O falcão maltês, de John Huston




Adaptação de romance policial de Dashiell Hammett inaugura gênero noir e concede a Bogart o status de ícone

A adaptação do romance O falcão maltês, de Dashiell Hammett, traz Sam Spade (Humphrey Bogart) como um detetive solitário, implacável, preconceituoso e, no geral, vitorioso a cada novo combate. Não se trata de um corrupto. Ele tem seu próprio código de honra. Quanto aos criminosos, a violência e a ganância são tão exageradas que despertam comicidade. Assim, mesmo brutos e ambiciosos, não chegam a se opor a Spade. O público é levado a escolhê-lo como mocinho por razões mais sutis que por uma conduta exemplar, complexidade que fortalece o filme. O detetive tem suas manias, é homofóbico declarado e vive batendo em motivos razoáveis no impostor Joel Cairo (Peter Lorre).

Sapde é frio. Quando violento, cumpre sua missão rapidamente. O sócio é assassinado e ele não se abala. Respeita as formalidades, mantém as aparências e beija a viúva em segredo. O herói assim construído levou Bogart e Huston a carreiras de sucesso em Hollywood. Pode-se argumentar que a personalidade do detetive já estava construída no romance de Hammett. A história, no entanto, já tinha sido filmada duas vezes com personagens mais ameno e final feliz. A manutenção dos aspectos sórdidos do romance foi mérito de Huston e Bogart.

Quanto ao estilo, Huston também fui cuidadoso. Montou um storyboard detalhado para planejar as cenas e tomadas. Uma das mais marcantes é a sequência de sete minutos (ensaiada por dois dias) em que Spade e Kasper Gutman (Sydney Greenstreet) entram e saem de diversas salas.

O falcão maltês é considerado o longa que inaugura o gênero noir americano. Durante os anos 1940, o noir se constitui como estilo dominante dos filmes policiais e de mistério. Entre suas características, estão as ruas escuras e perigosas e seus habitantes, homicidas em potencial, mulheres fortes cujo apelo sexual é utilizado para desviar homens de sua conduta moral e enfraquecê-los. No centro, o herói Spade luta em duas frentes, contra bandidos e contra sua agressividade latente.

* Revista Bravo!, 2007, p.60.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Água viva, de Clarice Lispector

Pablo Neruda: o que não dá mais para ocultar

Quando Borges era Giorgie

Boletim Letras 360º #231

Salinger, um grupo de psicopatas e os do MKUltra

A filha perdida, de Elena Ferrante

Gostamos de causar danos (com o grande romance estadunidense)

Apontamentos sobre alguns textos curtos de Tolstói

Jane Austen: casamento e dinheiro

Boletim Letras 360º #232