quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Voltar para casa, de Toni Morrison


Por Pedro Fernandes



Está na transformação entre a ideia de cópia como uma reprodução e cópia como criação, isto é, na revisão de um dos conceitos mais caros ao estudo da narrativa nascido na Poética de Aristóteles, a compreensão de que o narrado é também a história possível ou a construída através das impressões da memória imaginativa e não meramente reafirmação no interior do narrado daquilo que se passa na realidade externa da narração um dos feitos mais importantes na arte de contar histórias.

Mesmo correndo o risco de dizer alguma inverdade sobre o tema, porque esta é uma visão construída pela leitura de obras da literatura contemporânea, a ideia de narrativa enquanto possibilidade é uma tendência que melhor tem servido aos escritores atualmente e que melhor comprovam essa variação do conceito aristotélico. Também Toni Morrison não deixou de contribuir para essa constatação. Voltar para casa, o romance mais recente da escritora Prêmio Nobel de Literatura, é prova disso. Nada do que é narrado aí se configura – e falo sobre o interior do romance – se configura numa verdade no sentido desde há muito questionado. O leitor está ante uma narrativa do possível. Toda a experiência narrada é ora produto da memória confusa e perturbada de um retornado da guerra que é filtrada por uma segunda consciência – a que efetivamente escreve os fatos relatados.

Frank Money é a personagem protagonista da história em questão, o retornado que, sobrevivente aos horrores da guerra e fora dela, decide contar sua história para alguém disposto a registrá-la. É como se estivéssemos diante de um Ulisses, sabedor de que seus feitos não interessassem a ninguém, buscasse alguém que pudesse tomar registro sobre sua trajetória de retorno ao lar depois dos longos anos de peregrinação entre Troia e Ítaca. Como uma figura participante do registro escritural, ele opina, não com reiterada frequência, sobre o conteúdo que se forma a partir de seu relato. Essa sutil interferência, aliás, é um elemento primordial para o romance que bem poderíamos incluir no rol das sagas de herói.

Tudo no romance é narrado com sutilidade, o que demanda do leitor um trabalho contínuo de atenção, reflexão e logo participação na construção da narrativa, optando entre o acontecido e o possível, no constante exercício de cerzido entre construir e desconstruir impressões. Por exemplo, em Voltar para casa, Toni Morrison não se descuida de um dos temas que tornou sua obra conhecida e reconhecida entre leitores do mundo inteiro, o da perseguição dos brancos aos negros nos Estados Unidos, sobretudo no seu auge, nos anos de segregação racial, mas a situação é colocada ao longo deste itinerário de Frank de maneira reiterada mas nem sempre explícita ou corriqueira. E não há qualquer tomada de opinião no sentido de defesa de um grupo, nem de um ponto de vista. Embora a narrativa evidencie uma definição sobre um universo de interesse, as situações evocadas não estão dispostas à maneira de justificar um lugar discursivo de quem narra; isso não invalida evidentemente que exista aí uma tomada de posição que se deixará marcar pela maneira como são construídas as situações. Isto é, o que se evidencia é a necessidade de convencer o leitor pela experiência e não pela opinião sobre ela.

Voltemos à sutilidade exercitada na construção desta narrativa. À abertura da narrativa encontramos com uma situação vivida entre a personagem principal e sua irmã Ycidra, quando os dois presenciam o sepultamento de maneira qualquer de um negro: “Engatinhando pela grama, procurando o buraco cavado, evitando a fila de caminhões estacionados adiante, a gente se perdeu. Mesmo demorando uma eternidade pra ver de novo a cerca, nenhum de nós dois entrou em pânico quando ouviu vozes, aflitas, mas falando baixo. Agarrei o braço dela e pus um dedo nos meus lábios. Sem erguer a cabeça, só espiando pela grama, nós vimos eles puxarem um corpo de um carrinho de mão e jogar dentro de um buraco que já estava esperando. Um pé ficou espetado pra fora na beirada e tremeu, como se conseguisse sair, como se um pequeno esforço pudesse escapar da terra que jogavam por cima. Não dava pra ver a cara dos homens que enterravam o corpo, só as calças: mas a gente viu a ponta de uma pá empurrar pra baixo o pé que tremia pra se juntar com o resto. Quando ela viu aquele pé preto com a sola clara e rosada riscada de lama empurrado pra dentro do túmulo, o corpo dela inteiro começou a tremer”. Ao lado desse acontecimento uma série diversa de gestos se repetirá com o intuito de avivar o tema denunciado: a repressão aos negros e assinalar o contexto social e histórico recuperado pela narrativa: os dos anos 1950, só determinado pela inferência do leitor a partir da situação evocada, pela presença de Frank Money, sempre apresentado como dispensado da Guerra na Coreia, depois recolhido num manicômio pela polícia por vagar nas ruas e já em fuga no retorno à cidade onde nasceu, Lotus.

Também este trânsito entre o norte e o sul dos Estados Unidos colaboram na construção sobre o exercício de como a segregação estava compreendida no país então. Lotus é uma comunidade de negros na Georgia. A viagem de retorno de Frank funciona, assim, como uma maneira de expor os disparates sociais e não só entre brancos e negros, mas entre pobres e ricos, homens e mulheres. Isto é, a Odisseia desse anti-heroi (já que Frank está há muito distante do homem-herói idealizado na epopeia clássica e o leitor precisará descobri-lo para saber disso) transcorre num mundo em desencanto, destituído de deuses e entregue à justiça opressiva do homem quem, figura cindida, não dispõe em seu socorro de ninguém que ele próprio.

Mas, nem tudo em Voltar para casa é dor, danação e morte; Toni Morrison parece depositar um pequeno fio se não capaz da redenção do homem ou sua salvação pelo menos a saída para um oásis como se concordasse que, na atual conjuntura, toda a expectativa de que a existência possa alguma vez ser de plenitude – ou o feliz para sempre do conto de fada, nascido certamente, do ideal heroico da epopeia em que o herói finda seu percurso de luta com mais vigor do que quando saiu para a aventura – mas algum instante de alívio. É o homem expulso do paraíso, condenado a enfrentar seus próprios símiles e fantasmas o que se repete em Voltar para casa.

Por falar nisso, daquele episódio que dá pulso à narrativa, se desprenderá uma imagem que acompanhará de parte a parte Frank na trajetória desde a guerra: uma imagem que pode ser sua consciência, ato de transmutação do eu que precisa do outro para primeiro compreender-se como eu, muito embora, claro esteja, que este elemento de caráter fantástico atua na narrativa como uma apropriação da escritora das várias histórias da crença popular afro-americana. Corrobora com isso o desfecho da narrativa e todo simbolismo aí envolvido, o desfazimento dessa imagem, e, claro, as várias histórias ouvidas por Frank numa das paradas no caminho para Lotus.



Este retornado faz sua viagem não de grandes feitos, mas das alegrias e mais das dores da sua família; é quando o leitor tem contato com aquilo que se desenvolve antes da estadia de Frank em Iowa, da chegada ao manicômio, antes da ida à guerra, antes do seu nascimento. É quando irrompe, do contato com o seu núcleo familiar – a Ítaca do anti-herói sem Penélope à espera – a trajetória da irmã, a parte fêmea, por assim dizer, de uma história sempre apresentada com um homem na proa dos acontecimentos.

A inserção de uma odisseia feminina permite à narrativa compreender que para as mulheres a travessia é ainda mais penosa porque esta pertence a ordem oprimida pelo homem, é a que não faz parte da coletividade porque é sedimento de todos os ressentimentos do herói caído do paraíso. O apequenamento da mulher, a intromissão do machismo nas condições de ser das próprias mulheres que renegam sua condição em nome do ideal opressor, a criação presa aos mandos, as implicâncias de domínio do homem contra a mulher, sua dolorosa constituição política e socioeconômica, são algumas das situações evocadas no drama vivido por Ycidra, quem alheada pela perda da família e do irmão por quem nutre (ambos) um sentimento dúbio de amor fraterno e erotismo, compõem a face oculta sem os atenuantes do contado pela voz masculina, uma vez que quem ordena o narrado não é um homem mas uma mulher: “Você está absolutamente errada se acha que eu só estava a fim de uma casa com uma tigela de sexo” – diz Frank numa das intervenções que apontam para ideia de que há uma outra figura que transcreve as situações relatadas pela irmão. A fala vem numa ocasião quando o leitor descobre em Frank todas as características do macho bonachão e dominador, o que vive às custas do esforço e dos sonhos da mulher.

