Hilda Hilst*

Por Rosanne Bezerra de Araújo 


Atraco-me comigo, disparo uma luta. Eu e meus alguéns, esses dois dos quais dizem que nada têm a ver com a realidade e é somente isto que tenho: eu e mais eu.

H. Hilst

Desejo de eternizar-se. Desejo de abdicar da vida social para se dedicar totalmente à literatura. Desejo de alcançar a verdade, o conhecimento, a compreensão da vida e da morte. Desejo de ser santa aos oito anos de idade, quando era interna no colégio de freiras. Desejo de escrever um livro a cada novo amor que surgia em sua vida. Desejo de traçar um roteiro para a sua obra, mesmo que o seu final dê no silêncio: "eu fui atingida na minha possibilidade de falar". Eram tantos os desejos dessa autora, leitora de Joyce, Beckett, Kafka, Nietzsche, Kierkegaard e Kazantzákis, só para citar alguns de seus autores preferidos.

A literatura de Hilda de Hilst (1930-2004) traz como tema, entre outros, o sentido da existência humana. A autora escreveu poemas, contos, romances, crônicas e peças de teatro. O acervo da literatura crítica sobre sua obra é escasso. Há algumas dissertações e teses publicadas. Entre elas, estão "Holocausto das fadas", de Deneval Siqueira de A. Filho, e "Hilda Hilst: três leituras", de Vera Queiroz. Há também a publicação de ensaios e artigos sobre sua obra literária. Hilst foi traduzida para o francês e o italiano. Há pouca coisa traduzida para o inglês, o alemão e o espanhol. Algumas de suas obras foram adaptadas para o teatro.

A autora inicia sua carreira literária compondo poemas em 1950, fase que perdura até 1962. Sua poesia, fundada em uma tradição lírica, com influência dos poetas latinos Catulo e Marcial, traz um Eu que busca uma compreensão de si mesmo e do mundo. É pertinente o tema do amor, tema privilegiado que segue o modelo idealizado de poesia como as cantigas de amigo medievais, que cantam o amado ausente. Seus poemas versam sobre o amor, a morte. Deus e o silêncio. Tal silêncio é percebido também em sua prosa. No prefácio do livro Da morte: odes mínimas (1980, p.10), Alcir Pécora afirma que há nesses poemas sobre o tema da morte "um tipo peculiar de esperança: a de que a poesia possa tornar-se exercício espiritual que prepara para o fim", como se a morte se tornasse cúmplice do eu-lírico.



A poesia hilstiana tanto explora a natureza física e erótica como a metafísica. Nelly Novaes Coelho (1999), no ensaio "Da poesia", ressalta dois Eus em sua poesia: um de natureza física e outro de natureza metafísica. Destaca ainda o fato de sua poesia estabelecer uma ponte entre o homem do século XX, filho da técnica, e o homem natural, consciente de ser terra e partícula do universo.

A segunda produção compreende obras em teatro, escritas entre 1967 e 1969 (auge da ditadura militar no Brasil). Ao todo, são oito peças pouco encenadas até hoje, as quais trazem fatos históricos, como a morte de Ernesto Che Guevara, em o Auto da barca de Camiri. Simbolizando o mundo fechado do regime militar, no qual as pessoas viviam sob a coerção, impedidas de manifestarem seu pensamento, o teatro hilstiano traz ambientes de clausura, como em O rato no muro, de 1967, cuja história se passa em um convento, e As aves da noite, de 1968, que ocorre na Cela da Fome do campo de concentração de Auschwitz. Seu teatro traz a voz da subjetividade do personagem. Nessa voz, evidenciam-se a incerteza e a angústia do homem ao perceber que não possui poder de ação para modificar a realidade à sua volta.

O terceiro momento de sua literatura é iniciado com a obra em prosa, Fluxo-floema, de 1970. Sua prosa ficcional tem continuidade com Qadós (1973), Tu não te moves de ti (1980), Com os meus olhos de cão e outras novelas (1986), Rútilo nada (1993) e Estar sendo. Ter sido (1997). Além desses textos, há os porno-eróticos, que na verdade compreendem uma aguçada reflexão sobre o ato de escrever. São textos disfarçados de pornografia que aprofundam o tema da escrita literária, como O caderno rosa de Lori Lamby (1990). Nessa obra, a narradora é uma menina de oito anos, cujo pai é um escritor falido.

Leitora de biografias de santas, como Santa Tereza d'Ávila e Sóror Juana Inés de la Cruz, H. Hilst compreendia muito bem que a busca do sublime não significa a renúncia do corpo. Mesmo na literatura erótica, a autora insiste no sublime, na busca em esboçar uma ideia de essência divina. Para Hilst, o erótico possui íntima relação com a santidade.



