A rosa do provo, de Carlos Drummond de Andrade

Por Pedro Fernandes


Este livro é lido por grande parte da crítica literária brasileira como um dos mais importantes livros da bibliografia de Carlos Drummond de Andrade. Apesar de não conhecer integralmente sua obra poética e nem (e isso nunca aconteceria ainda que vivesse um século para a leitura de poesia) a literatura do gênero dos grandes nomes mundiais, ousaria ir mais adiante e dizer que esta obra integra o rol dos mais importantes livros de poesia brasileira e, porque não me contento com bairrismos, um dos mais significativos da poesia universal.

Sobre o reconhecimento do poeta como uma das figuras mais interessantes para a poesia contemporânea no mundo, aposto que seja mesmo apenas uma questão de tempo; é preciso reconhecer que as limitações da língua portuguesa no extenso cenário internacional e, claro, a posição tacanha que o Brasil assumiu até aqui enquanto nação. Sim, pelo reconhecimento literário passam condições sequer imaginadas pela vã compreensão sobre literatura ensaiada nos compêndios de teoria.

Quando A rosa do povo vem a lume é em dezembro de 1945. Carlos Drummond tinha, então publicado títulos bem sucedidos como Alguma poesia (1930), Brejo das almas (1934) e Sentimento do mundo (1940). Portanto, foi uma obra escrita em momentos de noite, dentro e fora do país; basta citar que passávamos pelos anos de ouro da ditadura Vargas e que, mundialmente estávamos submersos num dos maiores conflito da história, a Segunda Guerra Mundial. Em tempos de crise, alguém pode ter levantado a questão, há poesia? Há. E a obra composta de cinquenta e cinco poemas elege, entre, os temas prefiguradores da poesia, a noite, assumida a função de fio que costura boa parte deles

“É noite. Sinto que é noite// Sinto que somos noite” ("Passagem da noite");
“Que fazer, exausto,/ em país bloqueado,/ enlace de noite/ raiz de mistério?” ("Áporo")

e define como vulto principal de uma obra cujo centro de atenção é a própria poesia. Ou, para responder melhor à pergunta, em tempos de crise há poesia (?), a poesia é uma possibilidade de escape do tempo de treva e de escuridão. E ela, diz o poeta, não está perdida em qualquer parte, está no dia-a-dia do povo. A rosa do povo.

Se o leitor sente ao longo desse livro a oclusão, o peso da época em que foi escrito e o sentimento de um Drummond que se desanima frente às cortinas de ferro e os muros que por toda a parte se levantavam e se fechavam

“O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.” ("A flor e a náusea")

é preciso dizer que há no poeta, esse fazer de inutensílios (para lembrar a voz de Manoel de Barros), um vulto de esperança. O tempo d'A rosa do povo é esse tempo que se dilata e escorre lentamente, “paradamente”, quase-surdo, silencioso (mas não silenciado), um pequeno halo de luz e de esperança que faz ver além do ódio e do horror

“Uma flor nasceu na rua! Furou o asfalto, o tédio, o nojo, o ódio.” ("A flor e a náusea");
“Eis que o labirinto/ (oh razão, mistério)/ uma orquídea forma-se.” ("Áporo").

Sim, o poeta é esse áporo, esse caruncho que silenciosamente maquina e busca corroer o sentimento de desesperança, a intempérie alimentada pela ganância do homem.

É verdade que Carlos Drummond de Andrade nunca terá estado mais político que nessa obra. Mas, há, além dessa verve que aquele momento histórico pedia, mesmo das figuras mais taciturnas, mas quietas ante os disparates do poder, uma posição; demonstrada sua postura, a de homem não-alheio ao mundo, é necessário renovar que o poeta é uma construção muito bem combinada de toda sorte de afetos. E se o componente político se respira em toda parte demarcando uma posição cívica do poeta, também não faltará o sentimento mais interior ("Retrato de família" e "Mário de Andrade desce aos infernos") bem como, a marca eminentemente moderna, o diálogo com a própria poesia ("Considerações do poema" e "Procura da poesia").

Por pelo menos essas três vigas na qual se ergue o conjunto poético de A rosa do povo, é nessa obra que o leitor mais simples encontra os poemas mais conhecidos de Drummond, como, além dos citados nestas notas, "O caso do vestido", "Morte do leiteiro" e "Anúncio da rosa".

Há livros que temos na estante; outros que necessitam está mais próximos de nós e o fazemos livros de cabeceira. Sei que minha lista nessa segunda rede de afetos é um tanto extensa, mas não há outro lugar para guardar essa antologia se não como um dos livros da literatura brasileira de um todo indispensáveis.


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