Reafirma-se, logo, a compreensão sobre sua condição de, por oposição ao herói idealizado da epopeia, do anti-herói – o tipo segregado, do qual não sobra nenhuma piedade da narradora. Um destronamento do macho do lugar de dono inquestionável da verdade e, logo, da realidade? Sim. Toni Morrison busca romper com a ideia do ponto de vista de sentido unilateral, da verdade inquestionável para dar pulso a uma narrativa mantida pelo plurissentido e questionamento do que nos é vendido como puro acontecimento. Aqui está também outro caminho sobre a ruína do ideal mimético de que o ficcionado é a pura imagem do acontecido e também a reafirmação de que toda história é assinada por um ponto de vista que varia de acordo com os interesses de quem narra e, por vezes, como é o caso aqui, de quem é narrado.

Na mesma proporção que o futuro reserva alguma possibilidade a Frank, também Ci terá para si – numa total revisão de sua condição de oprimida – outra vida. Quando disse sobre impossibilidade de redenção para o homem em Voltar para casa pensava no ideal comum desse termo, aquele dotado de uma sorte de desgastes pelo uso corriqueiro impulsionado pelo cristianismo, o de salvação eterna. E não é esse o sentido utilizado neste romance. 

Ao recuperar uma sorte diversa de arquétipos – dentre eles o tema do retorno ao lar – Toni Morrison elabora a compreensão a partir do homem sozinho no mundo de que a responsabilidade sobre a existência e seus rumos decorrem unicamente das escolhas individuais. “Olhe para você. Você é livre. Nada nem ninguém é obrigado a te salvar, só você mesma. Plante a sua própria terra. Você é moça e mulher e as duas coisas têm sérias limitações, mas você é uma pessoa também. Não deixe a Lenore ou um namoradinho qualquer e com toda certeza nenhum médico do mal resolver quem você é. Isso é escravidão. Em algum lugar aí dentro de você está essa pessoa livre de que eu estou falando. Encontre-a e deixe que ela faça algum bem neste mundo”, recomendam a Ci no retorno a Lotus. 

Na aposta da redenção, Voltar para casa, volta a um princípio necessário e sempre raro entre nós: o amor. É este o que salva Frank da total loucura e o mantém vivo no retorno ao lar; é este o que salva a irmã e restitui-lhe a dignidade. É este capaz de nos colocar o mais próximo possível das delícias do Éden perdido. 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Jack London, vozes do além



Se o gênio saísse da lâmpada e nos desse a possibilidade de pedir estes três desejos que só ele pode conceder, cada um teria seguramente ao menos um ente muito querido, desses que nos marcam com sua partida, com quem gostaríamos de trocar as últimas palavras, os últimos olhares, antes do adeus. É esse impulso o que nos leva, ante uma perda importante, à sua fotografia, sua última mensagem de telefone, ou qualquer coisa que signifique um rastro seu.

No último filme de Ariel Rotter, Luz incidente, com fortes toques autobiográficos, Luisa (Erica Rivas) cheira com intensidade a camisa de seu companheiro recém-falecido para tentar reter através do cheiro que deixou aí algo dele. Volta ao lugar do acidente para buscar, entre outros restos dispersos, algo sem o qual não pode continuar respirando, nem seguir adiante. Eram os anos 1970. Hoje recorremos à técnica na procura desses restos dispersos.

No último dia 22 de novembro passaram-se 100 anos da morte do romancista Jack London – efemeridade pouco lembrada; obras suas, reconhecidas, como Caninos brancos (1906) e O chamado da floresta (1903) seguem alimentando a imaginação de incontáveis gerações de leitores. Em 2001, chegou ao Brasil uma reedição de uma antologia de contos que contêm relatos marcados pelas experiências do escritor em Klondike, Canadá, onde esteve na busca do ouro, e outros mais contestatórios, que, reafirmam-no entre um desses contadores de história já quase peça rara na atualidade.

Um programa dedicado à ciência, da emissora italiana Rai Ter marcou a data do centenário lembrando o trabalho pioneiro do físico Carl Haber, quem juntamente com o biógrafo do autor de Caninos brancos, Alex Kershaw, passou três anos na elaboração de um projeto cujo interesse é revelar a voz do escritor a partir das gravações que haviam sido realizadas em 1915: London utilizava um aparelho que podemos dizer ser uma espécie de gravador de voz: composto, então, por um cilindro de cera, onde registrava suas cartas que depois eram transcritas por um datilógrafo.

A gravação recuperada reproduz a resposta do escritor ao poeta Max Ehrmann, quem lhe perguntava, em carta anterior, se o que contava no livro O andarilho das estrelas sobre as condições nas prisões estadunidenses eram verdade. O escritor que vagou pelos Estados Unidos no início do século passado, foi aventureiro em busca de ouro no Canadá, correspondente de guerra, caçador de focas na Sibéria, marinheiro, esteve várias vezes preso tanto por suas vigorosas ideias socialistas como por sua condição de transeunte sem emprego e sem residência fixa, respondeu o que agora se pode ouvir muito bem:

“Querido Max Ehrmann:

Só uma rápida carta, antes de partir para o Havaí. Só quero lhe contar que tudo relativo às prisões da Califórnia no romance O andarilho das estrelas é verdade. Ed. Morell é um homem de verdade, e Edward Morell é seu nome verdadeiro. Tinha uma sentença de cinquenta anos e passou cinco deles numa solitária, como descrevi. Há dois anos Jake Oppenheimer foi executado na Califórnia por assalto e resistência à autoridade. Só posso repetir que o que descrevi é corriqueiro na Califórnia até o ano de 1913. Não sei o que aconteceu depois disso.

Se alguma vez chegar a ler um livro meu intitulado A estrada, em que dou algumas pistas sobre minhas experiências, poderá observar que no centro penitenciário do condado de Erie, em Buffalo, Nova York, preferi não dar grandes detalhes de boa parte do pior que vi. O que encontrei ali era impublicável, quase impensável. Ainda estou intrigado por saber de que maneira pude afetá-lo à maneira como tratei a situação de Cristo em Jerusalém”.

Sua voz parece vinda do além. Algo que teria sido perfeitamente verossímil para os pais de Jack que eram praticantes do espiritismo. No programa é possível, além de ouvi-lo, compreender melhor sobre as referências que dão forma ao conto “Acender um fogo” e ao filme Na natureza selvagem, em que o ator Sean Penn recupera, como diretor, uma história real que poderia ter sido, precisamente, a de uma personagem de London, ou a dele mesmo.

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>>> No Youtube está disponível a primeira frase da carta a Max Ehrmann




terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Os sertões, de Euclides da Cunha




Numa lista de obras fundamentais para compreender o Brasil, uma, certamente, nunca deverá faltar: Os sertões. Ela é, como Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, Vidas secas, de Graciliano Ramos, Macunaíma, de Mario de Andrade Quarup, de Antonio Callado, Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, entre outros, elemento de nosso genoma; são visadas muito coerentes sobre nossa identidade e sobre a quantidade diversa de questões que nos afligem enquanto povo, sendo que, o livro de Euclides da Cunha,  trata-se de um projeto que visa amalgamar a força e a riqueza da nossa linguagem com a escrita de registro e denúncia sobre um dos episódios mais tristes e dramáticos da luta de classes no Brasil.

Há algo nesta obra que faz dela ponto de acesso entre o tempo que lhe antecede e este que agora o sucede: a constatação sobre, em nome de um desnecessário alinhamento das conjunturas internas com as transformações internacionais, promover toda sorte de intervenções em que os grandes ganhadores são também os forjadores e amplifica ou reanima aquela corrente de forças entre esses, os tais que se sentem donos do poder, e o povo, ora excessivamente acomodado e desmotivado por uma coletividade ao ponto de pactuar com os opressores o desejo de opressão sobre os que anseiam por uma modificação do status quo retrogrado e impositivo de uma classe.

