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Numa folha, leve e livre – de António Ramos Rosa

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Por Pedro Belo Clara


Conta-se já perto de quatro anos desde o falecimento deste poeta maior do universo literário português, e dado que ainda não havia merecido destaque neste nosso espaço de discussão tem-se agora como imperial o ajuste de tamanha falha.
Ramos Rosa nasceu na cidade de Faro, no Algarve, em 1924, vindo na década de sessenta a radicar-se definitivamente em Lisboa. Nunca terminou o ensino secundário por motivos de saúde, embora tenha desempenhado funções como empregado comercial, professor e tradutor, antes de se dedicar em pleno à prática poética, ofício no qual entrou como um assumido autodidacta – não obstante o ensaio e o trabalho crítico, áreas também merecedoras da sua atenção. Entretanto, um certo talento para o desenho foi gradualmente surgindo nos intervalos da escrita, como o próprio admitiu numa entrevista datada de novembro de 1996: «Eu faço uns desenhos que são rostos e faço-os com uma grande espontaneidade: são automáticos e confluentes». Sobre este aspecto…

Boletim Letras 360º #215

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As notícias que circularam durante a semana em nossa página do Facebook. E ainda estão abertas as inscrições para participar da promoção que sorteia um exemplar do livro Da poesia, Hilda Hilst, edição que reúne toda a obra poética da escritora e inéditos. 

Segunda-feira, 17/04
>>> Brasil: Desconhecida no Brasil, não mais
Scholastique Mukasonga é uma escritora tutsi de Ruanda nascida em 1956 e residente na Normandia, França. Foi sobrevivente dos massacres no Ruanda ocorridos na década de 1990. Autora de uma obra que inclui romances, poesias e contos, seu nome foi anunciado como participante na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Até então desconhecida no Brasil, a obra de Scholastique ganha tradução de dois títulos, a sair pela Editora Nós: os romances Nossa Senhora do Nilo, que surpreendeu ao vencer o prestigiado Prêmio Renaudot, em 2012, e A mulher de pés descalços (2008), em que homenageia a sua mãe, morta no genocídio.
>>> Brasil: Muitos russos a camin…

O marechal de costas, de José Luiz Passos

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Por Pedro Fernandes


“A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. A frase de Karl Marx, assim deslocada da obra em que foi gestada nunca serviu tão bem ao momento pelo qual passamos – dentro e fora do Brasil. Algumas forças que, displicentemente, pensávamos sepultadas nos anais da história, voltam à ribalta e ameaçam cada vez mais assustadoramente voltar aos tempos de razão cega e sectarista responsável pelos momentos mais dolorosos de nossa curta estadia no mundo como civilização. E essa é a frase que bem poderíamos apresentar como explicação metodológica sobre a criação de O marechal de costas, de José Luiz Passos.
Agora, antes de justificar a razão, é preciso fazer duas perguntas: uma é, qual o limite da realidade histórica metida num romance e, outra, desmembrada da primeira, é, até que ponto o romancista pode controlar as forças de seu tempo na influência de uma composição romanesca. Provavelmente, a resposta que obtivermos das duas questões justifi…

O filho de Saul, de László Nemes

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Por Pedro Fernandes


Não foi em vão que O filho de Saul ganhou o Grande Prêmio do Festival de Cannes e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Não é o caso de retomada de alguns temas recorrentes à cinematografia sobre o nazismo alemão e o massacre a milhões de pessoas em nome de uma ideia perversa ou ainda o tema sobre a errância do povo judeu – dois epicentros da narrativa de Nemes vinda a lume no ano em que se passaram 70 anos do fechamento de Auschwitz pelos soviéticos. Nem foi esse dado histórico o que terá comovido o júri para a atribuição dos galardões. É a maneira muito autêntica encontrada pelo diretor húngaro para retomar esses dois temas.
A narrativa de O filho de Saul se passa num dia da vida de um membro do chamado Sonderkommando, um grupo de trabalhadores formado por recrutas escolhidos tão logo chegavam ao campo de concentração e cuidava do serviço burocrático de detenção, execução, queima, manutenção e ordenação dos crematórios. Não sabe-se qual campo onde vive Saul nem o …

