Marize Castro recita poemas de Lábios-espelhos

Por Pedro Fernandes



A primeira vez que li a poeta foi o seu livro Marrons crepons marfins. Esse é o seu primeiro título, aliás; publicado em 1984. A obra veio-me na época em que me encontrava no cimo de muitas decisões acadêmicas. Sabia que devia enveredar pelos estudos da Literatura, mas ainda não sabia bem o quê ou qual autor ou ainda qual Literatura deveria eleger como objeto de estudo. Foi por isso e foi também pela curiosidade de conhecer novos autores, aqueles que não estão inscritos no currículo do curso de Letras e que são muitas vezes os nomes que decidimos (quando vamos para os estudos literários) estudar.

Por essa época conheci muito dos escritores da Literatura Potiguar e o caso completou-se mais tarde quando cursei Literatura Potiguar. Mas, Marize de Castro, veja não estava no rol dos poetas estudados. Deve ter sido citada, mas estudada mesmo, não foi.

Esse silêncio e o meu encontro com o seu recente livro Lábios-espelhos fizeram-me inteirar melhor sobre sua poesia, uma das que, na minha humilde opinião, está em contato com a verve poética produzida contemporaneamente, o que faz dela alguém para além das simples fronteiras do localismo chamado literatura potiguar.

Desse encontro com a obra da poeta, findei por inseri-la no meu plano de estágio docência do mestrado que desenvolverei na disciplina Literatura Potiguar. Outro dia recebi e-mail da poeta em que me divulgava um espaço na internet que reproduz em áudio alguns dos seus poemas do seu recente livro, material que aproveito para disponibilizar nesse espaço.

Além de publicar Marrons crepons marfins e Lábios-espelhos (em 2009), Marize publicou Rito, em 1993, Poço. Festim. Mosaico em 1996 e Esperado ouro, em 2005. Foi editora entre 1988 e 1990 do jornal cultural da Fundação José Augusto, O Galo, trabalho que lhe rendeu o Prêmio de Incentivo à Cultura, da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro; editou entre 1994 e 200 a revista Odisseia, um periódico acadêmico do Centro de Ciências Humanas Letras e Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte; em 1991 desenvolveu o projeto "Além do nome" que realizava entrevistas com escritores potiguares para o Caderno Viver do jornal Tribuna do norte.

Marize recita alguns poemas de Lábios-espelhos, aqui. Abaixo copio alguns dos poemas que ela lê

Estrangeira

Abriga-me em suas coxas
pois perdi a rota.
Por erro, talvez.
Raro destino, quem sabe.

Fui além de mim.

Afastei-me de casa.
Confundi-me com outras.
Surpreendi-me.

Os fios que teci na sua escuridão
tornaram-me seta e luz.

Mais estrangeira do que sempre fui.


Olor

O tempo de despedida chegou.
Mas Deus me quer forte.
Estranha flor.

Mil casas dentro desta casa.
Cada uma com sua anátema.
Oráculo.
Olor.


Lábios-espelhos

Espere-me lá fora.
Ainda não estou pronta.

Esqueci meu colar de estrelas
        meu kimono
        meu zori
        meus adereços de gueixa.

Minha língua te recompensará.
Ela (esfomeada) saciará tua fome.
Ela (sedenta) te levará ao leito
              mais próximo.
Ela (saliva e cristal) revelará o enforcado
       - seu destino, seu nome.

Espere-me lá fora.
Aqui há um naufrágio púrpura,
um rio de mel que corre entre lábios-espelhos.
Dele, sou filha.


Largue. Desvie. Prossiga.

Disseram-me: ela virá.
Deixe as estações passarem.

Deixe macho e fêmea
deitarem sobre seu corpo.
Depois, abandone-os.
Deixe tudo.
Todos.
Suas minúsculas rosas
        brancas e vermelhas.
O sabor das pitingas às cinco da manhã.

Não se apresse.
Deixe seus seres de pelo
- o universo os guardará para você.

Deixe, deixe, deixe.
Não conserve mais.
Largue. Desvie. Prossiga.

Tudo retornará.

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