Voltar a Caim



Por Pedro Fernandes


Na vitrine de uma livraria portuguesa, o novo romance de José Saramago. Foto: DN Artes.


No Orkut há uma comunidade, das muitas dedicadas ao escritor português José Saramago, e da qual faço parte. Dificilmente apareço por lá em corpo de resposta ou de pergunta. Sempre passo de soslaio, leio superficialmente. Numa dessas minhas passagens, estava posto um questionamento acerca do recém lançado romance Caim. A pergunta era a clássica "o que você achou do livro". Das onze pessoas que já haviam respondido, havia alguns comentários consideráveis, bem pensados, outros somente a cumprir tabela. Fui tentado a ser o décimo segundo a entrar no diálogo, mais pelo fato de que um daqueles onze que haviam dado sua opinião - a grande maioria dizia ser este um livro ruim - ou, simplesmente consideravam o livro um lixo.

Bem o que dizer de Caim? Qualquer leitor saramaguiano que se preze verá que este não é um grande livro (se tomarmos textos como o próprio Evangelho, seu correspondente, O ano da morte de Ricardo Reis, Ensaio sobre a cegueira, enfim); e talvez não fosse mesmo para ser. Trata-se de um livro escrito em quatro meses. Entretanto, classificá-lo como lixo me parece um radicalismo. Trata-se de uma obra de arte, que consegue mexer conosco, principalmente pela leva de questionamentos que ela nos suscita, seja aquele já posto em evidência no Evangelho como a relação entre bem e mal, seja aquele da imagem de deus que vimos construindo desde que o criamos. Acho que Saramago ainda consegue se reinventar enquanto romancista. O que dizer, por exemplo, da construção do tempo ficcional nessa obra? Algo a ser averiguado com mais parcimônia.

Dentre a clássica questão outras três perguntavam: "Caim representa Saramago e todos aqueles que questionam a religião?"; "Somos levados a perdoar Caim? A por ele sentir compaixão?" e por fim "Qual o ponto alto do livro pra vocês?"

Não creio que Caim represente piamente Saramago. Como um leitor que tem buscado conhecer sua obra e como sujeito que engatinha pelos meandros da Literatura sou levado a crer que reduzir-se a esse entendimento é algo vago e pecado grave. Nenhuma obra é totalmente cópia do que seu autor pensa ou do que seu autor é. Há que se ver o nível em que estamos - o da ficção. Por mais que esteja lá a visão de Saramago - e está - reduzir a isso é castrar o que de arte opera no texto literário. Poderíamos chamar de uma fusão entre a figura criadora e a sua criatura.

Acerca do segundo questionamento, sou obrigado a crer que não dá para se ter compaixão de Caim. Em nenhum momento fica posto esse sentimento no romance. Entendo até que Caim venha recuperar os traços perdidos da figura mítica no imaginário humano; a vê-lo e ver o crime que cometeu por um outro viés. Mas Caim, por mais que titubeie, está sempre a assumir sua culpa e por esse fato não a leva como fardo às suas costas; diferentemente de Deus, que vem fazer um acordo com o assassino a fim de dividir a culpa pelo desprezo dado à sua criatura.

O romance é leve. É para ser lido numa tarde. Não é daqueles romances engenhosos do José Saramago, mas de leitura fundamental. O momento alto, me parece ser o seu desfecho. Onde se dá toda a concentração da ironia que vinha tomando forma ao longo da diegese. Trata-se do momento que põe aquela linha mestra que perpassa essa narrativa - a da briga entre a criatura e seu criador. Deus nas mãos de Caim é uma cena de grande importância para compreensão de toda a trama do romance e muitas das questões provocadas por ele.

Ligações a esta post:
Leia notas escritas por Pedro Fernandes sobre o romance Caim e publicadas em alguns jornais do Rio Grande do Norte. Aqui.


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