As veias de Saramago poeta (II)

Por Pedro Fernandes

Por motivo de viagem, sai mais uma vez o Letras in.verso e re.verso para uma pequena estadia sem postagens. Volto muito provavelmente na segunda-feira próxima, já no mês de Machado de Assis. Deixo aos leitores um tema que poderá dar o que falar. Refleti aqui, certa vez, sobre a fala de um professor e crítico literário que falava acerca da pontuação insólita do escritor português José Saramago; em seguida apresentei um Saramago não tão conhecido dos leitores, o Saramago poeta. Hoje retomo a esta última post para fazer o que fiz no primeiro, refletir em torno de outro artigo, esse do professor de Teoria da Unicamp Alcir Pécora, em que ele afirma ser o escritor português tudo, exceto poeta, num artigo para a Folha de São Paulo logo quando do lançamento do livro O ano de 1993, publicado em Portugal em 1975 e no Brasil, ano passado.



No silêncio dos olhos

Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?

Longe de ser um “saramaguista”, mas como bom saramaguiano que se preze, as palavras do professor veiculadas no Jornal Folha de São Paulo em torno da obra O ano de 1993 me soaram destoantes ao meus ouvidos. Como já li O ano de 1993 não consigo encontrar, no vão de minha insignificância teórica – não sou nenhum profundo conhecedor da obra de Saramago, tampouco professor de Teoria da Literatura num centro de excelência como julgo ser a UNICAMP – mas, não consigo encontrar em que parte estaria o tom de revolta apresentada pelo professor em torno dessa obra, a ponto de afirmar: “José Saramago não é poeta. ‘O ano de 1993’ é prova cabal disso. É tão ruim como poesia que deixa até supor que possa ter mérito como prosa. (...) Se algum dia a Ilustrada tiver a idéia de fazer uma dessas deliciosas enquetes sobre os piores versos do século passado, já adianto meu voto.”

Bem, diante de tudo, resolvi investigar mais nas malhas do virtual a procura de algo acerca dessa obra saramaguiana ou mesmo alguma compreensão que se aproxime do estranhamento do professor. Até que encontro um blog que postou fragmentos do artigo e abaixo se seguiam algumas opiniões. Resolvi então dá a minha sob forma de post no meu blog – e aqui nasce a post de hoje, que antes de ser uma homenagem é uma resposta a esse texto do professor Alcir Pécora, que, repito, soou-me implicante.

Haveremos de considerar para todos os efeitos o cenário porque passa os gêneros literários do Realismo para cá. São todos eles resultados de uma transformação cuja bases definidoras, se é que um dia houveram, não mais existem – de modo que em muitos casos é-se praticamente impossível definir fronteiras do que venha a ser prosa e poesia. Acho que, apenas por esse motivo, já temos de sobra pano para manga para discutir a colocação crítica do professor. Mas cito a professora Maria Alzira Seixo – a quem também o professor derruba com certa caolhice pelo vulgo de “valente apologista do Nobel para Saramago” e “passada para as fileiras do arqui-rival Lobo Antunes”:

“O Ano de 1993 é um livro de teor inesperado, intrigante, simultaneamente misterioso e sedutor na sua indecisão estrutural, na sua feição alegórica e na indecisão de caminhos interpretativos que pode abrir. Embora nenhum subtítulo o integre num género literário determinado, certas indicações do autor parecem situá-lo no domínio da poesia, e com efeito a sua estrutura, organizada em 30 partes (poemas ou capítulos), assenta na escrita versicular, que aliás encontrámos em alguns textos de Provavelmente Alegria; no entanto, há um fio narrativo sensível ao longo do livro, com movimentos de progressão e de clímax que apontam para uma urdidura novelística - sendo sobretudo perceptível a intenção fantástica que, hesitando entre um maravilhoso de índole profética e uma nítida tendência para a ficção científica, pela primeira vez organiza com coesão orgânica numa obra do autor esta fundamental convergência “deste mundo e do outro”. Herda assim este texto da prática da crónica o tom sentencioso e a tendência moralizante (ou, pelo menos, judicativa) que irão persistir na sua restante obra; de algumas das melhores páginas dessa sua importante actividade de cronista, assim como da experiência lírica, traz ele também um veio poético, essencialmente expresso pelos processos metafórico e alusivo, que lhe comunicam uma funda capacidade evocativa; mas o seu mais importante sentido situa-se, a nosso ver, no esforço de transposição que pela primeira vez José Saramago pratica em relação ao tratamento do mundo, que já não é aqui abordado enquanto circunstância efectiva mas como formulação poética literal que, justamente por essa sua natureza poética, adquire uma significação humana, não só pela mensagem de conhecimento que se procura transmitir, mas também pela irradiação semântica multivalente que a criatividade verbal produz nos efeitos criados pela sua leitura.”

Finalizando, não vejo que o trabalho do crítico literário seja o de “derrubar” escritores. Posso incitar um debate entre idéias, visões, de um e de outro crítico literário, questionar o trabalho do escritor, mas pô-lo abaixo não. Isso me parece soar como certa calhordice, tendo em vista que o nosso trabalho enquanto crítico depende exclusivamente do trabalho dos escritores. Se estes não existissem o que seria da crítica literária? Nada.

O mundo pintado pelo professor Alcir Pécora deixa entrever o mundo em que reina a rivalidade, do quem é o maior ou o melhor. Não vejo por essa ótica. Dizer que Saramago e Lobo Antunes são arqui-rivais me parece uma infantilidade que não tem explicação. Ambos os escritores podem ter visões diferentes do conjunto da escrita e mesmo sobre o papel do escritor, e rivalidade se houver é lá com eles. Um crítico é um leitor, não um construtor de inimizades à base de uma fofoca grosseira ou mesmo de tomar uma posição pessoal do escritor e torná-la forma de zombaria. 

