Dan Brown. J K Rowling. Paulo Coelho. Nietzsche: sobre a fenomenologia nova na literatura


Por Pedro Fernandes




A Literatura Universal (que se frise também a brasileira) tem passado por transformações tantas desde o rompimento com o Clássico em meados do século 18. A partir de então descortinam novas ondas, antes menos pretensiosas, agora freneticamente carregadas de pretensões. Dentre estas a mercadológica talvez seja a mais subjacente. Imaginava-se ao cortar as algemas que se tinha como Clássico uma liberdade literária. Em meio a isso tudo que assistimos, tomemos cuidado para que não se torne libertina se é que isso não já aconteceu. Analiso como suporte a essa crítica alguns escritores que emergiram neste cenário da contemporaneidade, são fenômenos de crítica e público e faço uma breve relação com a teoria acerca da cultura ocidental, de Friederich Nietzsche; filósofo alemão nascido em 1844.

O primeiro, Dan Brown, febre mundial pela polêmica incutida no seu primeiro texto O código Da Vinci; texto esse carregado de um suspense bem construído, desarmado, porém, numa bestialidade cinematográfica à Hollywood. Não foi à toa que o cinema o adaptou.

Quando surgem as edições mais modernas d'O Código que o fenômeno se estampa nas capas, best-seller, duvidei que surgisse ali um fenômeno literário e empreguei novo título, fenômeno capitalista. E com ele nomeei outros: a escritora J. K. Rowling, milionária com Harry Potter (e da qual li quase toda a saga do bruxo para constatar aquilo que constatei em Dan Brown: texto muito bem construído); e o escritor nosso Paulo Coelho (disparatadamente membro da Academia Brasileira de Letras), famoso mago, pela sua tessitura carregada de misticidade (dele, só li as crônicas), são exemplos desses vários outros, citáveis.

Essa fenomenologia capitalista pode ser entendida sob dois prismas distintos. Num primeiro que foge da risca nietzschiana é possível enxergar um despertar mundial para o universo da leitura; esta, no entanto, logo vem abaixo uma vez que a cultura do aleitor vigora secularmente por uma série de questões entre nós e está longe de, mesmo com todos os fenômenos de vendas do livro vir abaixo. Além disso, é nos países europeus, não esqueçamos, aqueles mais alfabetizados, onde se processa com maior vigor o fenômeno Paulo Coelho, por exemplo. Também nem para o Brasil esta afirmativa sustenta quórum porque poder-se-ia atribuir um modismo, característica culturalmente também nossa em adotar o que se cultua lá fora. Para esse público aleitor Dan, Rowling ou Coelho figurariam nem que fosse na estante da sala ou na cabeceira da cama.

Sob um segundo prisma e este se aproxima do descortinar frenético de ondas no espaço literário contemporâneo, seria o próprio lance da mercadologia. Assim Dan, Rowling e Coelho não se enquadram no aspecto digno de literatura porque os três compõem exemplos do escritor fenômeno, o que segue a lógica do mercado de consumo. E embora tenham consciência disso não admitem: querem a custa força serem reconhecidos pelo cânone. E diria que já são, porque mesmo que se resista a rebaixá-los como não-literatura, há uma grande parte que consideram o contrário. Mas são, via de regra, escritores batidos porque obtiveram sucesso com uma primeira obra e desde então plagiaram o modelo em suas demais obras.

A pergunta é: onde entre Nietzsche nessa história? O pensador dirá que grandes obras são realizadas por indivíduos selecionados, munidos dos ramos necessários para tal. Dan, Rowling e Coelho comporiam o lado inútil do cenário literário uma vez que suas literaturas são escravas de modelos pré-determinados para satisfazer o gosto do mercado. Não se pode sequer aviltar em expor essa onda nas letras como algo genuinamente literário uma vez que se trata de uma cultura rápida, passageira, a serviço do lucro, do maior ganho de dinheiro possível. Encontram-se, pois, longe de obter respaldo literário porque não fazem literatura, brincam de fazê-la. Apenas constituem fenômeno novo no cenário literário universal.

* Uma primeira versão deste texto, mais breve, foi publicada em janeiro de 2007 no Jornal Correio da Tarde.


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