Uma farmácia literária que pode curar quase tudo

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A literatura como remédio, como uma cura aos males da vida. Os livros como cura para as feridas e as bibliotecas pessoais como tratamento sem efeitos colaterais. Isso se não perguntam ao fidalgo criado por Miguel de Cervantes que talvez, em seu são juízo, dissesse o contrário. Os livros como remédio para tudo. Ou para quase tudo. De flatulência à desilusão amorosa. Contra o medo da morte, Gabriel García Márquez e Cem anos de solidão. Contra o medo às situações difíceis, perigosas, Harper Lee e sua personagem Atticus Finch, de O sol é para todos. Contra o medo do compromisso, o Prêmio Nobel de Literatura português José Saramago e seu Ensaio sobre a cegueira. E por aí vai, uma recomendação após outra com os motivos e os conselhos a modo de instruções de uso. Instruções que, aliás, são muito simples: sente e leia. Embora neste prospecto de quase quatrocentas páginas não advirtam os efeitos colaterais nem se faz necessário consultar um especialista.
Apresentado pela Editora Verus, esta é…

Sobre o “boom latino-americano” e outros demônios

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Por Christopher Domínguez Michael

Ao comemorar o meio século da aparição de Cem anos de solidão, Troca de pele e Três tristes tigres, obras de Gabriel García Márquez (1927-2014), Carlos Fuentes (1928-2012) e Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), festejamos (ou ponderamos, se possível) os anos que nos separam do esplendor do boom latino-americano que mudou o destino da língua espanhola como só havia acontecido antes durante o Século de Ouro, durante a aparição de Rubén Darío culminando a penúltima década do século XIX e com os poetas peninsulares da geração de 1927.
Três momentos suficientes para garantir o que, de maneira incrível e antes daquele 1967, se colocava em dúvida: o lugar capital da língua espanhola, nos princípios da modernidade (Shakespeare, segundo Roger Chartier, lendo Cervantes) e durante seus longos e nebulosos anos finais com um Borges como um dos escritores mais influentes do planeta. Quem lamentou nossa ruína, sempre rápidos, foram os professores anglo-saxões (com…

Yorick, embaixador da morte

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Por Rafael Ruiz

Não nada que eu goste mais na literatura que sua capacidade em produzir mitos. E de todos os mais conhecidos (os moinhos de Dom Quixote e a loucura, Moby Dick e a ambição do homem, os círculos do inferno de Dante e o castigo justo por nossas vidas), nenhum me seduz mais que a caveira de Yorick, uma imagem capaz de resumir toda uma história da literatura.
Quando uma obra é tão popular como Hamlet, no momento em que o público se senta no teatro não decide ver uma representação, mas uma atualização do mito. O espectador deseja, de uma maneira consciente ou inconsciente, que esse novo avatar do enredo responda à altura pela imagem idealizada que tem do texto. Como consequência, cada nova montagem da obra luta – desde há séculos, não esqueçamos – por se defender a si própria como projeto e ser capaz de estabelecer um diálogo satisfatório com a memória de cada espectador. A explicação sensível do fenômeno é que contemplar um clássico no palco não se reduz ao processo de recon…

Boletim Letras 360º #214

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Uma semana intensa para o universo dos livros no Letras in.verso e re.verso. Poderá o leitor comprovar pela leitura deste Boletim de Páscoa. Que o feriado seja repleto de leituras e chocolates. Merecemos, que a realidade já é crua e amarga. 


Segunda-feira, 10/04
>>> Brasil: Um conjunto de documentos considerado secretos sobre a vida de Pedro Nava, mais de trinta anos depois de sua morte, está agora aberto à consulta dos pesquisadores.
São anotações de Nava sobre homossexualidade e faziam parte de seu acervo não aberto guardado na Fundação Casa de Rui Barbosa. A liberação do arquivo se dá pouco depois de revelada uma carta de Mário de Andrade sobre o mesmo tema e mantida em censura por quatro décadas. Em reportagem para o jornal Folha de São Paulo, Maurício Meirelles afirma que grande parte dos papéis não estão datados. “Em um deles, Nava escreveu uma pequena oração: ‘Senhor, Senhor! Dilacerai a minha carne, mas tende pena dos homossexuais’.” E revela uma carta anônima possive…