Mensagem, de Fernando Pessoa

Por Pedro Fernandes



O que dizer de um poema que, nas literaturas de língua portuguesa, é talvez o mais estudado de todos e, ainda assim, se apresenta como fonte inesgotável de leituras, seja porque o texto poético assim sugere, seja ainda porque seu escritor deixou uma série de desenhos representativos no modelo de construção de seu texto? Um estudo da gênese de Mensagem (deve haver) responderia muitas impressões simbólicas que estão aí. Se Pessoa era admirador das ciências ocultas, conseguiu reproduzir esse ocultismo na concepção desse poema, que a princípio poderia figurar como um épico ou exaltação do povo português, mas no fim, não se reduz a isso, e o que está planejado pelo seu escritor está para além dessa ingênua conclusão. 

Publicado em 1934, graças o vencimento do prêmio Antero de Quental, instituído nesse ano pelo governo português, através do Secretariado de Propaganda Nacional, esse livro se constitui na única obra que Fernando Pessoa viu publicada na sua língua materna. O fato em si é aqui evocado apenas para notar o intuito que sempre os do meio de controle querem imprimir sobre àqueles que não se deixam guiar cegamente por certos campos ideológicos. Um prêmio literário instituído por uma secretaria de propaganda constitui, no mínimo, um disparate, uma vez que seu propósito está já implícito na alcunha 'propaganda'. E, só se confirma, ainda mais, quando se vê de onde vem: de uma ditadura cujo sentido maior, além do da projeção de seu ditador é também a projeção da pátria - o que no fim de contas dá no mesmo (ou os ditadores não são megalomaníacos?). Mas, sabemos que os propósitos não foram atingidos em sua totalidade porque é luxo, sobretudo, dos escritores, escrever por linhas tortas.

A grande mensagem de Mensagem talvez seja não meramente a de anúncio de um Super Império, o Quinto, como se tem evocado comumente, e aí a exaltação da pátria portuguesa, mas talvez a projeção ideológica do Super Camões - anúncio já dado há muito antes de sua publicação. Se atentarmos para os traços biográficos aí impressos e a nova pátria ressurrecta que Fernando Pessoa aí sugere - em que o espaço deve ser preenchido não somente pelos que têm o poder da força, mas ainda pelos que têm a visão e o domínio dos símbolos - Benedictus Dominus Deus noster qui dedit nobis signum - bem entenderemos as razões dessa projeção ideológica. Mas, sua grandeza não se firma aí somente. 

Há três anos eu escrevi um texto sobre esse livro, texto, aliás, que se perdeu porque a professora de Literatura Portuguesa III, na época, não mo devolveu, no qual eu afirmava que a estrutura de Mensagem se guia pela estrutura de um ritual secreto, como se o autor aqui assumisse a postura de oráculo. Como esse é um livro sobre o futuro e, portanto, um livro sobre o ausente, seu autor chamará para si uma composição cênica e alguns vultos históricos, como que espíritos sublimes, evocados no transe poético a fim de povoar um tempo do porvir. 

É um texto, Mensagem, que se constrói numa extensa rede de outros materiais - e aí, outra grandeza sua. Seja no diálogo com o cânone literário português e da literatura ocidental, pela relação direta, por exemplo, que esse poema se firma com Os lusíadas, de Camões e pela evocação, não menos direta, dos mitos fundadores, denotando que, se o mito explica em grande parte as concepções de um novo mundo, também o mito institui a possibilidade como real. É claro que não se pode perder de vista que o texto de Fernando Pessoa mantém zonas fronteiriças com outros gêneros, seja o teatro, seja a narrativa, seja as artes plásticas (reparemos na composição cenográfica do poema, no seu caráter linear e na leva de personagens aí evocadas e no processo de recomposição pictural das Armas de Portugal na primeira parte do livro - "Brasão").

Só abrindo outro parêntese para dizer dessa recomposição pictural. Ela não ocorre ipsis literis, assim como não ocorre a recomposição do brio dos heróis da história oficial portuguesa. Pessoa aí se transfigura para inserir aquilo que ele, prenunciador de um mensagem, quer que apareça. Exemplo seja dado quando o autor infere ao status católico do povo português e a necessidade de fundação de outro termo religioso a fim enformar o novo império.

Há muito o que se dizer desse livro. Mas fiquemos com essas inquietações. São suficientes para que entendamo-lo como um clássico.

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