Voltar a Caim (II)

Por Pedro Fernandes

José Saramago em sessão da apresentação da edição de Caim em língua espanhola.

Há no rol das opiniões dos leitores de Caim, último romance do escritor português José Saramago, uma lista não tão curta de comentários depreciativos - seja sobre o plano temático, seja  sobre o plano estético do romance. Volto a essa querela por entender que muita das opiniões são vazias e algumas de tão vazias chegam a ser uma ofensa para com o escritor e o romance em questão.

Todo romance, esse é meu entendimento, é aquilo que ele é. Seu escritor é meramente um sujeito que, inquieto perante os relativismos do mundo, escreve. E na sua escrita vai junto modos seu de pensar e de ver o mundo. O grande propósito de Saramago, já dito por ele próprio em muitas entrevistas, está em desassossegar quem o lê. Entendo esse desassossegar como sendo o interesse do escritor e da sua literatura em chamar atenção para o valor de determinados discursos e ver que nem tudo aquilo que diz "é" é, mas que aquilo que "é", "poderia ser". Reside aí uma das grandes características da literatura. 

Do plano temático, o Caim de Saramago é uma proposta de releitura das diversas incongruências do Antigo Testamento. Ao entender as falhas de um livro que se diz divino imprime-se aí uma visão sobre um discurso que não é ou tem nada de divino (já que Deus não erra nunca) e que esse discurso da Bíblia também não é uma verdade absoluta, mas sim relativa, escrita por mão humana e impregnada do material histórico de seu tempo.

Isso não quer dizer que seja Caim uma leitura literal do texto bíblico, como muitos julgam, mas uma leitura como qualquer outra, inclusive, a tal leitura simbólica, que os teólogos dizem fazer das Escrituras. O que está em jogo aqui nesse rol de críticas a uma falsa leitura do texto bíblico por Saramago é o medo de desmantelamento do discurso cristão construído todo ele sob uma base cujo o questionamento não deve nunca fazer parte. 

Aos que leem o plano temático de Caim como um mero grito pessoal do escritor português há que ler o Antigo Testamento. Esse é um romance, sobretudo, construído de uma narrativa simbiótica, isto é, se alimenta dos textos dessa parte da Bíblia e portanto tais textos hão de ser lido para um entendimento mais adequado do texto saramaguiano. Do plano estético Caim integra o rol daqueles romances cuja a construção em muito se assemelha às narrativas virtuais, pelos jogos de encaixe e desencaixe do tempo-espaço  e das ações.

No mais, fica o convite a reler Caim. Valerá sempre a pena. E não custa nem tempo. A Companhia das Letras inclusive vende uma versão em e-book que está mais abaixo do preço real da versão impressa.


Ligações a esta post:
>>> Para ler notas de Pedro Fernandes sobre livro Caim, clica aqui (as publicadas em alguns dos jornais no Rio Grande do Norte)
>>> Já, para ler a primeira nota "Voltar a Caim", clica aqui.


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