Lúcio Cardoso


"Escrevo para que me escutem — quem? Um ouvido anônimo e amigo perdido na distância do tempo e das idades. Para que me escutem se morrer agora. E depois, é inútil procurar razões. Sou feito com estes braços, estas mãos, estes olhos e assim sendo, todo cheio de vozes que só sabem se exprimir através das vias brancas do papel, só consigo vislumbrar a minha realidade através da informe projeção deste mundo confuso que me habita. E também porque escrevo porque me sinto sozinho. Se tudo isto não basta para justificar porque escrevo. o que basta então para justificar alguma coisa na vida? Prefiro as minhas pequenas às grandes razões, pois estas últimas quase sempre apenas justificam mistificações insustentáveis frente a um exame mais detalhado".

(Lúcio Cardoso)¹



Todos os anos certamente têm seus nomes importantes para serem celebrados. E se Carlos Drummond de Andrade e Jorge Amado são os autores dos mais conhecidos a compor a cara de 2012, outro nome não pode deixar de integrar esse curto rol – o do escritor mineiro Lúcio Cardoso, que vim descobri dia desses pelo lançamento das quase mil páginas de poemas publicadas pela Editora da Universidade de São Paulo (EDUSP).

2012 será o ano de centenário do escritor. E além desse apanhado poético composto por Ésio Macedo Ribeiro, chegará às livrarias um Lúcio Cardoso inédito conforme matéria publicada no caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo. A pesquisadora Valéria Lamego é a responsável por essa empreitada. Já em 2006, num trabalho minucioso de André Seffrin, Inácio, O Enfeitiçado e fragmentos inéditos da obra inacabada Baltazar foram compilados e organizados num volume.

Lúcio Cardoso, nasce em Curvelo, Minas Gerais e pode ser considerado com um dos maiores representantes do gótico brasileiro – conforme nota publicada na Revista Carcasse. Publicou prosa (conto, mini-conto, crônica, romance, novela, diário...), teatro e poesia. Seu feito mais conhecido do público talvez seja a realização com Paulo César Saraceni do primeiro longa do Cinema Novo. Além dos ofícios citados, Cardoso foi ainda pintor, profissão exercida já no fim da sua vida, quando um derrame, em 1962, o afastou da escrita.

Da sua obra, podemos citar Maleita (1934), Mãos vazias (1938), Inácio (1944), Crônica da casa assassinada (1959).

Para Danilo Corci, “Lúcio Cardoso é um caso raro em nossa literatura. Homossexual em conflito, pintor em gênese, escritor de fato, lutador agoniado, ele descobriu uma passagem secreta em nossa forma de ver o mundo, em nossa alma brasileira muitas vezes inconformadas e deslocadas. Descobriu que existe, sim, um lado de trevas em todas as nossas luzes. E que é mais comum do que se imagina”²

Notas:
¹ Nota publicada no site Releituras.
² Nota publicada na Revista Carcasse, setembro de 2006.

Ligações a esta post
>>> Leia poemas de Lúcio Cardoso aqui.

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