Uns patriotas




Não, não é erro de grafia. Mas, o novo livro de Nelson Patriota, Uns potiguares bem assim poderia ser chamado. Porque este é um livro com escolhas aleatórias ou afetivas do escritor. E suas leituras aí apresentadas dispensam qualquer rigor acadêmico. Ficamos diante de um leitor comum que escolhe por no papel e, portanto, abrir ao público, seu modo de ler e como que os diversos temas evocados nesse instante são por ele compreendidos ou como ele os entende do ponto de vista do próprio escritor o enforme de determinadas obras. 

A atitude, entretanto, de Nelson é mais que válida. Talvez o cientificismo pesado da crítica literária tenha feito com os leitores comuns - esses que passaram para o espaço da intelectualidade desde meados do Romantismo - se dispersem. Evidente que se seguiu, além disso, uma pesada investida dos próprios de determinado período a se fecharem nos seus universos de palavras e se fixarem num entendimento doente de que a natureza do livro existe somente com as palavras, o que já se provou e muito, que é atitude inválida. 

Na crescente crise do livro - não diria da leitura, porque se lê hoje mais que há tempos - percebo que é o lugar comum do leitor aquilo que tem sido, aos poucos, desfeito. Logo, ao fezer isso, Nelson Patriota deve não apenas comungar da ideia de refacção desse espaço, como deve ter seu interesse em motivar leitores comuns para determinadas obras, ainda que tais obras sejam as de seu afeto. Mas, me pergunto nesse mesmo instante: e teria o autor o direito de falar de obras pelas quais não nutrisse esse interesse de afeto? As experiências boas são as primeiras que, todo leitor que acredita no seu poder e no poder da leitura, devem ser transmitidas. É um gesto de preocupação com o outro.

Então, daremos com Diva Cunha, Marize Castro, Valério Mesquita, Auta de Souza, entre tantos outros, entendendo que, não são apenas de escritores potiguares o que passam pelo crivo da leitura de Nelson. Há lugares literários e escritores de nome nacional nesse conjunto de textos. Apresentado como uma compilação do Nelson colunista da Tribuna do Norte, Uns potiguares cumpre um itinerário que parece não querer fechar-se numa mesma linha, mas traçar outras possibilidades de linhas. Isso é útil, mas tem suas limitações. Entretanto, essas limitações não ferem o interesse geral da obra.

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Nelson Patriota publicou na 4ª edição do caderno-revista 7faces um texto sobre Marize Castro. O autor foi editor do jornal O Galo (1996-2001). É autor de A estrela conta, No outono da memória (biografias); Colóquio com um leitor kafkiano, Antologia poética de tradutores potiguares (contos). Uns potiguares foi lançado sob o selo da Sarau das Letras.

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Ligações a este post:
Leia o texto de Nelson Patriota publicado na 4ª edição do caderno-revista 7faces, aqui.

O caderno-revista 7faces está com chamada para trabalhos de poetas e artistas plásticos. O prazo encerra-se no dia 31 de maio. 


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