Tetro, de Francis Ford Coppola




Este é  o último clássico do Coppola. E é clássico não apenas porque foi feito pelo Coppola, mas sim, porque ele aproveita tudo o que aprendeu em Apocalypse now e em O poderoso chefão, suas obras-primas, e incorporou nesse Tetro. No filme, Coppola está no auge de seus setenta anos e, portanto, é já dono da capacidade de síntese transformando Tetro numa obra poética. É novamente o drama do relacionamento familiar - tema da maior de sua produção - que aqui se apresenta. Tetro é um filme acerca das incertezas e das dúvidas em torno dessa criação cultural: a família.

Gravado em preto-e-branco em pleno século da luz no cinema, Tetro traz a história de Benny, um garoto norte-americano que vai ao encontro de seu irmão, que antes fora um escritor de talento e ao sair de casa para tentar a "sorte grande" não volta mais para casa, nem para rever a família, nem para buscar Benny. É na sombria Buenos Aires onde a trama se desenvolve, porque é lá que Benny localiza Angelo, o irmão em qestão. A chegada de Benny à casa de Angelo dará início a um jogo de aversão - nos gestos e nas ações de Angelo, agora Tetro - para com ele. Esse jogo de aversão levará o rapaz a iniciar uma "investigação" pessoal no próprio ambiente familiar. E o desfecho disso tudo é surpresa. A trama, a partir de então, se alimenta de si própria, num exercício simbiótico, construído entre a história "real" do filme e a história ficctícia, que são os escritos de Tetro, descobertos por Benny.

A beleza de Tetro não está apenas na fotografia em preto-e-branco para captar os closes e as sombras de uma Buenos Aires sombria, mas na forma como Coppola administra seus tons - variando para a cor, por exemplo, quando se tratam de cenas de rememoração. Aliam-se a isso a incorporação por parte do cinema do teatro, a arte mais próxima da sétima arte. Vejo mesmo Tetro como uma celebração ao teatro - seja pelo fato do intercalamento de cenas com cenas de teatro, seja pela forma como são conduzidas as cenas do filme. Mas não finda aí. Coppola incorpora elementos da literatura, da dança, da música, da pintura, da arquitetura e das outras artes com tamanha maestria que é como se reconhecesse no cinema - em tempos de profusão comercial e de péssimas produções fincadas nos efeitos especiais e esquizóides do status artístico - como o espaço que melhor soube incorporar e somente assim ter o alcance que teve; é pelas outras artes, reconhece Coppola, que deve se guiar as grandes produções. O resultado é Tetro.



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