Mário de Sá-Carneiro


Um dos nomes do modernismo português. Ofuscado como ficou todos os poetas da época dado a genialidade de Fernando Pessoa. Entretanto, um poeta singular. Que viveu intensamente todos os arroubos que a vida pode lhe proporcionar. Não em sua plenitude, é verdade. Muito do que gostaria de ter vivido ficou sublimizado. Tornou-se matéria de sua obra. Ou terá vivido na surdina. Sim, a vida de cada um pertence ao alcova da existência. E Sá-Carneiro, antes disso, é um enigma. Genialmente fez-se esfinge. Ou nunca saiu do labirinto que construiu para si e foi por ele tragado. E nunca terá existido para agradar a opinião pública retirando-se dela, mesmo quando essa opinião lhe foi acusativa. Talvez tenha sempre buscado o holofote, mas nunca alcançaria lidar com ele. Sujeito inconstância.

De obra breve, para ir à maré contrária da maioria dos escritores portugueses, sempre com vasta produção. A razão para isso deve-se a outro fator. Também teve vida breve. Uma coisa se liga a outra. Obra breve-vida breve. Mário de Sá-Carneiro é de Lisboa. Nasceu 1890. Morreu em Paris em 1916. Nesse intervalo deixou cinco obras publicadas e uma por publicar: Amizade - peça de três atos (1912); Princípio - conjunto de novelas, no mesmo ano; Dispersão, livreto com 12 poemas (1914); A confissão de Lúcio - ensaio narrativo publicado paralelo ao livro anterior; Céu de fogo - mais um conjunto de novelas (1915); e o a publicar Indícios de oiro, livro de poemas cujas peças expôs numa das edições da Revista Orpheu, periódico que serviu de ponto de partida para toda uma época da literatura portuguesa e do qual foi a figura principal.

Obra breve e intensa. Uma transfiguração autor-obra, certamente. O poeta não nega o fogo da necessidade que guia o punho de todo grande escritor. Faz parte de seu exercício de escrita a sua intensa colaboração a jornais e revistas. Se tivesse sido só um dos mentores de Orpheu, o turbilhão que revirou a forma de se fazer literatura em Portugal, já teria contribuído muito para com a arte. Mas, alcançou ir mais longe e a obra atesta isso, seja pela variedade, seja pela intensidade.

Vida breve-intensa. A amizade que manteve com Fernando Pessoa, um dos encontros mais preciosos produzidos pela literatura e uma das relações mais profundas que certamente cultivou, fez do poeta maior, ainda que com certo de ar de desatento, seu maior incentivador à carreira de Sá-Carneiro. E foi justamente o poeta dos heterônimos quem melhor disse sobre Sá-Carneiro:

"Morre jovem o que os Deuses amam, é um preceito de sabedoria antiga. E por certo a imaginação, que figura novos mundos, e a arte, que em obras os finge são os sinais notáveis desse amor divino. Não concedem os Deuses esse dons para que sejamos felizes, senão para que sejamos seus pares. Quem ama ama só a igual, porque o faz igual com amá-lo. Como porém o homem não pode ser igual dos Deus, pois o Destino os separou, não corre homem nem se alteia deus pelo amor divino: estagna só deus fingido, doente da sua ficção."

Assim discorre Pessoa no obituário escrito para a revista Athena em novembro de 1924. E assim conclui:

"Génio na arte, não teve Sá-Carneiro nem alegria nem felicidade nesta vida. Só a arte, que fez ou que sentiu, por instantes o turbou de consolação. São assim os que os Deuses fadaram seus. Nem o amor os quer, nem a esperança os busca, nem a glória os acolhe. Ou morrem jovens, ou a si mesmos sobrevivem, íncolas da incompreensão ou da indiferença. Este morreu jovem, porque os Deuses lhe tiveram muito amor.

Mas para Sá-Carneiro, génio não só da arte mas da inovação dela, juntou-se, à indiferença, que circunda os génios, o escárnio que persegue os inovadores, profetas, como Cassandra, de verdades que todos têm por mentira. In qua scribebat, barbara terra fuit. Mas, se a terra fora outra, não variara o destino. Hoje, mais que em outro tempo, qualquer privilégio é um castigo. Hoje, mais que nunca, se sofre a própria grandeza. As plebes de todas as classes cobrem, como uma maré morta, as ruínas do que foi grande e os alicerces desertos do que poderia sê-lo. O circo, mais que em Roma que morria, é hoje a vida de todos; porém alargou seus muros até os confins da terra. A glória é dos gladiadores e dos mimos. Decide supremo qualquer soldado bárbaro, que a guarda impôs imperador. Nada nasce de grande que não nasça maldito, nem cresce de nobre que se não definhe, crescendo. Se assim é, assim seja! Os Deuses o quiseram assim."

Foi também Pessoa quem lhe redigiu uma tábua bibliográfica sobre o poeta, assinalando seus trabalhos organizados em livros e textos avulsos, onde relata ter Sá-Carneiro lhe deixado inéditos com a indicação de publicá-los. Na ocasião, o poeta de Mensagem disse não haver público adequado para receber a obra do amigo; construiu, desse modo, a ampliação de um enigma. Pessoa sempre soube o que fazia. Ao menos sobre a eternidade.

Abaixo, redigimos um catálogo com poemas, manuscritos e fotografias de Sá-Carneiro.



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