Se um crítico ou um escritor trabalha por esse ângulo não tem ele a humildade ou mesmo a ética e a mim me parece sê-lo um aproveitador, querendo construir uma face de polêmico atingindo alguém que já está no topo. Conhecendo o espírito do escritor português acho que ele diante de uma crítica desse tipo a receberia como um trecho de uma música, "Fátima", do saudoso Renato Russo do tempo do Aborto Elétrico – “Não quero ser como vocês / Eu não preciso mais / Eu sei o que eu tenho de saber / E agora tanto faz”.



Não me parece ser O ano de 1993 um livro de alegoria barata, mas, como todo poema um corpo carregado de sentidos e correntes de sentido. Pela estrutura, creio que o livro inaugura um novo modo de escrita literária merecido de estudo mais detalhados, antes de críticas mesquinhas e superficiais. Louvo a opinião de Maria Alzira Seixo.

Se já deixei que o tom de poesia saramaguiana abrisse a post, em discordância da fala de Pécora, deixo que novamente a poesia fale; agora, com alguns fragmentos d’O Ano de 1993 (transcrevo de acordo com a forma que se apresenta na edição lindinha da Companhia das Letras):

2

       Os habitantes da cidade doente de peste 
estão reunidos na praça grande que assim fi-
cou conhecida porque todas as outras se atu-
lharam de ruínas

       Foram tirados das suas casas por uma or-
dem que ninguém ouviu

       Porém segundo estava escrito em lendas 
antiquíssimas haveria vozes vindas do céu ou 
trombetas ou luzes extraordinárias e todos 
quiseram estar presentes

       Alguma coisa podia talvez suceder no 
mundo antes do triunfo final da peste nem 
que fosse uma peste maior

       Ali estão pois na praça angustiados e em 
silêncio à espera

       E depois nada mais se ouve que uma aé-
rea e delicada música de cravo

       Qualquer fuga composta há duzentos e 
cinquenta anos por João Sebastião Bach em 
Leipzig

       É então que os homens e as mulheres sem 
esperança se deixam cair no pavimento estala-
do da praça

      Enquanto a música se afasta e voa sobre 
os campos desvastados


4

      O interrogatório do homem que saiu de 
casa depois da hora de recolher começou há 
quinze dias e ainda não acabou

     Os inquiridores fazem uma pergunta em 
cada sessenta minutos vinte quatro por dia 
e exigem cinquenta e nove respostas diferen-
tes para cada uma

     É um método novo

     Acreditam que é impossível não estar a res-
posta verdadeira entre as cinquenta e nove que 
foram dadas

     E contam com a perspicácia do ordena-
dor para descobrir qual delas seja e a sua li-
gação com as outras

    Há quinze dias que o homem não dorme 
nem dormirá enquanto o ordenador não dis-
ser não preciso de mais ou o médico não
preciso de tanto

     Caso em que terá o seu definitivo sono

     O homem que saiu de casa depois da ho-
ra de recolher não dirá por que saiu

     E os inquiridores não sabem que a verda-
de está na sexagésima resposta

     Entretanto a tortura continua até que 
o médico declare

     Não vale a pena


12

    Um dos resultados da catástrofe foi que 
de uma hora para a outra os animais domés-
ticos deixaram de o ser

     A primeira vítima de que houve notícia
foi a mulher do governador escolhido pelo 
ocupante

     Quando o macaco amestrado que a diver-
tia nas horas de aborrecimento a crucificou 
no portão do jardim enquanto as galinhas saí-
ram da capoeira para vir arrancar-lhe à bica-
da as unhas dos pés

     Muitas velhinhas inocentes foram arranha-
das por gatos castrados de estimação em me-
mória do atentado sofrido

   E numerosas crianças ficaram infeliz-
mente cegas pelos bicos agudos das aves que 
se atiravam dos ramos e das alturas como pe-
dras

    Privadas dos animais domésticos as pes-
soas dedicaram-se activamente ao cultivo de 
flores

    Destas não há que esperar mal se não for 
dada excessiva importância ao recente caso de 
uma rosa carnívora


14

     Nos quatro pontos cardeais os vigias de-
fendem o sono cansado da tribo ou rebanho 
de gente que vagueia pelos campos

    Um homem ao norte uma mulher ao sul 
outro homem a oriente e a ocidente a segun-
da mulher

    Estão sentados de pernas cruzadas atentos 
a todas as sombras e gritam quando há perigo

     Mas porque os perseguidores não gostam 
de atacar na escuridão a noite decorre mui-
tas vezes calma apenas fria

   Ao amanhecer a tribo acorda e divide-se 
em quatro grupos conforme os pontos car-
deais e vai agradecer aos vigias a vida conser-
vada

   Depois o homem do norte e a mulher do 
sul o homem do oriente e a mulher do oci-
dente juntam os sexos porque assim foi de-
cidido que deveria acontecer todas as manhãs

   Enquanto a união dura cantam em redor a única
canção feliz que não esqueceram

    O sol levanta-se sobre os quatro corpos nus 
que são a esperança inconsciente da tribo

    Entretanto acende-se a primeira foguei-
ra e o fumo azul da lenha sobe para o céu


PÉCORA, Alcir. "Saramago pré-Nobel, faz poesia ruim". Jornal Folha de São Paulo, 22 de setembro de 2007.

SEIXO, Maria Alzira, O Essencial sobre José Saramago. Lisboa, Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 1987, p. 22-25.



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