O que aconteceu em Canudos – quando Euclides pensava estar diante de, finalmente, um levante dos oprimidos neste país de conformados – é o que acontece todos os dias nas derrotas individuais porque passam os sujeitos da periferia social brasileira e em larga escala o que se repete no escamoteio à força de alguns projetos políticos que, com todas as falhas e erros, terão produzido entre os mais simples a possibilidade de romper com o ciclo vicioso que nos persegue desde quando uma nação achou por bem fazer desse novo mundo um lugar de exploração, paraíso de assaltadores, e ilha da bonança para agradar bolsos alheios.

O impulso sonhado por Euclides da Cunha, quando soube das primeiras resistências do arraial de Canudos, não se desfez com a escrita de Os sertões, embora aqui prevaleça o sufocamento da utopia e não a condição de se engendrar o que os franceses já no seu tempo há muito haviam feito, uma Revolução. Assim, não é perigoso falar que, dentre todas as forças enformadoras deste livro, um embate está entre o plano da razão cerceadora e o do sonho libertador. 

Os combatentes de Canudos. Foto: Flávio de Barros  

Isso, evidentemente, só foi possível porque o escritor, depois de deixar a farda, e ir encontrar com o centro de um estopim, em 1897, a convite do jornal O Estado de São Paulo, – ao menos como fora pintado pelos mesmos aparelhos que agora atuam no balanço da maré mas ainda em comunhão com seus interesses sensacionalistas – descobriu na força de Canudos aquela possibilidade que sempre se construiu pelo seu avesso: não há unidade política entre povos considerados não-civilizados ou entre grupos pisoteados pelo poder, como muito se disse dos trabalhadores braçais e das mulheres. Aí, o então jornalista não apenas pode desconstruir essa visão um bocado deturpada como expor, mesmo indiretamente, as artimanhas do poder cerceador.

Claro, a Euclides nunca lhe deu orgulho a farda e contra os militares, por exemplo, não se preocupou em deixar suas alfinetadas nOs sertões – essas percebidas com largo desprezo pelos da farda (“multidão criminosa e paga para matar”, “mercenários inconscientes”, “a lei do cão”, “mundiça”). A quantidade diversa de artigos que escreveu sobre o massacre de Canudos se revelava o que poderia sair de uma testemunha ocular não levantava suspeitas de que o livro fosse uma radiografia ainda mais profunda do que se passou aí. 

Este é um título que se apropria dos mais diversos saberes para reinterpretar a história de formação do povo brasileiro e humanisticamente colocar o país ante seu lado vil e despótico; o avesso do ideal de civilização que desde sempre nos perseguiu e justificou toda sorte de massacres praticados por aqui. Já se disse que este livro rompeu com os ideias novos da República que visava loucamente a modernidade, revelando o outro lado do progresso desenfreado. A partir desse ponto de vista, é preciso dizer que Os sertões colocou na pauta das discussões a hipocrisia e a farsa como estratégias dos donos do poder interessados tão-somente em, antes de resolver qualquer coisa, varrer para debaixo do tapete aquilo que injustifica o status quo para o mundo externo.  



É, portanto, em boa hora – tendo em vista a repetição viva de uma farsa em que os do poder subjugam os do povo – que os leitores brasileiros reencontram com uma edição que estava antes circunscrita ao reduto acadêmico. Embora desde a primeira edição, publicada em 1902, nunca as editoras tenham deixado de reeditar Os sertões, o trabalho crítico de Walnice Nogueira Galvão para uma edição definitiva dessa obra-prima da literatura brasileira agora editada pela Ubu Editora, um projeto que estava entre as ambições da Cosac Naify antes dessa editora chegar ao fim, reabre o fôlego em torno da obra. 

O valor literário e as implicações desta obra para a nossa memória e compreensão sobre a formação de nossa identidade coletiva estão provadas no zelo com que a edição é reapresentada: dois volumes com rico material bibliográfico e iconográfico sobre Os sertões. O trabalho ganhou novo formato em relação à primeira vez que veio a lume: em 2009, Walnice apresentava sua primeira edição crítica; agora outras notas demonstram que todo o texto foi cuidadosamente revisto. 

Apesar disso, o leitor poderá ter a impressão de que os editores, dessa vez, erraram numa só coisa: o caderno de notas bem poderia reunir o aparato de texto críticos copiados no final do volume de Os sertões; faria mais sentido porque aproximaria o volume com a obra da edição original e justificaria melhor a necessidade de um volume-apêndice ou complemento. Mas não, preferiu-se deixar apenas as notas, invalidando a necessidade de uma caixa para dois volumes. Por outro lado, entende-se que a proposta visa servir, simultaneamente e em separado, a dois grupos de leitores: aquele desinteressado do tratamento acadêmico que reveste uma edição crítica e aquele que necessita da minúcia sobre o processo de composição da obra. Muito embora se perceba que ao leitor do primeiro grupo também pouco lhe interessa o respaldo da crítica especializada para sua leitura.

Sufocado o reduto de Canudos, uma leva de prisioneiros deserdados. Foto; Flávio de Barros.

Agora, os textos citados na fortuna crítica evidentemente que são fundamentais para a constituição dos diversos pontos de vista que incidiram ao longo da história deste livro, desde sua publicação aos dias mais atuais. Falhas dos projetores à parte, a aproximação com a edição original se dá pela inserção de desenhos, mapas e as fotografias Flávio de Barros, quem acompanhou Euclides na expedição a Canudos. A de 1902 também trazia essa sorte de aparatos e dada a inovação aspirada pelo seu autor, ele próprio precisou cobrir a confecção do livro com um conto e quinhentos mil réis, o dobro de seu salário como engenheiro da Superintendência de Obras Públicas do Estado de São Paulo. Naquela ocasião, valeu o esforço porque até 1905 Os sertões ganhou três edições.

Esta é para nossos dias a mais completa edição crítica da obra. Tais edições do gênero têm um papel definitivo para as grandes obras – é sinal de que alcançou depois de sua primeira edição uma popularidade e êxito inolvidáveis e para tanto necessita-se estabelecer uma edição ne varietur; noutro aspecto, revela ao leitor, pela minúcia, a variação adquirida pela obra ao longo de sua história. No caso do livro de Euclides da Cunha, Walnice diz que se levou em consideração não apenas uma “análise comparativa das edições em vida do autor e as modificações por ele introduzidas em seus próprios textos” como “todas as edições especiais feitas a partir do exemplar com emendas autógrafas (5ª e 12ª edições da Francisco Alves), da cópia do AP do Grêmio Euclides da Cunha (edições da Universidade de Brasília e da Cultrix) e do AP da Academia (28ª edição da Francisco Alves)”.

Se, quando da sua publicação, Os sertões provocou as mais diversas opiniões críticas – da recusa por parte de determinados setores, sobretudo aqueles que trabalharam para forjar uma imagem pejorativa do condado de Canudos, passando pelo acalorado debate de em qual categoria se inscrevia uma obra que bebia de fontes tão diversas, até à compreensão de que a literatura brasileira acabava de ganhar uma obra-prima – o livro é ainda um desses desafios fundamentais aos que são motivados ao desafio propiciado pela grande obra. 

Não é à toa que este se tornou um dos livros que mais tem servido de inspiração para obras diversas ao redor do mundo: O mago do sertão, do francês Lucien Marchal, Veredicto em Canudos, do húngaro Sándor Márai, A guerra do fim do mundo, do peruano Mario Vargas Llosa, entre outros diversos títulos na própria literatura brasileira. Isso não apenas reforça o valor da edição ora publicada, mas cobra do leitor brasileiro uma maior atenção com alguns dos objetos culturais de extensa expressão quais os que figuram nas demais culturas.

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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

A felicidade da luz, de António Osório

Por Pedro Belo Clara



A recomendação literária para o presente mês irá partilhar com todos vós, caros leitores, o novo trabalho de António Osório, lançado seis anos depois da primeira edição de Concerto Interior, também este um título merecedor de uma atenta abordagem de nossa parte, exposta há já algum tempo atrás neste mesmo espaço (ver o final deste texto).

Ao invés do que é expressado nesse último livro, nesta obra o autor retorna ao estilo que o celebrizou e através do qual com maior frequência se expressou: a poesia. É um livro breve (vinte e um poemas), contando com um prefácio de acuradas visões assinado por Pedro Mexia e, no seu término, com a reprodução integral da entrevista que em 2004 Osório concedeu à jornalista Maria Augusta Silva, posteriormente incluída numa obra da entrevistadora. Para que se não pense que a inclusão só se deveu ao curto número de páginas que o livro apresentaria caso tal presença estivesse omissa, esclarece o próprio autor que o merecimento deveu-se «à qualidade excelente das perguntas, reveladora de um profundo conhecimento da minha obra e da sua grande sensibilidade». Após a sua leitura, decerto que os nosso amigos leitores concordarão em pleno com a decisão do poeta.

