O discurso do rei, de Tom Hooper

Por Pedro Fernandes



Comentando informalmente este O discurso do rei disse que esperava mais do filme. E reitero minha expectativa. É um bom filme, mas daí chegar a ser grande, não. Tomando do escopo histórico de transição de reinados na Grã Bretanha de meados da década de 1940, a narrativa do filme se constitui em torno de um problema de gagueira do Princípe Albert - problema aparentemente simples mas que ganha uma dimensão sem fronteiras quando se trata de quem o padece. Diria que esse filme tem uma pitada de Cisne negro. Ambos são filmes que tem a busca pelo autocontrole, a exigência, o julgamento e a dedicação, como elementos modeladores de seus protagonistas. No mais, firma-se aqui outro ponto de semelhança com o filme de Aronofsky, ganha destaque o modo como somos conduzidos aos bastidores da família real. Em Cisne negro adentramos aos bastidores da cena artística da dança. Acho que o Hooper foi feliz com o modo como pensou esses bastidores - sem vanglorismos e colocando a família real como uma família comum, destituindo de nossa cabeça aquela áurea ou pompa que a mídia o tempo todo tem nos tentado passar ou pelo menos nos mostrando que por trás de toda pompa existe problemas como os que afetam a qualquer pessoa comum.

Outra relação que devo apontar com Cisne negro é que tanto Albert quanto Nina têm uma vida de cobranças. O caso de Albert ainda vai mais além; é que por ser filho de quem é, o rei George V, e ser o mais novo da família, o príncipe carrega consigo uma série de deficiências que vão sedimentando sua personalidade como a de um sujeito retraído, isolado de si próprio. Note que, enquanto seu irmão é desenvolto - pilota, vive de farras e ainda se envolve com uma mulher desquitada - Albert não passa de um pai de família apagado que tenta, a todo custo (seja sendo o bom pai para as filhas, seja sendo o correto da família, seja ainda sendo aquele que prima pelo zelo da coroa) aparecer como figura importante para o estrato que ocupa.

Para se tratar da gagueira é que Albert, por através da sua mulher - nesse filme, uma completa extensão do masculino - procura Lionel, um disfarce de médico que depois de cuidar da psicologia dos soldados vindos da Primeira Guerra Mundial atua como especialista em distúrbios da fala. Dessa relação médico-paciente é que resulta alguns bons momentos do filme, momentos que até consegue do telespectador arrancar algumas risadas. E só. O filme é polido. Bem à moda inglesa. Não possui grandiosidades. Os contextos em que se situa a trama não passam do que realmente são - contextos. A ascensão de Hitler, a coroação do irmão de Albert, sua abdicação e a coroação do próprio Albert, a Segunda Guerra Mundial, resumem-se a projeções dentro da projeção maior que é a trama. Isso me parece ser um elemento importante para a coesão do filme. O interesse pelos detalhes externos creio que fariam do filme um épico cansativo e que não merecia o nome com o qual foi batizado.

Por fim, devo lembrar que a arte e a fotografia do filme constituem uma poética à parte. A névoa e os tons mortos da paisagem de Londres e as tomadas nos interiores tecem um rico diálogo para a relação entre os dramas internos de Albert e os dramas externos da própria história mundial, funcionando, deste modo, como elementos de coesão para o filme. Representam o universo pesado, claustrofóbico e em constante estágio de degradação, características de uma época cujas certezas da humanidade já não eram tantas e passam ao telespectador a cara de período conturbado da história. No mais, um Oscar de Melhor Filme, como o que concorre, creio que seria exagero. Fico entre Cisne negro e A origem.  

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