Objecto quase, de José Saramago


Trata-se da única antologia de contos do escritor português, autor também de outros textos do gênero, como O conto da ilha desconhecida, A maior flor do mundo (estes dois publicados individualmente no Brasil também pela Companhia das Letras em bela edição luxuosa) e O ouvido... (nunca publicado aqui, mas integrante de uma publicação coletiva em que tanto José Saramago como os outros escritores discorrem a partir da tapeçaria La Dame à La Licorne) e alguns dispersos, como o conto Natal, de data indefinida que descobri no ato de escrita de minha monografia de graduação compilado numa edição da Revista Colóquio/Letras. Haverá, certamente, outros, que a distância e/ou a curta informação permita seu silêncio.

Em Objecto quase apresentam-se seis breves narrativas enfeixadas cada uma por apenas um substantivo - "Cadeira", "Embargo", "Refluxo", "Coisas", "Centauro", "Desforra". Esses são os nomes para aqueles que são os escritos breves do Nobel português mais densos; neles estão contidos parte daquilo que os humanos são e naquilo que os humanos têm, ao longo do processo histórico, se transformado. Atentemos para epígrafe que abre o livro: "Se o homem é formado pelas circunstâncias, é necessário formar as circunstâncias humanamente" (Marx e Engels). Aliás, esse título, Objecto quase, é em si bastante significativo: tem a ver com o que vimos sendo - objetos - mas não ainda em sua totalidade - objetos quase. Principalmente nos detivermos na leitura de "Refluxo", em que se lê a morte tornada objeto, em "Coisas", em que é a própria humanidade que se coisifica ou ainda em "Embargo", o homem à mercê do conforto que o cria distante do caos.

Em "Centauro" tem lugar outra vertente da literatura de Saramago que é o fantástico. A aparição do elemento mítico com personagem do texto em muito dialoga com a passarola movida à vontades do Memorial do convento ou com a soltura dos Pirineus em forma de jangada mar aberto.

Outro elemento que marca esses contos, além dessa temática, já pulsante no Saramago pré-romancista (à época em que ele publica tais contos, 1978, quando ainda não era o romancista que hoje é) está na busca por uma estética lingüística. Ao ler títulos como "Cadeira", por exemplo, haveremos de perceber um movimento de circularidade em torno da própria linguagem; o conto mais complexo desta antologia é também o em que um narrador serpenteia em torno de si, no sentido de encontrar um, trajeto, uma via pela qual possa estabelecer a linguagem enquanto fenômeno.

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