O livro encontra-se dedicado à esposa do autor, Maria Emília, a sua já falecida companheira de sempre. E logo na frugal dedicatória tropeçaremos na essência mais pura de todo o livro, na raiz da qual a pequena árvore de belos frutos que é singelamente se ergueu. Pois a obra revelará as engrenagens do processo de luto do seu próprio autor, uma conversa elaborada com a certeza da palavra dita chegar ao cais esperado («Não tenho ido ver-te / no Cemitério. Prefiro / falar-te deste modo», “O Cemitério”), ao mesmo tempo representando um caminho pessoal que, passo a passo, extrapola quaisquer etapas pré-definidas pelos ditames das altas estâncias das ciências psicológicas, deambulando ora pela aceitação do sucedido ora pela sua negação e até pela revolta erigida contra as misteriosas forças que operam sem qualquer influência humana. No fundo, se os colocarmos num contexto mais alargado, veremos como estes poemas parecem dever a vida à pequena centelha que já residia no âmago de “A Dor que regressa”, um dos últimos poemas que o autor partilhou publicamente aquando do falecimento da esposa («Covas abertas / na terra espessa e dolorosa. / Não te queria aí – sai, / meu Amor, regressa»).

Não será a primeira vez que António Osório recorre a este tema em seus trabalhos. Basta que nos recordemos do poema dedicado ao seu pai, “In memoriam”, presente em A Raiz Afectuosa, de 1972 («Ao lado do corpo de meu Pai / chorava esta pobre carne. / (…) / Assim te amo agora sem lágrimas»), e do belíssimo “Mãe que levei à terra”, lançado em A Ignorância da Morte, de 1978, provavelmente dos mais comoventes e elegantes poemas do género escritos em Portugal («Mãe que levei à terra / como me trouxeste no ventre, / que farei destas tuas artérias? / (…) / Que fizeste do teu sangue, / como foi possível, onde estás?»). Contudo, para o assunto que agora nos importa, deste livro não poderemos dizê-lo traçado ao gosto de uma elegia completa, embora as linhas elegíacas sejam notadas em determinados momentos. Será, portanto, um desabafo íntimo que irrompe duma poesia delicada e de intenção confessional, onde desejos tecidos por um apego ainda não digerido se manifestam no auge da sua ilusória liberdade, por mais infértil que possa ser a terra onde se plantaram.

A influência do catolicismo e de suas premissas no pensamento do autor é deveras inegável, sendo, como se esperaria, um aspecto que nestes poemas não permanecerá oculto. O exacto momento onde descortinamos essa presença é efectivamente um que também encontra o seu suporte no já referido poema “A Dor que regressa”. A dada altura, é-nos confessado: «Não quero, meu Amor, / que sejas cremada». Embora não nos seja facultada a reacção do outro interveniente, pelo modo passivo como se compõe o verso somos levados a especular se um dado pedido terá sido proposto nesse sentido. Em “A greta”, poema desta obra, obtemos a suspeita de que certos desejos finais talvez não tenham sido totalmente respeitados ou cumpridos, embora o que para o caso mais importa será, como antes dissemos, a vincada influência da crença católica na elaboração da poesia de Osório:

Um dia alguém encontrará
a greta de saída, e procurará
uma estrela ou um vento.
(…)
Os cremados não escaparão,
porque não lhes respeitaram o corpo,
e as cinzas não podem fugir.

Crenças e ditames religiosos à parte (felizmente escaparam-se os dogmas), se desejarmos compreender melhor o global deste trabalho nada como mergulhar a fundo na oferta dada pelo poema inicial. Ora vejamos:

Volta, volta
logo que possas.
E que o Sol
abençoe as tuas raízes.

Trata-se do poema “O retorno”, onde de um modo terno, quase melancólico até, um óbvio pedido é feito, repetido em estilo de mantra budista durante a curta extensão do livro, terminando a respectiva peça na dolorosa beleza dos seguintes versos:

Procura o nosso Tempo.
Pede-lhe que seja generoso.
Não te deixes desfazer:
Volta, volta serena.

Fala-se em tempo e, na verdade, ele, o Tempo, assim escrito com a devida maiúscula, assume-se como uma palavra-chave no entendimento de toda a obra, um ente sem rosto e de jugo imperioso «que nos quer / bem e mal» (“O Tempo”), um pássaro esquivo em eterna fuga pelas páginas deste livro e, é claro, pela frágil vida dos Homens, habitantes temporários de um também frágil mundo, eternamente sujeito ao câmbio das suas estações, à imutável lei do nascimento e da morte:

Deus não podia ter feito
este mundo: o Tempo
(…)

porfia em sobrepor-se.

Tudo isto é dele.
(“Este mundo”)

A relação com este elemento é algo ambígua, diga-se, uma vez que é graças à sua obra que as flores outrora plantadas pelo objecto preferido do discurso poético são hoje um «perene equilíbrio», uma «milenar elegância» (“As hortênsias”). É o Tempo que madura o crescimento e molda a forma de cada ser, do mesmo modo com que permite o seu declínio – as implacáveis leis da matéria.

Este trabalho povoa-se igualmente de muitos poemas que apontam para determinados lugares, sublinhando assim a importância dos espaços em foco, quer seja através da recordação («Dias tão felizes!», “Galiza”; «Vejo-te em Lisboa / e Florença. Faziam-te / feliz, mais bela», “As cidades”) ou da enfatização do nome de certos objectos, o que lhes confere uma dimensão individual acrescida, através da qual se torna possível entender quem deles fez sua pertença, por ser impossível alguém passar por um lugar ou possuir um objecto sem nele deixar algo de si («Vê as árvores, / as que foram tuas», “O retorno”). Adivinha-se tudo isto logo pelo constante recurso, no título de cada poema, aos artigos definidos na sua forma singular e também plural (“A” / “O”; “As” / “Os”), uma nova tentativa de ancorar uma certa imagem, de trazer para junto do sujeito poético a presença de quem fisicamente o deixou, alimentando assim a memória até à sua exaustão, para que a mesma, tão precioso sobejo, não empalideça no abandono das desoladas margens do esquecimento.

Porém, um fenómeno natural que atingiu as duas brancas flores que à porta de casa o poeta plantara irá revelar-se um catalisador de esperanças: «Flores cantantes, esplêndidas, / celebrando a ressurreição» (“Os dois jasmins”). Não obstante, existem evidências por demais árduas de disfarçar. Então, será certo que a insistência não passará de uma tola crença estimulada por uma fé cega. Mas como calar os apertos tão vívidos do coração? Nesses instantes, o quão tentadora a fantasia não se revelará diante da crueza da realidade? A um dado momento, há que dizê-lo, torna-se comovente a insistência do autor: «Quando voltares, conta-me / aquilo que sofreste» (“O rio Alvor”). Como não tê-la, após uma vivência tão cheia e plena? – «A felicidade da luz, / a alegria de termos / tudo próximo e jovem». Após dias e dias de imensa partilha na intimidade de um amor irrepetível? – «Tantas vezes / dormíamos abraçados. / Sonhando / fazíamos um novo filho» (“A flor nativa”).

Assim, cremos que se torna pertinente a seguinte questão: haverá bálsamo capaz, se não de sarar, somente de amenizar tão profundas feridas? De aliviar o peso terrível de tão sentida ausência? A própria arte e seus meios de expressão permitem um vislumbre da resposta (“O primeiro retrato”):

Aos dezanove anos
Dürer pintou
no seu primeiro quadro
o rosto do Pai.

(…)
Está viva,
depois de cinco séculos.
E não teme a morte.
(Assim fosse eu contigo.)

O confronto com o abismo da morte traz sem dúvida a lume inúmeras perguntas, inúmeras incertezas. A partir dessa fermentação crescerá um temor que desesperadamente fará o ser, por todas as suas forças, procurar um solo seguro para prosseguir no que ainda sobra da sua caminhada. Existem, claro, escapes que o próprio decorrer da existência material vai proporcionando, como o nascimento de novos membros na família. O poema “A bisneta”, tecido por uma ternura quase infantil, de tão delicada e inocente a matéria que o compõe, permite essa mesma assumpção:

Dá força ao bisavô
para ele viver mais anos.
Doce ternura.
Obrigado, minha flor.

