Tudo como um recurso para melhor facilitar o acesso dos leitores à linguagem poética de "Iracema" que sempre é tida como rebuscada e difícil. A publicação traz recursos para tornar o entendimento mais claro por meio de uma abordagem mais leve.

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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O dia em que Flávia me mostrou que trinta linhas é pouco demais

Por Rafael Kafka



Em algum dia da semana passada, lembrei-me de Flávia dando aula. Eu a conheci em um contexto de sala, mais especificamente no estágio de minha primeira graduação e desde então nutro profundo sentimento de amizade por ela, mesmo tendo visto-a tão poucas vezes em minha vida. Sempre me questionei acerca de tamanho carinho e penso que a lembrança ocorrida em uma aula que eu dava explicou-me, como uma rara epifania, as causas de tão profunda afeição.

Percebo nos anos todos em que dou aulas em escolas uma profunda dificuldade de meus alunos de escreverem mais do que o limite mínimo de linhas em provas de redação. Se tal limite é quinze é bem provável que todas as redações sigam o padrão desse número de linhas, com raras exceções que o ultrapassam. Atingir quinze linhas para muitos de meus estudantes é como vencer uma árdua maratona a cujo final eles chegam com os últimos suspiros de sua alma cansada.

Se procurar entender o que se passa com eles e explica essa dificuldade, bem provável que eu me depare com jovens sem hábitos de leitura e sem incentivos sociais e familiares para manutenção de tal hábito. Uma pequena conversa com os pequenos revela isso facilmente, com muitos deles expressando profundo desprezo pelos livros, algo que sem dúvida alguma parte meu coração.

Foi em uma aula de redação dessas que fui questionado sobre como melhorar a produção escrita e lembrei da história a qual marca meu primeiro diálogo com Flávia, diálogo este que me marcou profundamente e que me pego até hoje a recordar com sentimento de ternura bastante profundo. Eu estava em sala e passei a conversar com alguns alunos cujas redações eu tinha corrigido a mando da professora que me orientava o estágio naquele momento. Quando chamei-a, Flávia foi logo se justificando o seu texto ruim dizendo que se sentia limitada com o pequeno espaço de trinta linhas de uma redação modelo ENEM.

-Como assim? perguntei surpreso.

-É que tenho muitas coisas a dizer sempre, mas quando estou começando a desenvolver o texto, logo me deparo com o limite de linhas, disse entre sorridente e tristonha.

-Caramba. Isso é raro, viu? Fizeste lembrar de mim mesmo agora, pois sofria demais com esse problema de espaço nos meus tempos de cursinho.

-Sério?

-Seríssimo.

E passei a lhe relatar como eu, em meus tempos de pré-vestibular, na mesma instituição de ensino na qual nós dois nos encontrávamos – eu, quase a me formar em licenciatura em Letras, ela em um curso técnico integrado – levava notas ruins demais nos testes de redação, quando sempre imaginava que iria tirar uma nota incrível e ser altamente elogiado pelo professor da época, o que muito me deprimia e mexia com minha estima pessoal. Agora ali, estava diante de uma moça com a minha idade então – 18 anos – a sentir o mesmo tipo de angústia e isso de certa forma trazia a minha memória um profundo mar de coisas a refletir e a relembrar.

-E como lido com isso, professor?

-Bem, tens de te adequar, usar um texto seco e sólido. Não tem jeito. Há outros espaços onde podes escrever e falar mais, como um TCC no futuro. Mas ali tens de seguir o modelo e isso é bem complexo mesmo no início. Mas és inteligente e sei que vais lidar bem com isso. Pecas por excesso quando tem muita gente que peca por falta mesmo.


Não lembro ao certo o desenrolar do debate e muitas das frases acima são paráfrases de lembranças pessoais. Apenas lembro que essa moça saiu dali mais sorridente e aliviada e anos depois citaria essa conversa como algo que lhe deu confiança para escrever mais e melhor. Encontra-se, inclusive, prestes a se forma em Serviço Social, curso que exige muito do poder de leitura e de discussão de um ser. Obviamente, senti-me muito feliz de ouvir tamanha coisa de uma pessoa que, hoje percebo, marcou demais minha vida de professor com uma simples frase: a reclamação do tamanho de uma redação do ENEM.

Quando eu a ouvi falar, lembrei-me de todo um processo de aquisição de leitura que eu tive em minha vida. Das tardes lendo em casa ou no CENTUR, procurando preencher o tempo entre as crises de angústia andarilha que eu tinha naquele período, as quais culminaram em uma tuberculose. Lembro de como eu sempre tive profundas dificuldades em me adequar a padrões, pois sentia que se me adequasse a um eu poderia perder a possibilidade de ler, de viver, de ser mais para ficar preso em uma rotina tecnocrata e salarial. Lembro de como minha mente sempre estava cheio de minhas próprias angústias e de meu desejo de entender e melhorar o mundo de alguma forma. De como trinta linhas era pouco demais para eu expressar tudo o que sentia diante do mundo doido que estava diante de mim.

Tal sensação de inquietude foi o que me motivou a dar aulas. Gostaria de causá-la em meus alunos sempre que possível. Flávia, naquele momento, me fez relembrar com mais intensidade as principais motivações que me levaram até então e eu vi diante de mim alguém com o mesmo efeito inquietante da leitura, o mesmo desejo de falar e de escrever tudo o que viesse à mente, que passei a admirar ainda mais após conhecer a chamada literatura beat. Aquele desvairismo foi o que me deu forças para querer provocar os alunos que entrassem em contato comigo.

Penso que falhei em diversos pontos nessa empreitada, mas sempre mirei causar essa inquietude. Ao contar a história de como uma pessoa leitora achava trinta linhas pouco espaço, lembrei do efeito que Flávia me causou naquela aula anos atrás e senti uma profunda vontade de dar o abraço mais aconchegante que eu daria em minha vida se a visse naquele momento. Apenas me recompus de um pequeno momento de emoção e segui a dar aula, olhando para aqueles jovens me sentindo alegre de ter podido experienciar algo tão incrível e deprimido por sentir que muita gente vai morrer sem saber que quinze linhas não é um espaço tão grande assim: trinta linhas é que é pequeno mesmo quando a mente estar cheia de devorar tudo o que encontramos diante de nós.

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Rafael Kafka é colunista no Letras in.verso e re.verso. Aqui, ele transita entre a crônica (nova coluna do blog) e a resenha crítica. Seu nome é na verdade o pseudônimo de Paulo Rafael Bezerra Cardoso, que escolheu um belo dia se dar um apelido que ganharia uma dimensão significativa em sua vida muito grande, devido à influência do mito literário dono de obras como A Metamorfose. Rafael é escritor desde os 17 anos  (atualmente está na casa dos 24) e sempre escreveu poemas e contos, começando a explorar o universo das crônicas e resenhas em tom de crônicas desde 2011. O seu sonho é escrever um romance, porém ainda se sente cru demais para tanto. Trabalha em Belém, sua cidade natal, como professor de inglês e português, além de atuar como jornalista cultural e revisor de textos. É formado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará em Letras com habilitação em Língua Portuguesa e começará em setembro a habilitação em Língua Inglesa pela Universidade Federal do Pará. Chama a si mesmo de um espírito vagabundo que ama trabalhar, paradoxo que se explica pela imensa paixão por aquilo que faz, mas também pelo grande amor pelas horas livres nas quais escreve, lê, joga, visita os amigos ou troca ideias sobre essa coisa chamada vida.