O estágio que ainda estamos

Por Pedro Fernandes

Em toda Força Militar (ou qualquer outro grupo social) há gays. Cena do filme Yossi & Jagger: delicada relação. As duas personagens que dão título ao filme são jovens soldados que atuam na fronteira entre Israel e o Líbano e  vivem uma história de amor proibida. Se casos como esses são comuns e naturais, há quem peça punição aos envolvidos.

Essa semana de zapping pela internet dou de cara com uma constatação daquelas que vem sujar a cara pobre do Brasil. O portal de notícias Nominuto motivado pela declaração descabida do general Raymundo Nonato de Cerqueira Filho fez aos internautas o seguinte questionamento: Você concorda com a presença de gays nas Forças Armadas? 

O Raymundão, indicado para uma vaga no Superior Tribunal Militar durante sabatina, na Comissão de Constituição e Justiça afirmara que a homossexualidade era um "desvio de comportamento" e que os gays deveriam "procurar outro ramo de atividade". Os internautas foram da mesma opinião - 54% somados aos 11,5% que disseram "tanto faz". O segundo grupo integra aquela equipe que diz não ser contra a homossexualidade, mas que ele, o homossexual, fique lá e eu cá - ou seja, é aquele grupo que é tão preconceituoso quanto o primeiro, o do esmagador não. 

E se uma coisa puxa outra, dia desses um dos integrantes do farjuto reality show Big Brother assinalou com todas as letras que eram os gays os principais transmissores do vírus HIV. E enquanto países já celebram a união de pessoas do mesmo sexo (o que também não quer dizer rebaixamento ao preconceito, mas já alguma coisa além na luta contra) por aqui ainda se discute se a discriminação aos gays é ou não crime.

Bem, tão escabrosas opiniões, que não mede tamanho da boca de quem sai - seja de uma autoridade, como o sargento, ou de uma ralé, como o do Big do Brother - e tamanha morosidade em discutir as obviedades só vem confirmar que ainda somos uma caravela daquelas do século XVIII lotada de analfabetos.


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Boletim Letras 360º #239