Poder-se-ão, de facto, amenizar alguns agudos latejos interiores, mas não se julgue extinto o inconformismo que no autor parece ser tão natural quanto uma maçã pendendo de um ramo de macieira. Afinal… :

O protesto está
acima da resignação.
Eu aguardo-te
como um humano milagre,
possível depois
de tanta ansiedade.
(“O Cemitério”)

Mas falávamos de arte. E será realmente nela, ou mais concretamente, no ofício que Osório paralelamente à sua profissão de advogado desenvolveu, a poesia, que um novo e tremendo impulso encontrará a sua força maior. O poema que o comprova, “A consolação da poesia”, derradeira arma contra a mais proeminente ameaça da morte, o olvido, é agora reproduzido na sua totalidade:

Não gosto dos silenciosos
cemitérios. Os Gregos
e os Romanos tinham
a acompanhá-los,
ao longo das estradas,
uns versos inscritos
na pedra tumular,
que tantas vezes
os expunha como seres
orgulhosos do que tinham sido.
Acreditavam na poesia,
nunca na morte.

Fatigar-se-á, é certo, um braço que tantas vezes se ergue contra os esconjurados desígnios dos deuses (assim se assemelharão a todo o ser que se afoga nas pungentes vagas da dor). Nesses instantes de bonança, mesmo que breves, uma luz terá a sua apaziguadora vez (“A felicidade da luz”):

A felicidade da luz é a felicidade
do sangue que percorre
o nosso corpo, e dá tudo o que tem.
A luz é feliz
porque acompanhou
a infância do mundo.
(…)
(…) mas a luz
continua no alto
prestável, soberana.
(Que pena, meu amor,
que nela não estejas.)

É este um livro de perpetuação de memórias, de salvaguarda do vivido em prol duma aberta vivência ao tempo que se diz presente. Nascido de um luto sentido, observámos como ao longo da obra o sujeito poético oscila entre o protesto, a esperança da quimera e a aceitação. O seu tecido é, portanto, de uma singeleza ímpar, como é habitual na poesia de António Osório, composto por versos limpos brilhando numa simplicidade deveras enternecedora, comovente até em dados momentos. Tarefa que nunca se afigura descomplexa, sublinhe-se, pois bem se sabe a facilidade com que o simples resvala para o banal. E a poesia de Osório, apesar da candidez as linhas e dessa frugalidade tão encantatória, jamais permite o micróbio da banalidade na extensão de um verso. É também este um título dotado de uma certa inclinação melancólica, como a luz breve dos fins de tarde de um já serôdio outono, onde o novelo verbal vai-se desenrolando até que do seu abandono se possam formar, caso esteja atento o olhar que o observa, os contornos do mais humano dos espíritos. Não obstante ter já o autor passado a barreira das oitenta primaveras, somadas todas as parcelas que para aqui importam será impossível não cultivar, com acesa curiosidade e bem alimentado carinho, a esperança de que o próximo livro ditado por este coração tão gentil quanto inconformado não tarde o seu nascimento.

Existe uma lei
de bondade inicial,
e outra de final rejeição:
é este o absoluto enigma.

(“A bondade inicial”)


Nota final: Por tema de curiosidade, reproduzimos agora um brevíssimo excerto da entrevista que se anexa a este livro, escolhido apenas pela relevância literária que considerámos residir nesse preciso momento do produtivo diálogo:

Com a sua poesia procura ir ao encontro da luz?
Aspira a isso, embora não ignore as trevas. Mas o importante da nossa vida não é a noite, é o dia.

Do movimento das constelações faz parte a noite…
Há um verso meu: «Anda ver, Lucrécio, as tuas constelações. / Na noite bebem, animais vagarosos». De facto, as constelações bebem na noite; a noite faz parte da vida de todos os homens, porventura para sabermos amar melhor a luz.

«À sabedoria da dúvida preferem alguns a sabedoria da busca», refere num dos seus aforismos mágicos. Esse o caminho?
É esse o caminho que tenho percorrido. Mas apesar da busca há muitas, muitas dúvidas que persistem. O mistério da criação… Às vezes chego a pensar que Deus se barricou nas constelações. Por temor aos homens.

Para o poeta, os textos bíblicos são «um bem de raiz»?
Cada um escolhe os seus textos bíblicos. Génesis, Livro de Job, Provérbios, Cântico dos Cânticos, Evangelhos, Juízo Final são os meus textos. Bens pertencentes, sem dúvida, às nossas raízes. Uma das mais belas criações sobre os enigmas de Deus e dos homens.

Georges Bataille faz notar que a humanidade visa dois fins: vida e morte. Ao intensificar a vida na sua poesia será a maneira mais eficaz de fugir à morte?
Uma forma de a enfrentar. A minha poesia é a de alguém que profundamente abomina a morte, mesmo sendo uma poesia que evoca muitos mortos: familiares, amigos, grandes poetas, pintores. Não quero, contudo, ser um cúmplice da morte.

(Maria Augusta Silva in “Poetas Visitados – Entrevistas e Poemas Inéditos”, Edições Caixotim, Porto, Outubro de 2004)

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Pedro Belo Clara é colunista do Letras in.verso e re.verso. Por decisão do editor do blog, nos textos aqui publicados preservam-se a grafia original portuguesa. Nascido em Lisboa, Pedro é formado em Gestão Empresarial e pós-graduado em Comunicação de Marketing. Atualmente centrado em sua atividade de formador e de escritor, participou, com seus trabalhos literários, em exposições de pintura e em diversas coletâneas de poesia lusófona, tendo sido igualmente preletor de sessões literárias. Colaborador e membro de portais artísticos, assim como colunista de revistas e blogues literários, tanto portugueses como brasileiros, é autor dos livros A jornada da loucura (2010), Nova era (2011), Palavras de luz (2012), O velho sábio das montanhas (2013) e Cristal (2015). Outros trabalhos poderão ser igualmente encontrados no blogue pessoal do autor – Recortes do Real; Pedro organiza também o Uma luz a Oriente, onde partilha poemas de origem oriental.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Boletim Letras 360º #195

Alguns leitores do Letras já começaram a receber os brindes do nosso mais recente sorteio que abriu as celebrações pelos 10 anos do blog online; são ganhadores das edições publicadas neste 2016 pela Biblioteca Azul da obra de Valter Hugo Mãe, da Obra completa, de Raduan Nassar (Companhia das Letras), um livro surpresa da Sylvia Plath e Obras completas - Volume A, de Adolfo Bioy Casares, a escolhida por um dos sorteados. Nós só agradecemos a companhia dos nossos leitores; a página do Letras no Facebook ultrapassou nesta semana primeira de aniversário do blog, os 50 mil amigos.

Encontraram um conto inédito de H. G. Wells. Leia mais sobre ao longo deste Boletim.


Segunda-feira, 28/11

>>> Brasil: O que virá das publicações que sairiam pela Cosac Naify

Sabe-se que parte do catálogo da extinta editora - como a rica coleção "Mulheres Modernistas" - foi parar nas mãos da Editora SESI-SP. A negociação com esta casa, por exemplo, soma ainda 27 títulos nunca publicados. E, entre os livros já fechados, está o clássico de Octavio Paz As armadilhas da fé, ensaio biográfico sobre Sor Juana Inés de La Cruz, uma das principais poetas mexicanas, e Ribolópolis, do autor britânico Andy Mulligan, que será o primeiro a sair. No pacote, entrou também uma antologia dos contos de fadas reunidas pelo folclorista Alexander Afanasyev, considerado a versão russa dos irmãos Grimm, por ter compilado centenas de histórias da tradição eslava, que de outro modo teriam se perdido, e "O que há de mais próximo da vida", último livro de James Wood, crítico da revista New Yorker, uma mistura de ensaio crítico e autobiográfico sobre literatura.

