Quincas Berro d'Água, de Sérgio Machado

Por Pedro Fernandes



É sempre necessário louvar iniciativas como as da Companhia das Letras, agora responsável pela obra de Jorge Amado, de trazer ao público a completa reedição de uma obra que não pode nunca se deixar perder nos labirintos do esquecimento. Jorge Amado é um dos nossos pilares mais importantes, tanto que as obras que escreveu tiveram, em grande parte, uma ou mais adaptações para diversos gêneros televisivos e sempre com o mesmo efeito de audiência e público. É por causa desse trabalho editorial que reapareceu em 2008 uma irreverente obra do escritor, A morte e a morte de Quincas Berro D'água. Possivelmente tenha sido essa reedição o que terá levado Sérgio Machado a trazer o texto de 1961 para a grande tela.

Mas, antes de escrever duas notas sobre adaptação é preciso logo colocar em questão sobre o porquê de sublinhar o título original da obra. Não é apenas para lembrar ao leitor / espectador que está diante de um texto que antes do cinema é uma obra ou que é uma obra adaptada de um texto de Jorge Amado. É sim o interesse de apontar o defeito mais chamativo desta releitura de Sérgio Machado: o nome dado à peça que aparece muito bom composta não fosse esse deslize.

Explico: focalizar apenas no nome da personagem principal dessa narrativa desfigura por completo o jogo semântico construído propositalmente por Jorge Amado. Ao reforçar o sintagma "a morte" por sua reafirmação, o escritor transmite logo sobre qual tipo de morte o texto faz referência; isto é, não é essa uma narrativa centrada na figura da personagem, mas nas ações sobre a morte depois da morte de Quincas.

Quincas Berro d'Água (Paulo José), rei da esbórnia e dos malandros da Bahia, é Joaquim Soares da Cunha, ex-funcionário público bem sucedido; o motivo de largar a carreira tem a ver com uma necessidade maior e, sobretudo, humana, a de desvencilhamento de toda ordem de burocracias que cerceia-nos da liberdade. Isto é, estamos ante um legítimo herdeiro do chamado espírito brasileiro, sempre mais afeito para a ociosidade da vida, por um motivo muito óbvio: nenhuma condição é mais prazerosa do que viver sem obrigações demasiadamente caras por cumprir.

O que faz ser esta uma das personagens mais simpáticas da literatura brasileira, reside no fato de, mesmo incorporado do poder de ser um defunto-narrador, como o Brás Cubas de Machado de Assis, é escrachado e amante do deboche. Uma típica persona carnavalesca; que prefere seu lugar entre os da raia miúda. Sem falar que não se sabe sequer se ele realmente veio a morrer e se acaso tiver vindo-lhe a morte, de que realmente teria morrido: se de morte natural, no leito pobre de um cortiço da ladeira do Tabuão, ou embarcado para o outro mundo algumas horas depois, no mar da Bahia, onde sempre desejara ser sepultado, ou ainda se antes, quando caiu na vida dissoluta da capital baiana.

O filme recupera em traços vivíssimos a reca de tipos que povoam o romance jorgiano; refiro-me aos companheiros de farra de Quincas: Curió, negro Pastinha, cabo Martim e Pé-de-Vento. Típico de Jorge, esse embate entre uma reles e uma burguesia, também é este embate bem traduzido para a tela. E traduz, sobretudo, aquilo que todos nós somos, para uma expressão bem nordestina, "farinha do mesmo saco".

Aquele tapa na cara de pó de arroz da burguesia brasileira estão aí muito bem formatado em toda a trama pelo ato do Quincas, mas claramente quando do desfecho da narrativa, em que se pode ler uma interpenetração das classes e das culturas: a conversão de Vanda (Mariana Ximenes), filha de Quincas, ao candomblé, deixando de lado todos os fricotes e preconceitos herdados da mãe, e, ainda, seu  envolvimento com um negro; o envolvimento de Leonardo (Vladimir Brichta), marido de Vanda e burocrático funcionário público como era o sogro, com um travesti; o envolvimento do delegado com o pai de Vanda numa relação de juventude; enfim, tudo vai sendo desvelado e mostrando-se as camadas de hipocrisia que cobrem a falida moral brasileira. Por tudo isso, vale a pena desnudar-se também dessa moral e ver que temos uma obra de bom gosto agora em movimento.



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