Thomas Mann



Thomas Mann é de Lübeck, Alemanha. Um dos maiores da literatura em seu país e, por que não (?), da literatura universal; ganhou o Nobel de Literatura em 1929. É o autor de clássicos como A montanha mágica, Doutor Fausto, Morte em Veneza, três títulos que colocamos como indispensáveis na bibliografia de qualquer leitor.

Tem o autor uma ligação importante com o Brasil. Sobre o país deixou vários escritos. A relação se dá pela mãe: Júlia da Silva Bruhns era brasileira e casou-se com o comerciante Johann Heinrich Mann. E certamente Mann leu Da infância de Dodô, um livro de memórias da mãe, escrito já quando adulta, em que ela narra o tempo de quando viveu por aqui. Segundo a crítica, Mann teria se inspirado nela para a composição da personagem Gerda Arnoldsen em Os Buddenbrocks; para a senadora Rodde de Doutor Fausto e Consuelo de Morte em Veneza.

A carreira como romancista tem início desde 1893, quando começa a publicar seus textos em prosa e artigos para a revista Der Frühlingssturm.  É por essa época que se descobre homossexual: se apaixona pelo filho de um de seus professores, Wilri Timppe. Numa sociedade em que a homossexualidade era vista como um desvio sexual, crime e motivo para tratamento psiquiátrico o desejo teria sublimado-se. Casou-se e constitui família, mas Timppe ficaria na sua memória de forma marcante a ponto de servir à criação de Pribslav Hippe, personagem de A montanha mágica.

Segundo críticos e leitores de Mann, seus diários, que estiveram sob sigilo até 1975, revelam um sujeito em constante luta interior com esses seus desejos homossexuais. Para eles, a homossexualidade reprimida do romancista serve de pulso à sua escrita. Colocação que deve ser repensada, visto que o fato de ser a homossexualidade tabu à época, ela na obra de Mann é materialização não apenas da sua repressão sofrida, mas também crítica a todo um contexto ou modelo social e histórico. Não apenas A montanha mágica vem tratar de casos homossexuais, marcas estão em vários outros textos, conforme assinalam seus leitores de O Pequeno Sr. Friedmann, Os Buddenbrooks, Tonio Krôger, Morte em VenezaDoutor Fausto.

Depois de perder a nacionalidade alemã, Mann vive na Suíça e depois Estados Unidos. Fez carreira como professor visitante em Princeton, mas o ambiente acadêmico o entediava. Diante da perseguição aos intelectuais emigrados impetrada em meio ao MacCarthismo, Mann retornou à Europa em 1952. Viveu em Kilchberg, próximo a Zurique, na Suíça, até à sua morte, em 1955.

Vê-se que, mesmo nascido no seio de uma família com muitos recursos (os pais eram grandes comerciantes de Lübeck, Mann jamais quis dedicar-se à profissão dos pais, mas a do irmão mais velho, Heirich, já um escritor de nome, mas, com estilo muito diferente dele, inclusive quanto às ideias.

Ainda em vida, Thomas Mann recebeu todas as homenagens e honras possíveis: o Prêmio Nobel de Literatura em 1929; o Prêmio Goethe nas duas Alemanhas de 1949; a Ordem do Mérito em 1955 e alguns outros. E foi considerado o "grande gênio oficial" em quaisquer que fossem as circunstâncias do território de língua alemã: durante o Império, na República de Weimar, no exílio (onde, através de seus discursos na BBC se converte num pilar da moral, da cultura e da civilização frente à barbárie nazista), na Alemanha capitalista e na Alemanha socialista.

Como bom herdeiro do Romantismo alemão, também é muito consciente de que esta condição de gênio é incompatível com a vida real; para não sucumbir sua fatídica tendência à contemplação e ao desejo de isolamento completo do muno ou talvez da existência em termos absolutos (suas duas irmãs e dois de seus filhos, Klauss e Michael, se suicidaram), Mann se entregou à escrita como forma de vida, como dever e como disciplina que haveria de salvar-lhe da morte ou da vida. E o fiel reflexo desta autodisciplina é seu estilo, sempre cuidadosíssimo, hipercorreto e sensivelmente imemorável.

Nas obras de Mann não sobre nem falta uma só palavra e nenhum elemento aparece por casualidade, pois tudo é um complexo emaranhado de motivos inter-relacionados, carregados de conotações e sugestões. Apesar de suas famosas frases de quinze linhas antes de chegar a um ponto, sua linguagem é muito clara e absolutamente direta. Tanto que descreve coisas - sentimentos, sensações, atmosferas, objetos, movimentos - que nunca haviam sido articuladas antes com palavras e sobre as quais, com sua visão hiperrealista do que lhe rodeia, chama nossa atenção. Recorda os grandes virtuosos de um instrumento que executam as criações mais complexas como se sua técnica prodigiosa fosse a mais natural do mundo.

Ao mesmo tempo, seus textos estão impregnados de uma ironia muito fina e salpicados de marcas próprias que nos despertam da ilusão literária para recordarmos algo fundamental: o mesmo é sempre o centro de todas as suas obras; o grande mestre de cerimônias que move os fios; "o mago" (der Zauberer), como lhe chamavam seus filhos mais velhos; o "elegido", o grande gênio cuja sensibilidade à flor da pele apenas desejava respirar.

* Parte deste texto é composta de uma versão livre para "El último gran clásico", de Isabel García Adánez.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A religiosidade clandestina de Hermann Hesse

Água viva, de Clarice Lispector

Pablo Neruda: o que não dá mais para ocultar

Apontamentos sobre alguns textos curtos de Tolstói

Boletim Letras 360º #231

O Bovarismo como pedra de toque na obra de Lima Barreto

Salinger, um grupo de psicopatas e os do MKUltra

A filha perdida, de Elena Ferrante

Fama e preconceito

Quando Borges era Giorgie