>>> França: A arma protagonista na briga entre Arthur Rimbaud e Paul Verlaine será leiloada no próximo dia 30 de novembro

Era o dia 10 de julho de 1873. O amor vivido entre os dois poetas havia alcançado um limite entre o prazer e o tédio; e numa relação já conturbada pelos efeitos do gênio, as brigas se tornaram constantes ao ponto de alcançar o nível de mutilação dos corpos ou mesmo da vida. Foi com a intenção de matar que Verlaine comprou o revólver calibre 7mm, aparentemente popular naqueles finais do século XIX, e atirou contra o amante. Estavam em Bruxelas e fugiam de entre Paris e Londres, numa das temporadas mais intensas do casal. Rimbaud chegou a ficar 10 dias no hospital e Verlaine foi para a prisão por dois anos. O relato do acontecido está bem documentado com as declarações e os depoimentos tomados na época e mantidos na Biblioteca Real da Bélgica. E a arma que agora vai a leilão foi apreendido pela polícia e devolvida para o dono original depois de um relatório balístico. A autenticidade da peça é marcada pelo número de série -14096 - e o seu registro ao lado do nome de Verlaine no caderno de vendas do proprietário. A peça fora entregue para a delegacia quando a loja em fechou em 1981. A casa de leilão Christie's espera arrecadar entre 50 e 60 mil euros.

Terça-feira, 29/11

>>> Estados Unidos: Filme inédito dirigido por Paul Newman em 1962 foi baseado numa peça de Anton Tchekhov

Trata-se de um filme experimental sobre o qual não se tinha qualquer notícia se ainda existia cópia; o trabalho foi encontrado em Nova York, segundo informa a Revista Forward, e passa por restauração. A meta é exibi-lo no TCM em 2017. O projeto nasceu em 1959, quando Paul Newman ficou absolutamente comovido ao se deparar com, Michael Strong, um ator mediano e desconhecido que lhe aparece no Actor’s Studio e recita uma versão do monólogo de Anton Tchekhov, "Os malefícios do tabaco". As filmagens duraram cinco dias no Teatro de Arte Yiddish de Nova York. Michael Strong aceitou o papel protagonista de Ivan Ivanovitch Niukhin. E o resultado é impressionante. Mas o filme de 25min30seg nunca ganhou distribuição. A descoberta veio a partir do diretor de cinema sobrevivente dos campos de concentração nazista Jack Garfein. Nunca se soube se a cópia foi para as mãos de Garfien por doação de Newman ou se o diretor adquiriu de outra pessoa.

>>> Brasil: Torquato Neto é o autor homenageado da Balada Literária de 2017

A próxima edição do evento ocorre entre os dias 8 e 12 de novembro. Torquato nasceu no dia 9 de novembro de 1944; contemporâneo de Gilberto Gil, com quem conviveu no ensino básico em Salvador, trabalhou com Glauber Rocha, foi para o Rio de Janeiro para estudar jornalismo sem nunca concluir o curso. Trabalhou em diversos jornais e fez parcerias com importantes músicos como o próprio Gil, Gal, Jards Macalé e Edu Lobo. Suicidou-se um dia depois de seu aniversário de 28 anos, em 1972. Recentemente a Azogue Editorial incluiu uma antologia com poemas do poeta numa coleção especial com 12 nomes fundamentais da poesia brasileira contemporânea. Para 2017, a Autêntica pretende editar as obras do escritor.

Quarta-feira, 30/11

>>> Inglaterra: Um romance de uma frase só. E ele conquista um dos prêmios mais importantes da Universidade de Londres

Em 2013, a UL começou a organizar o Prêmio Goldsmiths com um objetivo muito claro: premiar um romance capaz de romper as normas do gênero e abra novas possibilidades narrativas. E desta vez, o jurado faz uma aposta inusitada: o prêmio foi para Solar Bones, de Mike McCormack. É que o romance consta de uma só frase. A narrativa se passa em 2008 durante o Dia de Todos os Santos. O protagonista é Marcus Conway, um engenho irlandês de meia-idade que ressuscita para contemplar as desgraças, aventuras e pequenas ruindades do condado onde viveu toda sua vida. A narrativa reflete a torrente de pensamentos que se passam na cabeça de Conway, o que o coloca em relação a obras de outras obras da literatura irlandesa como James Joyce ou Samuel Beckett. O romance de uma frase se converte assim numa das frases mais valiosas da literatura: o prêmio equivale a 10 mil libras. É curioso ainda que três dos quatro premiados desde que começou o Goldsmiths são irlandeses.

>>> Brasil: As livrarias brasileiras recebem uma edição primorosa dos Ensaios, de Montaigne. São mais de mil páginas com texto integral revisado e com notas

A tradução de Sérgio Milliet publicada na década de sessenta ganha, além disso, apresentação de Andre Scoralick. A grandiosa obra de Michel de Montaigne, um homem do Renascimento, mas que até hoje se dirige a nós com uma vivacidade que a distância do tempo não esmaeceu, foi revolucionário para a produção ensaística. Seus Ensaios, publicados entre 1580 e 1588, o tornaram famoso ainda em vida, inspiraram os filósofos do Iluminismo e lançaram as bases do novo gênero literário. Segundo o crítico Erich Auerbach, um de seus mais agudos leitores, ao falar de si, Montaigne falava da condição humana. Tal liberdade de concepção e de tom nunca tinha sido vista até então: as guerras do seu tempo, os humores do seu corpo, os filósofos antigos, o amor e a morte, os assuntos mais variados recebem o mesmo tratamento sob o crivo de uma personalidade única em sua franqueza e seu desprendimento. "Da ociosidade", "De como filosofar é aprender a morrer", "Da educação das crianças", "Da amizade", "Dos canibais", "Dos livros", os capítulos se sucedem, variando em dimensão, sem ligação aparente, numa "linguagem simples e pura, e suculenta, e nervosa, breve e concisa", nas palavras do próprio Montaigne.

>>> Estados Unidos: Descoberto um conto de terror inédito de H.G Wells

O texto se publica na revista literária Strand; "The Haunted Ceiling", escrito pelo autor de clássicos da ficção científica como Guerra dos mundos, O Homem Invisível e A Ilha do Dr. Moreau, foi encontrado nos arquivos da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos. A descoberta do texto foi uma surpresa até para alguns estudiosos do autor. Este ano, a editora Suma de Letras Brasil publicou junho uma nova edição de Guerra dos mundos, com as ilustrações que o desenhista e pintor brasileiro Henrique Alvim Corrêa produziu para a edição belga de 1906 do livro.

>>> Portugal: Uma edição especial e limitada do romance mais conhecido de José Saramago: Memorial do convento.

O livro sai pela Guerra e Paz (em Portugal) e é um sonho do escritor. "Ter o João Abel Manta e o Carlos Reis conosco é um presente do céu quando o havia. Só de pensar que vou ter um livro meu ilustrado pelo João Abel faz com que o pulso se me acelere", disse certa vez José Saramago numa carta ao editor José da Cruz Santos. A edição especial da obra inclui prefácio do professor Carlos Reis e 20 ilustrações inéditas do pintor João Abel Manta e 18 extratextos a cores e 2 dípticos desdobráveis a cores com ilustrações.

Quinta-feira, 01/12

>>> Brasil: Edição reúne a correspondência entre os escritores Casais Monteiro e Ribeiro Couto

Organizado por Rui Moreira Leite Correspondência Casais Monteiro e Ribeiro Couto marca o início de uma nova fase nas relações entre escritores portugueses e brasileiros. As cartas acompanham a introdução dos autores brasileiros em Portugal e a publicação dos ensaios de Casais Monteiro sobre a poesia de Ribeiro Couto, Manuel Bandeira e Jorge de Lima. A obra mostra ainda, por exemplo, a cumplicidade deles em momentos difíceis, como quando Casais foi preso, a sua indicação por Ribeiro Couto para escrever em jornais brasileiros, o desentendimento entre os amigos em meados dos anos 1940 e a posterior reaproximação. A obra sai pela Editora Unesp.

>>> Canadá: Foi descoberto, um dos primeiros audiolivros do mundo

A notícia foi divulgada no Los Angeles Times Trata-se da gravação de uma versão em áudio do romance Tufão, de Joseph Conrad e data de 1935. Até agora é o primeiro registro de livro neste formato no mundo, embora se saiba de gravações da Bíblia e de um romance de Agatha Christie na mesma época. A edição foi concebida para leitores cegos numa ocasião em que não se pensava na possibilidade de comercializar livros do tipo para motoristas. Antes dessa data, as gravações de áudio de obras literárias foram limitadas principalmente a textos curtos como poesia. Os quatro LPs do livro foram descobertas por um colecionador canadense que contactou um professor na Queen Mary University of London, Matthew Rubery. A publicação foi do Reino Unido Real, do Instituto Nacional de Cegos começou a fazer seus "Talking Books" naquele ano como um serviço para os cegos veteranos da Primeira Guerra Mundial. A instituição então produziu livros em braille, uma revista braille datada de 1871 e publicada até hoje, e criou um código braille árabe e um dicionário de contrações em braille nas décadas seguintes.

