Lygia Fagundes Telles e a "Ciranda de Pedra"

Aproveitando a deixa de que a Globo esta semana começou a reexibir a novela Ciranda de Pedra para falar um pouco sobre a autora Lygia Fagundes Telles, bem como sua produção literária. Aproveito também a deixa para criticar a certa displicência da emissora por somente semanas depois que já propagandeava o nome da nova novela dizer que se baseava na obra da escritora.




De sua escrita Lygia comenta que o que lhe motiva é ir "no âmago do âmago até atingir a semente resguardada no lá fundo como um feto". Ela nasceu em abril de 1923 em São Paulo e em 1938, custeada pelo pai, publica seu primeiro romance Porão e sobrado.

Matricula-se no curso de Direito em 1941 e de então passa a freqüentar as rodas literárias onde conhece Mário e Oswald de Andrade. Também por essa época Lygia colabora com os jornais Arcádia e A Balança, ao mesmo tempo em que trabalha como assistente do Departamento Agrícola do Estado de São Paulo, além da outra faculdade, a de Educação Física, quando se forma no mesmo ano de 1941.

Em 1944 tem editada sua segunda coletânea de contos, Praia Viva. Três anos após concluir o curso de Direito, 1949, publica seu terceiro livro de contos, O cacto vermelho. Esta obra receberá o Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras.

Ciranda de pedra é o seu primeiro romance; começa a escrevê-lo em 1952, no retorno à capital paulista haja vista ter ela se mudado para o Rio de Janeiro em 1950 devido ao casamento com o jurista Goffredo da Silva, então deputado federal.

A obra logo se torna um dos clássicos da literatura brasileira e, como refunda o perfil da escrita telliana;  Ciranda de pedra trata de uma corajosa incursão pela complexa situação familiar contemporânea. Ao fazer uso preciso da linguagem e do delinear psicológico das personagens, o narrador acompanha a trajetória de Virgínia, uma menina envolvida num mistério que mistura rejeição, crueldade, compaixão e amor pungente.

Esta obra Lygia desata a escrevê-la a partir de uma reflexão que ela teve numa das suas constantes caminhadas, quando passava em frente a um casarão abandonado que estava sendo demolido. Ao passear pelos cômodos vazios e encantar-se com uma fonte onde se via uns anões de pedra em círculo, Lygia pensou o quanto que de histórias não se escondiam por ali naqueles jardins abandonados, alegrias, tristezas que envolveram os antigos donos daquela casa.

Várias partes desse romance foram escritas na fazenda Santo Antônio, em Araras, São Paulo. Esta fazenda fora na década de 1920 o point, digamos assim, onde se reuniam os escritores e artistas que fizeram o movimento modernista, tais como Mário e Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Anita e Heitor Villa-Lobos. Ciranda de Pedra é lançado em 1954, no mesmo ano em que nasce seu único filho Goffredo Neto.

Além desta obra Lygia também publica os livros de contos Histórias do desencontroHistórias escolhidas, Seminário de ratos, Filhos pródigos (mais tarde republicado sob o título A estrutura da bolha de sabão), O jardim selvagem e Antes do baile e os romances Verão no aquárioAs meninas, entre outros.

Em 1982 foi eleita para a cadeira da Academia Paulista de Letras e em outubro do mesmo ano ocupa a cadeira na também Academia Brasileira de Letras.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cinco livros para conhecer a obra de William Faulkner

Os melhores diários de escritores

Essa estranha instituição chamada literatura: uma conversa com Jacques Derrida

Lolita, amor e perversão

O conto da aia, o pesadelo de ser mulher numa teocracia

Os ventos (e outros contos), de Eudora Welty

O primeiro conto de Ernest Hemingway

Há muitos Faulkner

Kazuo Ishiguro, Prêmio Nobel de Literatura 2017

Boletim Letras 360º #239