Durante os anos (1967-1974), parou de escrever poesia. Somente em 1974 a escritora voltou a publicar poemas, versando sobre a morte, o amor e o sagrado. A poesia não era mais o canal ideal para expressar seu pensamento criador. A forma da poesia parecia limitar a torrente de ideias da autora. Essa contenção de ideias só passou a ser liberada na prosa. É por isso que em 1970 inicia-se uma nova fase na sua literatura com a publicação de Fluxo-floema. É nesse momento que Hilst inaugura sua arte de ficcionista e de dramaturga. A prosa lhe oferece a chance de trabalhar uma nova linguagem, rompendo com os padrões da forma tradicional. Sua prosa é oposto de sua poesia. Enquanto a poesia segue toda a tradição formal dos poetas latinos, das cantigas de amigo, a prosa opõe-se à narrativa tradicional, passando a valorizar o sentido da palavra, ainda que esta tenha um sentido escatológico. Sua escrita busca romper com os limites e tabus. É verdade que alguns livros de poesia também abordam a pornografia, como Do desejo (1992) e Bufólicas (1992), mas trata-se de uma poesia tardia, em um momento no qual ela queria se despedir da "literatura séria".

É através da prosa que a autora opta pela criação de um texto de difícil codificação. Fluxo-floema, seu primeiro livro em prosa, considerado uma prosa poética, é uma obra que traz personagens reclusos em sua interioridade. A autora consegue explorar a imaginação no texto em uma época em que até o pensamento era vigiado. O país estava sob a vigência do AI-5 e, portanto, não havia liberdade de ação, nem de expressão. No entanto, ao mesmo tempo em que a exposição do livre-pensamento era proibida na música e nos meios de informação, na arte literária ela era retratada através do comportamento de personagens mergulhados em uma insatisfação diante de sua existência no mundo. A época na qual Fluxo-floema estava sendo escrito coincidia com o momento de luta armada dos grupos de esquerda contra o regime militar. Se a poesia de Hilst estava imersa nos anos dourados da década de cinquenta, ainda que o tema do silêncio em seus verso seja um eco do silêncio da Guerra Fria, já a prosa revela a contundência de uma época difícil no Brasil. Talvez a isso se deva o fato de sua obra em prosa ter sido pouco compreendida e estudada. Sua obra teatral também não obteve uma ampla recepção por parte dos leitores e da crítica.

Incomodada com a falta de acolhimento público, a escritora passou a escrever textos porno-eróticos, o que não melhorou a sua recepção. Mas, seja qual for a fase de sua literatura, o valor artístico de seus textos prevalece em todas elas devido a sua preocupação em inaugurar um tom literário que não busca a perfeição, a clareza e a solidez, mas sim a obscuridade, a insatisfação, o incômodo e o fracasso. Até mesmo os textos eróticos revelam um motivo estético: o do fracasso. A autora mimetiza esse fracasso através de personagens como o pai de Lori Lamby, cujo papel é o de um escritor falido; ou através do protagonista do conto "Fluxo", que sofre a exigência do editor de escrever "coisas fáceis" que atraiam a atenção do público.

Em relação ao contexto da literatura brasileira, a autora surge com sua poesia (1950-1962) em meio a uma época na qual os poetas das novas vanguardas (1956-1968), como o Concretismo e o Tropicalismo, destacavam-se. Em um momento em que a criação poética era motivada pela experiência de vanguarda, Hilst, cuja poesia não se permite enquadrar em nenhum movimento, optou por escrever um verso clássico, enraizado na tradição poética latina.

Já sua prosa, ao lado da narrativa psicológica de Caio Fernando Abreu (1948-1996), dá continuidade ao romance psicológico na literatura de Clarice Lispector (1925-1977). A narrativa de H. Hilst, imbuída de traços de Lispector, bem como da influência europeia de autores como Joyce, Beckett, Camus e Kafka, ultrapassa o território nacional e se consagra como uma grande literatura. Influenciada pelo pensamento de autores como Freud e Jung, sua obra revela ao mundo a multiplicidade do ser humano, através de questionamento de seus personagens e do incessante trabalho com a linguagem.

A importância de sua obra no contexto da literatura brasileira é a de sempre ter se mantido preocupada em escrever o inesperado, o inapreensível, utilizando-se, para isso, de uma linguagem que consegue escapar das formas mecânicas e enformadas da literatura tradicional, mesmo correndo o risco de não ser compreendida ou acolhida pelos leitores.

Todas as obras da autora dialogam entre si. Os temas e os personagens de determinada obra podem ser encontrados em outra, de modo que o universo literário hilstiano é o mesmo, seja no teatro, seja na ficção, seja nas crônicas e em alguns livros de poemas.


* Este texto é um fragmento de Niilismo heroico em Samuel Beckett e Hilda Hilst: fim e recomeço da narrativa (EDUFRN, 2012).

Ligações a esta post:
No Tumblr do Letras reunimos uma galeria com fotografias raras de Hilda Hilst.
Manuscrito: Carta de Hilda Hilst ao crítico Homero Silva.
Datiloscritos de peças teatrais de Hilda Hilst
Conjunto de desenhos de Hilda Hilst (1)
 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cinco livros para conhecer a obra de William Faulkner

Essa estranha instituição chamada literatura: uma conversa com Jacques Derrida

Os melhores diários de escritores

Lolita, amor e perversão

O conto da aia, o pesadelo de ser mulher numa teocracia

Os ventos (e outros contos), de Eudora Welty

A ignorância, de Milan Kundera

Há muitos Faulkner

Boletim Letras 360º #239

Kazuo Ishiguro, Prêmio Nobel de Literatura 2017