Sexta-feira, 02/12

>>> Brasil: A Estação Liberdade irá editar Correspondência 1945-1970 (ainda sem data de lançamento), volume que reúne as cartas trocadas entre Yasunari Kawabata e Yukio Mishima

O material a ser publicado é de desde quando o jovem Mishima se apresenta com reverência ao "mestre" Kawabata até o aprofundamento da amizade e das reflexões que os dois compartilhavam sobre seus trabalhos, suas vidas pessoais e as mudanças ocorrendo no Japão e no mundo. Anunciou a Editora Estação Liberdade, a responsável pela edição. A correspondência entre os dois, além de seguir o desenvolvimento de suas carreiras,permite sentir os ecos do pano de fundo histórico: os bombardeios americanos em Tóquio, o trauma de Hiroshima e Nagasaki e uma insatisfação latente com a modernidade e a ocidentalização da cultura japonesa.

>>> Japão: O escritor japonês Haruki Murakami publicará seu próximo romance no Japão em fevereiro de 2017 - anunciou sua editora, que não revelou nem o nome e nem o roteiro

Será o primeiro romance do escritor depois de publicar O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação; o novo romance, o de número 14, sai em abril de 2013.  Será pulicado em dois volumes: o manuscrito conta com 2 mil páginas. Ano passado o eterno Prêmio Nobel para os seus leitores publicou Homens e mulheres" (tradução livre) que inclui seis contos - um deles inédito. No Brasil, recentemente a Alfaguara Brasil​ publicou duas novelas de 1978, do então jovem escritor, "Ouça a canção do vento" e "Pimball1973".

>>> Brasil: Edição reúne fotografias de escritores realizadas por Daniel Mordzinski

A lente subjetiva de Daniel faz dos autores os personagens de uma grande literatura, uma literatura humana, visual e plástica. Criativa, diversa, bizarra, devassa, comportada, séria, debochada, colorida ou não, fechada, panorâmica, solitária, coletiva, escondida, explícita, e também o contrário disso tudo, pois são esses os sentidos que ganham forma nesta literatura universal fotográfica de Daniel. A publicação reúne, pela primeira vez no Brasil, retratos de escritores ao redor do mundo e representa, antes de tudo, uma homenagem e celebração de um amante inveterado da literatura, que dedicou grande parte de sua vida fotografando escritores e escritoras, alguns vivos e outros, agora, somente vivos em sua obra: jovens e não tão jovens, consagrados ou por descobrir, autores do mundo todo reunidos nesta galeria narrativa fantástica. Entre os brasileiros aí fotografados nomes como os de Jorge Amado, Luiz Vilela, Marcia Tiburi, Eric Nepomuceno, João Anzanello Carrascoza, entre outros. Em 2015 editamos uma matéria sobre o trabalho de Mordzinski.

>>> Brasil: Para 2017, a Editora Âyiné deve publicar Max Havelaar, de Multatuli, o principal romance da história da Holanda

A obra ainda inédita no Brasil foi apresentada pelo seu tradutor, Daniel Dago, no blog da editora. De 1860, o romance ainda hoje é posto em 1º lugar no cânone da Sociedade de Literatura Holandesa e seu autor é o mais importante do país. Dago cita que “Freud colocou a obra completa de Multatuli no topo de seus "livros amigos". D.H. Lawrence o elogiou rasgadamente num prefácio da edição inglesa de “Havelaar”. Van Gogh citou o autor em cartas. Mahler falou euforicamente sobre o romance durante jantares. Lênin o citou em diários. Arnon Grunberg diz que é seu clássico holandês favorito”.  O livro a ser publicado em 2017 coincide com os 130 anos da morte do escritor.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

"O cortiço" como expositor das mazelas e injustiças sociais

Por Rafael Kafka

Cena de O cortiço. O livro de Aluísio Azevedo foi adaptado por Francisco Ramalho Jr. em 1978.


O cortiço, de Aluísio de Azevedo, é a obra mais importante do Naturalismo brasileiro. Não fica difícil de entendermos isso após uma leitura atenta do romance, o qual preza por um ritmo dinâmico e ao mesmo tempo minucioso em seu enredo. Além disso, é um dos primeiros romances brasileiros a usar um foco narrativo que se centra na coletividade de um recinto, denunciando as mazelas sociais do lugar, ligadas à ganância de um homem, João Romão, o qual decide usar o mercado imobiliário voltado para camadas mais baixas para melhorar suas condições econômicas.

Uma das críticas sempre feitas ao Naturalismo é o seu aspecto determinista, mostrando como o meio afeta a condição humana tornando-a em algo monstruoso. Todavia, após a leitura de A condição humana, de Hannah Arent, penso de forma um pouco diferente desse juízo de valor e vejo no Naturalismo a primeira forma mais contundente, ao menos em nosso território, de romances-denúncia, os quais ficarão populares com o modernismo da segunda geração.

O cortiço não é um livro sobre como seres se tornam podres quando vivem em um ambiente de extrema pobreza. É uma denúncia de como a falta de dignidade produz condições ideais para a ocorrência de crimes de toda a ordem ao mesmo tempo que traça um rico panorama social das camadas mais baixas da sociedade brasileira, composta quase que totalmente por pessoas negras e miscigenadas. Nesse sentido, o foco narrativo do romance de Azevedo se destaca, pois procura mostrar de forma plena a concomitância de uma série de situações, adiantando alguns experimentos narrativos populares no século XX que marcarão uma aproximação da literatura com o cinema.

"E, enquanto, no resto da fileira, a Machona, a Augusta, a Leocádia, a Bruxa, a Marciana e sua filha conversavam de tina a tina, berrando e quase sem se ouvirem, a voz um tanto cansada já pelo serviço, defronte delas, separado pelos jiraus, formava-se um novo renque de lavadeiras, que acudiam de fora, carregadas de trouxas, e iam ruidosamente tomando lagar ao lado umas das outras, entre uma agitação sem tréguas, onde se não distinguia o que era galhofa e o que era briga. Uma a uma ocupavam-se todas as tinas. E de todos os casulos do cortiço saiam homens para as suas obrigações. Por uma porta que havia ao fundo da estalagem desapareciam os trabalhadores da pedreira, donde vinha agora o retinir dos alviões e das picaretas. O Miranda, de calças de brim, chapéu alto e sobrecasaca preta, passou lá fora, em caminho para o armazém, acompanhado pelo Henrique que ia para as aulas. O Alexandre, que estivera de serviço essa madrugada, entrou solene, atravessou o pátio, sem falar a ninguém, nem mesmo à mulher, e recolheu-se à casa, para dormir. Um grupo de mascates, o Delporto, o Pompeo, o Francesco e o Andréa, armado cada qual com a sua grande caixa de bugigangas, saiu para a peregrinação de todos os dias, altercando e praguejando em italiano".

De certa forma, podemos dizer que não existe em O cortiço um protagonista, um sujeito o qual foca as atenções do romance. Muitos consideram o cortiço São Romão, onde se passa quase todo o romance, como tal protagonista, mas a meu ver ele seria a injustiça social somada aos interesses da especulação imobiliária, jogando pobre sem condições de vida subumanas, que por conseguinte se afundam em um regime de trabalho e de vida massacrantes, regados ao samba dos domingos e a eventuais conflitos motivados pelos mais variados pretextos.

A pobreza se revela, então, não como causa das mazelas humanas e sociais mostradas no enredo, mas como uma forma de revelar com nitidez o lado cruel e animalesco dos seres humanos. Isso se evidencia no interessante contraste criado pelo autor ao colocar, no lado do cortiço, um sobrado pertencente a Miranda, homem que produz grande rivalidade com  Romão por conta de seu empreendimento residencial. Esse contraste além de revelar cenas típicas das grandes cidades, com a pobreza vivendo lado a lado em uma estranha harmonia com a riqueza, revela também como as mazelas morais e animalescas perturbam a classe mais abastada. A diferença é haver em tais classes um verniz de conveniências sociais as quais bem disfarçam seus vícios e conflitos internos.

