Diário pedagógico – página 03: O primeiro dia aula, constatações

Por Pedro Fernandes


Perguntei: What is your name? E o que dominou foi o silêncio. A aluna sentada no canto da sala, olhava para mim com o rosto nu de expressões.


O ano letivo ficou acordado na reunião pedagógica para dar início em 02 de março de 2009. 02 de março de 2009 viajei ao município. A distância de aproximadamente 45 km da capital me permite em 1h30 de viagem estar no local de trabalho. Cheguei à escola às pressas. Mochila com planos de aula, livros e anotações para o que seria meu primeiro dia de aula numa escola que, como fiquei sabendo na reunião pedagógica, os alunos em sua maioria são quase ou são analfabetos e que os índices de evasão gritam. Esqueci de dizer no texto passado, quando falei desses índices, dos números de uma turma de 6º ano, mas aproveitando que toco novamente no assunto, falo agora: nesta turma de 6º ano, disseram-me, em 2008 havia 65 alunos e o ano letivo findou na média de 8 a 10 alunos apenas.

Pois bem, cheguei com esses e outros números na cabeça. Para surpresa minha, o portão da escola estava fechado. Nem sinal de vida. Dobrei os passos e fui a Secretaria Municipal de Educação. Uma única funcionária com a maior cara de tranquilidade disse-me que as aulas só dia 12 de março. Olhei logo no calendário do celular: era uma quinta-feira. Quinta-feira eu não tenho aula nessa escola. Depois de me informar a data, prontamente a funcionária emendou: E talvez só comece mesmo no dia 17, como dia 12 é uma quinta-feira dificilmente os professores e alunos vem. O leitor pode ler por estas linhas minha cara de surpresa misturada com indignação. Sequer ligaram-me ou mandaram-me avisar da mudança de datas. Senti-me com cara de besta. Mas, tudo bem. O primeiro dia de aula, 17 de março de 2009. Teria cinco aulas nesse dia. Primeira turma, 9º ano. Na sala do 9º ano ainda figurava aquela imagem que colei como epígrafe do texto A equipe.

A impressão que ficou desse primeiro dia de aula foi a das mais variadas: estrutura, equipe, alunos. Detenho-me nos dois últimos, equipe e alunos. O primeiro porque é de certa um elo para com o texto anterior e o segundo porque são esses sujeitos os que deixam no primeiro dia de aula as impressões mais fortes. O outro elemento, estrutura, deixarei para o texto seguinte.

Da equipe. Não sei quem são as merendeiras, as zeladoras, o porteiro, o diretor, o secretário, o supervisor ou qualquer outro cargo necessário ao bom funcionamento duma escola. Sei apenas quem são os professores porque com eles mantive contato na reunião pedagógica. O que sei é que a secretaria estava e esteve, pelos poucos dias que lá passei, repleta de funcionários que entre outras funções, desempenhavam o papel de “faladores-da-vida-alheia”. São os agregados políticos que se espremem em cargos farjutos criados pela secretaria de educação que se liga diretamente com a prefeitura. São esses agregados os que se não fazem nada, simplesmente atrapalham o serviço de quem quer fazer alguma coisa. Nunca me misturei a eles, nem a eles e nem a laia de professores que se reúnem nas horas vagas, antes da aula e durante o intervalo, para falarem dos alunos. Pelas escolas que passei, nesta e noutras pelas quais ainda hei de passar elegi como meus preferidos para conversa os alunos; o papo deles são muito mais cabeça do que o dos professores. Pensei que no primeiro dia de aula a escola se reunisse com alunos e familiares para apresentarem-se uns aos outros, para discutirem os rumos do ano letivo.

Dos alunos. Pelas listagens afixadas na porta das salas de aula, dei de cara com turmas numerosas. A menor tinha 30 alunos. As demais chegavam à casa dos 60. Dos alunos, recorto duas imagens. A primeira acontecida na primeira turma que entrei, o 9º ano, quando já próximo do fim da aula, depois de uma dinâmica, um aluno me indagou se eu não escrevia nada. A segunda acontecida numa turma de 7º ano, a terceira que entrei no primeiro dia de aula, em que repeti a dinâmica da primeira turma e uma aluna não conseguiu dizer absolutamente nada por mais que eu insistisse. Das cenas que recortei desse primeiro dia de aula ficam as conclusões: os professores são adeptos ferrenhos do escreve-escreve que faz força no espaço escolar tradicional, símbolo, portanto, do professor que não domina o conteúdo, que não planeja a aula. O escreve-escreve funciona, antes de tudo, como um jogo de intimidar o aluno, além do que, o rosto paralisado dessa aluna do 7º ano é a imagem forte da ausência de diálogo franco entre professores e alunos.

Ligações a esta post:
Leia sobre o andamento desse relato dividido em 4 textos e outros sobre o tema aqui relacionado.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A religiosidade clandestina de Hermann Hesse

Água viva, de Clarice Lispector

Pablo Neruda: o que não dá mais para ocultar

Apontamentos sobre alguns textos curtos de Tolstói

Boletim Letras 360º #231

Salinger, um grupo de psicopatas e os do MKUltra

Quando Borges era Giorgie

A filha perdida, de Elena Ferrante

Gostamos de causar danos (com o grande romance estadunidense)

Jane Austen: casamento e dinheiro