Roma, cidade aberta, de Roberto Rossellini


A imagem que ficou na história do cinema é a de Anna Magnani caindo na rua, abatida por soldados alemães, em Roma, cidade aberta.


A crítica de cinema norte-americana Pauline Kael tem uma boa definição sobre Roma, cidade aberta: parece mais captado do que representado. Foi assim mesmo, com esse senso de realidade típico dos documentaristas, com alguma ação mas nenhum floreio cênico, que Roberto Rossellini fez o primeiro longa do chamado neo-realismo italiano. Numa Roma destruída, dias depois da chegada das tropas aliadas, em 1945, o cineasta, com uma câmera e restos de negativos não utilizados, filmou uma ficção inspirada em fatos reais, mostrando a resistência do povo contra a dominação nazista. Com improvisos e atores não profissionais, rodado nas ruas, sem cenários ou as usuais "maquiagens" do cinema de estúdio, Rossellini criou imagens brutas, "sujas", retratando uma realidade material terrível e jamais vista antes no cinema comercial.

O impacto do filme foi tão grande que o cineasta passou a ser cultuado por uma série de realizadores, de Jean-Luc Godard ao brasileiro Nelson Pereira dos Santos (Rio 40 graus, de 1955), além de teóricos, como o francês André Bazin. Este faz, em O cinema - Ensaios, um belo estudo sobre as longas tomadas sem corte do neo-realismo, que seriam mais próximas da realidade, pois não há montagem na vida real.

Roma, cidade aberta foi uma experiência pioneira para as platéias acostumadas às encenações hollywoodianas e às de grandes estúdios europeus, que utilizavam predominantemente cenários. A história é contada com cenas dramáticas (uma delas, marcante, é a da execução de um padre), como qualquer longa narrativo. Só que com uma estética mais próxima a de um cinejornal.

Rossellini, mais radical que Vittorio De Sica (Ladrões de bicicleta, de 1948), menos preso à dramaturgia e às facilidades que um ator pode carregar no rosto, radicalizaria esse procedimento naquele que é o mais neo-realista dos filmes, Alemanha ano zero (1948), em que a desgraça de um menino perambula por uma Berlim destruída é filmada como um documentário de observação.

Mais tarde faria trabalhos extraordinários, menos ou mais encenados, como Stromboli (1950) e a obra-prima Viagem à Itália (1954), ambos estrelados por Ingrid Bergman, sua esposa. Mas a imagem que ficou na história do cinema é a de Anna Magnani caindo na rua, abatida por soldados alemães, em Roma, cidade aberta.

* Revista Bravo!, 1997, p.63.

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