Se o Realismo foca mais em criticar os jogos de aparência dessa classe burguesa, o Naturalismo expõe a animália que toma conta dos mais pobres por conta das condições sociais péssimas nas quais vivem. Aluísio consegue em seu romance uma boa síntese dos dois movimentos, mostrando tanto os jogos de aparência dos mais ricos quanto a violência inerente e descontraída, por mais paradoxal que isso soe, da camada social mais humilde. Ainda assim, em determinados momentos, o autor não terá escrúpulos em fixar sua pena no lado selvagem também existente no modo de ser dos mais bem localizados na pirâmide social.

"Miranda nunca a tivera, nem nunca a vira, assim tão violenta no prazer. Estranhou-a. Afigurou-se-lhe estar nos braços de uma amante apaixonada: descobriu nela o capitoso encanto com que nos embebedam as cortesãs amestradas na ciência do gozo venéreo. Descobriu-lhe no cheiro da pele e no cheiro dos cabelos perfumes que nunca lhe sentira; notou-lhe outro hálito, outro som nos gemidos e nos suspiros. E gozou-a, gozou-a loucamente, com delírio, com verdadeira satisfação de animal no cio". 

Na passagem destacada vemos dois elementos interessantes: o desvelar de um lado oculto a causar susto na pessoa de Miranda, que uma bela noite, sem ter uma criada com quem pudesse saciar os seus desejos sexuais, decide-se a usar a esposa, Estela, a qual há muito tempo vinha praticando todos os tipos de adultério para com o aspirante a fidalgo. Ao lado desse desvelar, vemos o segundo elemento: as metáforas que intensificam a dimensão animalesca dos seres humanos, envolvidos em luta sexual similar ao dos animais selvagens. Por trás de todo esse tipo de exposição, podemos discutir a existência de um essencialismo a expor uma forma de ser imutável, a ser humano animalizado disfarçado em suas convenções sociais, ou um sistema social que reduz pessoas a jogos de aparência e de interesse ou ao descaso público.

Durante muito tempo, resisti em ler um romance naturalista e este eu li mais por necessidade pedagógica. Porém, se evidenciou em minha leitura uma crítica ao próprio sistema social capitalista vigente, que segrega pessoas na forma de espaços permitidos e proibidos dentro das cidades. Por mais que tenha sido escrita no século XIX, cortiço revela uma série de cenas e comportamentos os quais são vistos hoje em qualquer local de cidades de médio ou grande porte. Porém, ao citar Hannah Arendt acima, quis me isentar da acusação de defender a tese do meio como determinador do ser.

Hannah diz em A condição humana que produzimos algo e somos influenciados por esse algo. A isso a ela dá o nome de mundanidade. Mas tal determinação não se dá de modo absoluto e a maldade que parece impregnar diversos personagens no decorrer do romance não é originária per si do cortiço e sim de projetos de vida. Exemplo disso é Pombinha, moça virginal que um belo dia é seduzida por uma prostituta de luxo e, quando atinge finalmente o ponto de suas regras virem, descobre o quão patético é o modo de ser dos homens, sempre a sofrerem por causa de sexo e das mulheres. Tal descoberta a levará a abandonar a ideia do casamento romântico, afundando-se de vez em uma vida de liberdade sexual, mesmo que na forma clichê da prostituta de luxo.

"Uma aluvião de cenas, que ela jamais tentara explicar e que até ai jaziam esquecidas nos meandros do seu passado, apresentavam-se agora nítidas e transparentes. Compreendeu como era que certos velhos respeitáveis, cujas fotografias Léonie lhe mostrara no dia que passaram juntas, deixavam-se vilmente cavalgar pela loureira, cativos e submissos, pagando a escravidão com a honra, os bens, e até com a própria vida, se a prostituta, depois de os ter esgotado, fechava-lhes o corpo. E continuou a sorrir, desvanecida na sua superioridade sobre esse outro sexo, vaidoso e fanfarrão, que se julgava senhor e que no entanto fora posto no mundo simplesmente para servir ao feminino; escravo ridículo que, para gozar um pouco, precisava tirar da sua mesma ilusão a substância do seu gozo; ao passo que a mulher, a senhora, a dona dele, ia tranquilamente desfrutando o seu, endeusada e querida, prodigalizando martírios que os miseráveis aceitavam contritos, a beijar os pés que os deprimiam e as implacáveis mãos que os estrangulavam".

Outro ponto interessante é a paixão de Jerônimo por Rita Baiana, reforço dentro do enredo do velho mito da mulher negra que com seus encantos, sua “cor do pecado” é capaz de levar um homem nobre, chegado ao cortiço para trabalhar em suas obras, ao mais profundo descontrole, deixando de lado esposa e filha. Jerônimo chega mesmo a se envolver em conflitos diretos com Firmo, antigo companheiro sexual de Rita. Após a saída do hospital, para onde fora enviado após os ferimentos de um primeiro conflito, Jerônimo se une a dois colegas para matar o negro e assim ficar com a mulata para si.

Mais uma cena a qual poderia ser vista como justificativa do meio determinando a condição humana em todos os seus atos. Mas aqui fica mais evidente a violência a qual rege os atos das pessoas mais humildes em um universo urbano abandonado por políticas públicas e cuidados mínimos. A polícia, quando surge, é vista como inimiga e rechaçada pelos moradores, que muitos maus tratos sofreram em suas mãos já.

Desse modo, fica evidente a comparação com outro grande romance brasileiro: Cidade de Deus, cujo foco narrativo é multiplanar por mostrar todas as situações possíveis as quais abarcam o fenômeno da violência social. Mesmo o romance de Aluísio não possuindo o trabalho de pesquisa que Paulo Lins fez para seu romance e possuindo falas que geram uma ambiguidade racista problemática em certos momentos, O cortiço é um panorama interessante do surgimento da cidade como nova forma de organização social, na qual convivemos diariamente com diversos seres com os quais não temos interação profunda, marcada por isso pela presença constante dos conflitos.

Além disso, O cortiço como romance-denúncia mostra a cidade como espaço crivado de conflitos e contradições, como o sobrado ao lado do Cortiço, cujo dono, João Romão, começa também a cobiçar a nobreza não mais desejando apenas em trabalhar e guardar dinheiro, em outro claro exemplo de como a protagonista do romance são mesmo a injustiça e cobiça sociais geradas pelo capitalismo pós-revolução industrial. A cidade, com seus espaços precários e fechados para os mais pobres, que vivem em regime de violência introjetada e uma alegria resistente de domingo, é um espaço a exibir as marcas da luta de classes e da justiça social nos prédios feios e belos que por ali residem, onde moram seres preocupados demais com seus jogos de interesse – como o parasita Botelho – ou tão somente preocupados em sobreviver, como os milhares moradores do cortiço, que se desdobram em lavar roupa, quebrar pedras e salvar seus objetos de incêndios criminosos, sem esperança ou vislumbre algum de outro modo de existir possível.

***

Rafael Kafka é colunista no Letras in.verso e re.verso. Aqui, ele transita entre a crônica (nova coluna do blog) e a resenha crítica. Seu nome é na verdade o pseudônimo de Paulo Rafael Bezerra Cardoso, que escolheu um belo dia se dar um apelido que ganharia uma dimensão significativa em sua vida muito grande, devido à influência do mito literário dono de obras como A Metamorfose. Rafael é escritor desde os 17 anos  (atualmente está na casa dos 24) e sempre escreveu poemas e contos, começando a explorar o universo das crônicas e resenhas em tom de crônicas desde 2011. O seu sonho é escrever um romance, porém ainda se sente cru demais para tanto. Trabalha em Belém, sua cidade natal, como professor de inglês e português, além de atuar como jornalista cultural e revisor de textos. É formado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará em Letras com habilitação em Língua Portuguesa e começará em setembro a habilitação em Língua Inglesa pela Universidade Federal do Pará. Chama a si mesmo de um espírito vagabundo que ama trabalhar, paradoxo que se explica pela imensa paixão por aquilo que faz, mas também pelo grande amor pelas horas livres nas quais escreve, lê, joga, visita os amigos ou troca ideias sobre essa coisa chamada vida.