Invasores, de Oliver Hirschbiegel

Por Pedro Fernandes




Ao pesquisar sobre a recepção da crítica acerca de Invasores descobri que o livro The body snatchers, de Jack Finney, publicado em 1954 e que ganhou essa leitura para o cinema em 2007, já contava com outra produção cinematográfica e, a julgar pelo que li, a versão antiga (o filme é de 1956, e saiu com o título de Vampiros de almas) é um bocado melhor do que essa de Oliver Hirschbiegel. Certamente, no passado, parece que as limitações tecnológicas para a construção de efeitos especiais, por exemplo, levavam os cineastas a capricharem no conteúdo, perda que é cada vez mais recorrente se olharmos de perto o que está em cartaz sempre nos cinemas. Mais ainda depois da consolidação do cinema 3D e das franquias para pasteurização das histórias em quadrinhos.

Na década de 1950, Don Siegel, se beneficiou do contexto evocado pela obra: a paranoia do macartismo e sua caça às bruxas e trouxe o tema para o interior da linha principal da narrativa: a invasão da Terra por uma forma alienígena que, diferente de ser monstros de grande envergadura ou de espécie estranha, são como se vírus capazes de infectar as pessoas e transformarem-nas em formas diversas da espécie humana, sem claro atingir a aparência física dos infectados.

Nos anos 1970, o cinema voltou ao livro de Siegel; Philip Kaufman trouxe para as telas Os invasores de corpo. Era o período de pós-Guerra do Vietña e pós-Watergate e é o texto passa por sua primeira releitura com operação mais sofisticada, uma vez que qualquer reescrita de contexto implica um redimensionamento da própria narrativa para atender a outra demanda histórica; as mudanças feitas por esta segunda adaptação ainda se beneficiaram de outro fator: inscrita numa era que direciona uma consolidação da mulher frente as principais formas sociais, a personagem principal ganhou o que faltava na original, uma ligação com o mundo do mercado.

Por essas observações, o leitor já concordará que a abertura da obra proposta por Kaufman terá servido, então, para dar largada na criação de uma franquia, ou como diz, um blockbuster, produção que será sempre recriada enquanto tenha espectadores que paguem pelos gastos com a produção. Tanto é verdade que em 1993, Abel Ferrara resolveu fazer também sua leitura, Os invasores de corpos: a invasão continua. Aqui, foi a transmissão alienígena ganhou contornos do que foi o auge das infecções da AIDS.

Já, agora, na versão de 2007, Hirschbiegel se aproxima de temas como a acelerada destruição dos recursos naturais e o contexto conturbado porque passa o mundo, nessa expectativa de convivência tão perigosa quanto os núcleos de tensão da chamada guerra fria com a empreitada de guerra de guerra ao terror. A personagem vivida por Nicole Kidman é uma psiquiatra que de repente percebe estranhas mudanças no comportamento dos habitantes da cidade onde vive; todo seu esforço como mãe será o de tentar proteger o filho depois de descobrir que ele está à mercê dessas criaturas já infectadas.

O achado dessa readaptação é que Hirschbiegel, filiado a outra escola de cinema quis não fazer com que a narrativa se perdesse em efeitos especiais; quis recuperar a nuance histórica da trama original, o que, dizem as más línguas não terá agradado a Warner que trouxe outros diretores para refazer algumas cenas.

O filme-frankenstein terá alcançado certo brilho e parece que aquilo que o desfaz da possibilidade completa de aquisição do adjetivo tenha se dado (ninguém sabe) justamente pela mexida introduzida por mãos alheias na obra já pronta. Ainda assim é um filme que dá gosto vê-lo. 

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