A bagagem do viajante, de José Saramago

Por Pedro Fernandes

Os pais de José Saramago. Fonte: Fundação José Saramago

"Estão os dois de pé, belos e jovens, de frente para o fotógrafo, mostrando no rosto uma expressão de solene gravidade que é talvez temor diante da câmara, no instante em que a objectiva vai fixar, de um e de outro, a imagem que nunca mais tornarão a ter, porque o dia seguinte será implacavelmente outro dia... Minha mãe apoia o cotovelo direito numa alta coluna e segura na mão esquerda, caída ao longo do corpo, uma flor. Meu pai passa o braço por trás das costas de minha mãe e a sua mão calosa aparece sobre o ombro dela como uma asa. Ambos pisam acanhados um tapete de ramagens. A tela que serve de fundo postiço ao retrato mostra umas difusas e incongruentes arquitecturas neoclássicas".

Com a leitura desse retrato ("Retrato de antepassados"), José Saramago abre seu livro de crônicas, único do gênero até o presente publicado no Brasil, A bagagem do viajante. É sabido que há outros livros que reúnem a cronística saramaguiana - para efeito de informação, o primeiro exercício literário, de fato, do escritor português, quais sejam As opiniões que o DL teve, Os apontamentos, Folhas políticas e Deste mundo e do outro.

A crônica, vê-se, foi apenas um dos diversos gêneros experimentados pelo autor. No largo intervalo de trinta anos que vai da publicação de seu primeiro romance, Terra do Pecado ao Manual de Pintura e Caligrafia (designadamente ainda o seu segundo romance), exerceu atividades editoriais, jornalísticas e literárias. As atividades como cronista datam de finais da década 1960 e início da década seguinte. As crônicas reunidas em A bagagem do viajante, por exemplo, foram publicadas pela primeira vez no  diário A capital e no semanário Jornal do Fundão.

Se grande parte dos  títulos desse gênero ainda não chegaram por aqui, ao menos temos ciência de que as crônicas de A bagagem trazem muito daquilo que será reconhecido mais tarde como esquema temático de Saramago, isto é, as crônicas desse livro se apresentam como uma excelente entrada ao universo literário saramaguiano, uma vez que, grande parte daquilo que desenvolverá mais adiante está aí presente. Essa é uma observação que faz jus a uma afirmativa do próprio Saramago de que o leitor interessado em descobrir a origem de tudo, deve recorrer às crônicas.

Em "Retratos de antepassados", por exemplo, está alguns embriões de As pequenas memórias (único livro de caráter eminentemente autobiográfico escrito pelo português, claro, além dos Cadernos de Lanzarote, que reúne diários seus desde quando se mudou para a ilha no arquipélago das Canárias em 1992); nessa verve do autor falando de si e de sua vida são destaques as crônicas "Molière e a Toutinegra", "O lagarto" e "O maior rio do mundo". Estes são textos marcados por uma relação de afeto muito singular sobre determinados episódios da vida pessoal de Saramago; não que outros exemplos não possam ser citados, especificamente, quando se sabe que a crônica é necessariamente um gênero nascido da experiência diária do cronista.

Capa de uma das edições brasileiras de A bagagem do viajante



De outros textos que reúnam afeições temáticas com o romance está "E agora, José?", profundo intertexto com o poema "José", de Carlos Drummond de Andrade, mas que serviria de mote ao Todos os nomes, narrativa que gira em torno de uma única personagem, o Sr. José.

Mas, há neste livro, a origem do conto infantil A maior flor do mundo ("História para crianças"), de um texto que foi publicado com tiragem solta qual esse conto, o belo "Moby Dick em Lisboa" (reunido com outras crônicas de Deste mundo e do outro) e outra crônica d'A bagagem, "De quando morri virado ao mar" numa publicação foi para a Grande Exposição realizada em 1998 em Portugal.

Os textos d'A bagagem são carregados de um tino da fina ironia que também daria forma a prosa romanesca de Saramago (lembro logo de Memorial do convento, romance escrito sob o fio da linha cortante da ironia) ou dos tons de fantástico e maravilhoso (Memorial do convento, A jangada de pedra). É exemplo desse último caso "Elogio da couve portuguesa" em que o escritor parte do episódio banal de um recorde atingido por uma planta do gênero plantada na Austrália que chega a 2,4 metros. O episódio apenas lhe serve para imiscuir comparações ordem patriótica como a das Grandes Navegações nos séculos XV e XVI - toca, assim, noutro aspecto de seu romance, o histórico.

Mas a ironia fica por conta da situação em que cronista pensa sobre o crescimento da couve em condições adversas, entre cangurus e ameaçada por tribos primitivas. É uma ironia que se refestela em certas doses de humor; as duas à serviço de alfinetar sobre o processo de colonização da América, África e Ásia e a incapacidade portuguesa de não mais ater-se a nenhum tipo de conquista, mote que engendraria outro livrinho muito importante de sua bibliografia, O conto da ilha desconhecida.

Em quase seis dezenas de textos, todos muito breves, A bagagem do viajante é um livro para leitores que gostam de sorver pequenas porções e guardá-las para refletir mais tarde. As imagens evocadas na leveza do texto são proporcionais à profundidade das reflexões propostas pelo cronista. E, claro, são registros de um livre exercício de escrita que tenta aproximar a prosa da poesia, do teatro e ser mera forma de oferecer uma crítica sobre determinada circunstância histórico-social. Que não tarde chegar os demais textos deste gênero.


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