Manual de pintura de caligrafia, de José Saramago

Uma das capas para uma edição brasileira de Manual de pintura
e caligrafia. 


Manual de pintura e caligrafia é o primeiro romance de José Saramago; pelo menos até enquanto o escritor português não admitiu publicamente que aquele A viúva, publicado em 1947, com outro nome, Terra do pecado era um romance que estaria na sua tábua bibliográfica. É uma obra que traz, desde seu título, uma marca na escrita saramaguiana: a de revisão das terminologias e, logo, de conceitos, dados aos gêneros. Chamar um romance de manual e de pintura e caligrafia tem toda uma diversidade de sentidos que foge da ideia que se tem de um manual - geralmente descritivo e prescritivo - coisa que o texto em questão não é.

Lido pela crítica como um romance cujas margens vem povoadas por ecos de uma biografia do próprio autor - sendo, portanto, o mais autobiográfico dos seus trabalhos. Entendendo que a crítica às vezes fala tanto que beira a linha do indevido, prefiro ver que a materialidade deste texto é tão somente do território da ficção, afinal todo trabalho do tipo é permeado pela imaginação, produto da criatividade e da vivência do escritor. No dia que qualquer obra do gênero se constituir apenas em espaço para demarcações biográficas, parem tudo, o que estaremos fazendo com o texto literário?

O protagonista dessa trama é H. - de inicial assim, maiúscula, mas sem nome próprio, como aquele K. personagem de Franz Kafka. Aliás, este do Manual muito tem daquele d'O processo. Ambos se constituem do mesmo limbo desidentificador que povoa a sociedade contemporânea. H. é um pintor, um medíocre pintor de retratos, numa época em que a profissão há muito vendo sendo substituída pela fotografia. E sua mediocridade não se justifica pela profissão, mas pela incapacidade que padece de conseguir se reinventar.

Tudo muda quando, um dia se dispõe a escrever sobre pintura usando de um gênero híbrido - entre a crônica autobiográfica e a precisão da crítica em torno de obras clássicas; essa atitude é tomada num gesto que prova uma reviravolta na sua vida profissional: largar, por um motivo daqueles que não se explicam, o ofício. No decorrer do romance haverá de conhecer M. que conduzirá outros rumos à mesmice a que H. estava fadado.

Tem lugar aqui, outra característica da obra do Prêmio Nobel de Literatura: a de ter pela figura feminina uma consideração a ponto de fazê-la a força propulsora, ou reinventora dos modos de existir que, afinal, o Manual é isto, um romance que, sem quaisquer características de autoajuda, é sobre a possibilidade de reinvenção do eu frente a vida.

Mesmo a ordem de sentido do gênero estando reinventada, o Manual se apropria do sentido clássico, o de ser um espaço de reflexão pela arte mimética do mundo - as questões contextuais, a própria escrita, as artimanhas da palavra, da linguagem como elemento de constituição da realidade e o trabalho belíssimo de relação entre a escrita e a pintura, tema bastante caro nas reflexões construídas por José Saramago em toda sua obra. Digo: é um daqueles textos indispensáveis (toda obra romanesca do Saramago é) para a leitor de língua portuguesa.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cinco livros para conhecer a obra de William Faulkner

Essa estranha instituição chamada literatura: uma conversa com Jacques Derrida

Os melhores diários de escritores

Lolita, amor e perversão

O conto da aia, o pesadelo de ser mulher numa teocracia

Os ventos (e outros contos), de Eudora Welty

A ignorância, de Milan Kundera

Há muitos Faulkner

Kazuo Ishiguro, Prêmio Nobel de Literatura 2017

Boletim Letras 360º #239