Drummond, a tradição e o talento individual: propósitos para Considerações do poema

Por Pedro Fernandes




Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseja por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação.

Estas foram as palavras de quem por longa data, a vida inteira, para ser mais preciso, dedicou-se ao fazer poético, atividade que certamente, e os livros e a crítica estão aí para provar isso, ultrapassou o sentido da outra função que veio a exercer a vida inteira também, a de funcionário público. Estas palavras foram as de Drummond, poeta de alma e ofício. O que pretendo com estas suas palavras é o entendimento, ainda que breve, do poeta em diálogo para com a tradição e a constituição de seu talento no corpo desta tradição, entendendo que o poeta não figura em momento algum como instância deslocada do meio e das outras vozes poéticas em que se insere – fazendo jus ao poema de João Cabral de Melo Neto, de que um Um galo sozinho não tece a manhã, ele precisará sempre de outros galos.

“Estes poetas são meus. De todo o orgulho,/de toda precisão se incorporaram/ao fatal meu lado esquerdo. Furto Vinícius/sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo./Que Neruda me dê sua gravata/chamejante. Me perco em Appollinaire. Adeus, Maiakovski./São todos meus irmãos, não são jornais/nem deslizar de lancha entre camélias:/é toda a minha vida que joguei”.

É necessário, para o propósito que fundei rever o termo tradição na língua portuguesa. A expressão é conhecida. Quando se fala de tradição, o senso comum recobra aquilo que está na história e é preservado de geração a geração. Entretanto, para T. S. Eliot, escritor e crítico literário, em seu ensaio A tradição e o talento individual, de quem compartilho e de onde retiro a ideia para estas notas, a tradição é de significado muito mais amplo. E não estaria ligado apenas a uma herança, mas a uma obtenção, com árduo labor. Apenas essa visão de Eliot aproxima-se da fala de Drummond que abre este texto. E se passarmos à leitura de sua poesia chegaremos ao entendimento de como se dá essa passagem do poeta do universo comum ao da tradição. Releiamos os versos que abrem este parágrafo.

“Estes poetas são meus. De todo o orgulho,/de toda precisão se incorporaram/ao fatal meu lado esquerdo. Furto Vinícius/sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo./Que Neruda me dê sua gravata/chamejante. Me perco em Appollinaire. Adeus, Maiakóvski./São todos meus irmãos, não são jornais/nem deslizar de lancha entre camélias:/é toda a minha vida que joguei”.

Os versos são de Considerações do poema, poema que abre A rosa do povo, livro escrito no que podemos chamar de a fase da maturidade poética de Drummond. Para bom entendedor, verá que o poeta através desses versos reconhece-se que, sozinho, o seu completo significado é falho, que na sua avaliação o seu significado é a avaliação da sua relação com os poetas e os artistas outros anteriores a ele e que, portanto, já compõem o mote de uma tradição. Isso não será comum apenas em Drummond; isso é característica de toda poesia contemporânea.

Ao dizer que bebe de Murilo, ao pedir Neruda, ao perder-se de Appollinaire, ao dizer que furta Vinícius e ao dar adeus a Maiakóvski, o que o poeta faz é aproximar-se da tradição para nela inserir-se. Essa inserção, no entanto, não será dada apenas por essa voz lírica que em retomando nomes procura a eles se igualar, mas é mostrando-se em relação, por vezes conflituosa, por vezes de clara admiração, com pelos nomes da tradição que ele enquanto poeta carrega grandes dificuldades – “é toda a minha vida que joguei” - e logo por isso merece o lugar ao lado dos outros - “Uma pedra no meio do caminho/ou apenas um rastro, não importa./Estes poetas são meus. De todo orgulho,/de toda a precisão se incorporaram/ao fatal meu lado esquerdo.”

A obra de Drummond é nova na corrente da tradição; seu ajustamento nela é consequência do lapidar poético. Enquanto poeta, Drummond tem consciência da corrente dominante, tem consciência de que os materiais de se compõem sua poesia não são os mesmos e são ao mesmo tempo os de uma tradição - “Não rimarei a palavra sono/com a incorrespondente palavra outono./Rimarei com a palavra carne/ou qualquer outra que todas que me convêm”. Reparemos o jogo com que o poeta lida ao construir o corpo do poema. É um jogo de aproximação e des-aproximação para com a tradição. Esse aproxima-repele é o que traz a inovação ao fazer poético e dá ao poeta o passe para o corolário de poetas já consagrados; corroborando Eliot “O progresso do artista reside num contínuo auto-sacrifício, numa extinção contínua da personalidade”: “Poeta do finito e da matéria,/cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,/boca tão seca, mas ardor tão casto./Dá tudo pela presença dos longínquos,/sentir que há ecos, poucos, mas cristal.”

Comentários

Cléber disse…
Meu querido amigo, que maravilhoso, ler suas palavras, ainda mais quando se trata do poeta contista e cronista Carlos Drummond de Andrade. Obrigado!

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