Ler a Odisseia (Parte II)

"o amor ocidental deve muito aos mitos de sua formação como Tristão e Isolda ou Romeu e Julieta, mas antes deles não há como esquecer do amor entre Penélope e Ulisses"


Já disse alguém, e não terá sido o primeiro, que Homero é um mistério, um enigma. Nada se sabe sobre sua vida e, o pouco que se sabe é um rol de possibilidades. Entretanto, a Odisseia juntamente com a Ilíada, duas das mais importantes obras da literatura ocidental, são-lhe atribuídas. Se resumíssemos as poucas mais de quatro centos de páginas (isso tomando a edição que tenho, a publicada pela Editora 34) diríamos tão somente que é a história de um homem que volta à sua casa depois de uma grande viagem. No território das suposições acredita-se que os dois textos homéricos sobreviveram à larga somente através da oralidade dos bardos até que fossem escritos. 

Esse movimento da oralidade terá feito com que muito tenha se perdido e muito tenha se acrescentado? Evidentemente. Se a Bíblia, considerada livro sagrado, não terá resistido às compilações e às traduções, não será novidade nenhuma que os livros homéricos tenham passado por essas hecatombes. Fato é que, o traço da oralidade permite a livre transmutação da história e sua interpenetração noutros universos narrativos, seja diretamente como faz James Joyce na releitura do mito Ulisses em seu romance homônimo, seja indiretamente como terão feito muitos outros escritores e, aqui, sem comparações mais apuradas, cito o Dom Quixote, do Cervantes. 

Os cantos homéricos terão tido influência sobre a formação de nosso universo simbólico e também real. Por exemplo, o amor ocidental deve muito aos mitos de sua formação como Tristão e Isolda ou Romeu e Julieta, mas antes deles não há como esquecer do amor entre Penélope e Ulisses. Devo recobrar, além da ideia de que o nosso destino é entregue a um deus como se dele fôssemos marionetes, aquele entendimento que buscamos a fim de explicar determinados fenômenos e a atribuição direta à realização divina. É evidente que o Cristianismo com sua forte atuação terá desfeito e muito a riqueza simbólica emergente do pensamento grego antigo. 

Essa influência homérica não fica somente nos recôndidos de formação da nossa  natureza cultural,  se estende ainda sobre nossa acuidade inventiva. Digo isso para citar uma história que quando pequeno meu pai me repassou muitas vezes. Houve um tempo em que Jesus um tanto quanto intrigado com o silêncio dos fiéis resolveu descer à terra a fim de entender o que por aqui se passava. Mas, não veio de forma comum, a da imagem resplandecente do cordeiro ressurrecto, e sim, como mendigo e foi ter de porta em porta à cata de esmolas. Ele, entretanto, não foi à porta dos ricos, porque estes já sabia que há muito se fechara para ele. Foi sim, ter com os pobres. Não há que relatar seu desfecho porque já intuímos traçadas essas linhas gerais. É essa historieta que logo entra em ação quando me deparo à altura do Canto 18 da Odisseia com a entrada de Ulisses, em seu regresso, à Ítaca. Cumulado de presentes e, logo, vitorioso de sua empreitada, Palas Atena, disfarça o herói na pele de um velho mendigo e aconselha-o a não ir ter direto com sua casa, entregue às rédeas de forasteiros banqueteadores pretendentes à mão de Penélope, mas com um seu empregado, o criador de porcos.

Naturalmente que pai desconhecia a obra de Homero e na sua ignorância, porque nunca ele teve a oportunidade da leitura, buscava, na mesma forma de pré-formação do homem e de sua linguagem, entreter-me. Nascido e criado num forte catolicismo, a imagem de Jesus está para a de Ulisses, unidos aqui por três traços: o do retorno, o da mendicância e o do esquecimento. Ambas personagens buscam respostas às perguntas mais profundas que a ignorância sobre a sua própria existência; são movidas pelo interesse de saber aquilo que aqui se passa enquanto estiveram ausentes. 

Sobre esse mesmo retorno o poeta inglês Alfred Tennyson terá redigido Ulysses, em 1833, poema em que a personagem homérica aparece em meio a uma plateia desconhecida descrevendo o seu descontentamento com sua chegada à Ítaca.

Desse modo, e talvez Homero soubesse bem, podemos ter o apagamento do bardo grego e de sua figura individual da memória de um povo, mas aquilo que se passa enquanto ele se ausenta é a sua indispensabilidade a um bem coletivo demonstrando-se como uma vital continuidade história que une o seu mundo à formação e intelecção do mundo presente, mundo este que se confunde, não poucas vezes, com um déjà vu constante de nossa própria cultura, seja porque nos reconhecemos naquilo que escreveu ou nas histórias que lemos antes ou depois de a Odisseia.

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