Cadáveres adiados

Cândido Portinari


Olhos secos
inchados, fúnebres
[olhos amarelos, secos]
retr(atos) da fome.

Corpos secos
estirados à sarjeta da África
à cobiçarem comida,
fonte de v(ida).
cadáveres secos-vivos
retratos do des(caso) cobiça.

A mãe África
sem futuro-teto-perspectiva
é um mundo assombrado,
de fantasmas tísicos
secos, do(entes), cambaleantes de fome.

Terra tão rica
fica tão abando(nada)
é lembrada
somente pelo ouro, diamante
roubada, saqueada.

Men(inos) da mãe África
olhos secos de água
lágrimas sustento
dos sonhos abortados 'inda criança
sem esperança de vida [nada]
somente à espera de comida
são cadáveres adiados.

Nas cerca(nias) da fome [sem nome]
mãe África expõe ao horizonte
o rastro sujo de sangue,
o podre lixo, luxo do poder
enquanto uns têm para dar [e não dão]
e vender; outros matam, vendem o que não tem
o corpo.a vida. os sonhos. a alma
para comer, senão matam a si próprios
e se comem.

Urubus nus
de asas abertas
em vôos rasantes
à procura de carniça [certa]
povoam o azul-céu cobiça
azul turquesa [turquesas]
sujo de sangue podre. manchado por pedaços d'alma humanas
[roubado por invejosos. poderosos]
o podre luxo lixo do poder
estampado nos ternos pretos luxo
[italianos]
as caras magras
desmamadas. crianças negras
abandonadas.

Continente da desolação
povoado de cadáveres nus
[outros vestidos de mortalhas-trapos]
expostos reforços de uma guerra
que impera [nunca termina]
muitos cotós arrasados pelas minas,
[finos presentes dos americanos
ao povo africano]
esquecido. perdido. lembrado
apenas pelos urubus nus
nos seus vôos rasantes
à procura de carniça.

Talvez 'inda
por entre a carnifi(cina) da mãe África
um senhor deus dos desgraçados,
pobres. oprimidos e flagelados
crie vergonha do abandono
res(surja) da podridão
risque da mente o poder-abono inveja
resgate a história perd(ida) de vida
de um povo faminto
corpos. ossos. esqueleto
e sopre o vento-verbo-vida, esperança
para que estes
que nesse instante
nascem não caiam
no[a] vale/vala da morte/guerra
e lá sejam esquecidos [sozinhos sepultados]
dado por perdidos
zumbis vencidos
perdidos do caminho trono celestial de seus deuses
e do nosso
que um dia disse sê-los negros [sem alma]
deus cruel, e
sejam jogados ao léu [não] sem morada
sem vida-projeto, sem nada.


* Acesse o e-book Palavras de pedra e cal e leia outros poemas de Pedro Fernandes.

Comentários

À Mamma África

Que pari em (in)significantes dias
Valiosos diamantes negros
Diluídos sem harmonia,
Reduzidos ao pó, à lama
De quem canta e engana
Filhos que denotam vida extorquida;
Entes, gentes doentes, vendidas!
A preço de esterco e de agonia
Choro e ranger de dentes
Mistura de agouro e melancolia.
À Mama árida
Rainha de muitas tristezas
Riquezas roubadas no soluço
Que nos alimenta todos os dias.



Lembrei-me de você primeiramente lá em Pau dos Ferros, em seguida no I CONEL e, por fim, lá em Campina Grande.
Temos algo em comum, Pedro Fernandes: a poesia materializada na Cecília! E em outras coisas mais...
Parabéns pelo blogger! O nome faz jus a todo bom verso que inerentemente é (in)vertido , (re)vertido...ardido!

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