Acossado, de Jean-Luc Godard



Com improvisação e referências que misturam o pop e o erudito, cineasta injetou oxigênio no modo de filmar

Na metade da década de 1950, um grupo de atrevidos cinéfilos franceses, apaixonados por Hollywood e cheios de idéias na cabeça desenvolveu a chamada Teoria do Autor. Nas páginas da revista Cahiers du Cinèma, os então críticos Jean-Luc Godard, François Truffaut, Jacques Rivette, Claude Chabrol e Eric Rohmer endeusavam diretores hollywoodianos e europeus, nas obras dos quais identificavam uma assinatura e formatos narrativos que traziam modernidade à linguagem do cinema. Um dos modelos era o neo-realismo de Roberto Rosselini, que filmava nas ruas, com fracos recursos de produção e sem seguir um roteiro à risca. Por meio desse exercício de admiração e de capacidade analítica, nasceu um dos movimentos mais cultuados e influentes da Europa, a Nouvelle Vague (Nova Onda), um exemplo de renovação na linguagem cinematográfica.

Desse conjunto de grandes nomes, o de Godard tornou-se o mais emblemático. Acossado é o seu primeiro longa-metragem, após uma série de curtas. Ao lado de Hiroshima, meu amor (1959), de Alain Resnais, e de Os incompreendidos (1959), de François Truffaut, é considerado o marco inicial da Nouvelle Vague. Trata-se de um filme acessível, ainda sem o conteúdo politicamente engajado e os quebra-cabeças narrativos que fariam o diretor se tornar, para muitas pessoas, sinônimo de chatice e pedantismo. A história parte de um argumento do amigo Truffaut: Michel (Jean-Paul Belmondo), um ladrão que rouba um carro para ir até Paris e, no caminho, mata um policial. Na capital francesa, conhece uma estudante americana, Patricia (Jean Seberg), por quem se apaixona e que o ajuda a se esconder da polícia.

O enredo é simples, justamente para que o cineasta possa promover a ruptura com os métodos tradicionais de direção, montagem e narração. O roteiro era elaborado nos dias de filmagem, e muitos dos diálogos eram improvisados pelos atores em situações repletas de referências à cultura pop e ao universo erudito. A edição fragmentada alterna cortes velozes com sequências longas, como na conversa entre o casal no apartamento. E Godard dirige de forma anárquica, abusando da profundidade de campo, perseguindo os atores com a câmera na mão e utilizando-se quase sempre de luz natural e locações reais. Com essa renovação, Acossado conserva o status de obra-prima que não perde o frescor.

* Revista Bravo!, 2007, p.42.


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