Dossiê James Joyce: peças para um retrato do artista (I)



Quando a obra clássica de Joyce chega ao Brasil é por volta de 1966, por iniciativa de Enio Silveira. Trata-se da edição traduzida pelo filólogo, escritor e acadêmico Antonio Houaiss. Em 2005, chega a tradução feita por Bernardina Pinheiro, uma iniciativa sua, que se dedicou a essa tarefa ao longo de mais de sete anos, tudo para atingir um objetivo que ao seu modo de ver não se via na edição do Houaiss: recuperar o tom da linguagem coloquial do romance, uma de suas principais características. A tradutora concordava que a versão de Houaiss era bastante rebuscada. Bem, se este objetivo foi ou não logrado, isso é outra história porque a verdade é que Ulysses, tal como um Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, apresenta dificuldades até para os leitores na sua língua original.


***

James Joyce nasceu em 1882, numa Irlanda que se debatia com as consqüências de uma longa história de domínio inglês, fortalecido a partir do século XVI. Além do camalhaço de divisões políticas outras se marcavam presentes por essa época, as divisões religiosas entre católicos e protestantes. Era o primeiro filho de John Joyce Stanislaus, numa família constituída de seis filhos e quatro filhas.

Casa-se em 1880 com Mary Jane. Herdou alguns imóveis, os quais foram sendo vendidos pouco a pouco, perdendo a vida confortável; basta que comecemos por Joyce numa residência de classe média no subúrbio de Dublin para depois encontrá-lo, mais adiante, fixado num bairro pobre no nordeste da cidade para entender do que estamos falando.

O escritor iniciou seus estudos numa escola de padres jesuítas ainda com seis anos; estudos estes que viriam a ser interrompidos mais tarde por falta de dinheiro, levando-o a peregrinar por outras instituições de ensino também religiosas, mas gratuitas.

Ainda adolescente se mostrava nas suas decisões radicais, com suas críticas ao catolicismo e às instituições políticas e sociais; posição que se fortalece quando entra para a Universidade de Dublin. É dessa época que apresenta sua sagacidade em torno da língua e da literatura.

Aos vinte anos, Joyce já possuía sólida formação intelectual e foi por essa época que começou a publicar seus primeiros textos. Cite-se a leitura de seu ensaio sobre o escritor norueguês Henrik Ibsen, seu dramaturgo preferido, quando da reunião da Sociedade Literária e Histórica da Universidade de Dublin, realizada em 1900. É desse ano também sua análise da peça Quando nós mortais despertamos, também do dramaturgo norueguês.

Na mesma linha, volta-se Joyce para o teatro irlandês e, no ano seguinte, apresenta sua crítica ao Irish Literary Theatre, fundado e dirigido pelo poeta e dramaturgo William Butler Yeats. Esse ensaio foi recusado pelo periódico da universidade, o que faz o escritor imprimi-lo e distribui-lo de seu próprio punho. No ensaio, Joyce criticava o que estava, na sua concepção, por trás da grandeza de Yeats, a grandeza política nacionalista e o folclore didático.

Em 1902, já formado em línguas modernas, muda-se para Paris a fim de estudar Medicina; fluente em irlandês, latim, francês, italiano e alemão, o interesse pela área médica soa meio dissonante no território biográfico desse autor. Com a doença da mãe, Joyce volta imediatamente para Dublin, em 1903. No mesmo ano ficava viúvo de Mary Jane.

Permanece, então em Dublin e aí dá os primeiros passos para a composição de sua obra.

Ligações a esta post:
Leia todo o dossiê aqui.


* Anotações tomadas a partir do texto da Revista Entrelivros, ano I, n. 2.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cinco livros para conhecer a obra de William Faulkner

Os melhores diários de escritores

Essa estranha instituição chamada literatura: uma conversa com Jacques Derrida

Lolita, amor e perversão

O conto da aia, o pesadelo de ser mulher numa teocracia

Os ventos (e outros contos), de Eudora Welty

O primeiro conto de Ernest Hemingway

Há muitos Faulkner

Kazuo Ishiguro, Prêmio Nobel de Literatura 2017

Boletim Letras 360º #239