Ler a Odisseia (parte VI)

Ulisses na Corte de Alcínoo, de Francesco Hayez (1813-1815)


Talvez o que haja de mais moderno no texto homérico seja a refundação da palavra no horizonte textual. Primeiro, como instância fundadora da realidade, depois, como intermédio entre a vida terrena e a eternidade. A própria Odisseia é um texto que não se sustenta apenas pela voz externa do aedo, mas pelas vozes internas que vão compondo ao leitor uma extensa camada de matérias que, não raras vezes se confundem e são o próprio itinerário pessoal de Ulisses. 

Notemos que no princípio da grande empreitada que conduzirá o herói ao retorno para Ítaca, que Telêmeco, designado por Atena, se depara já com a odisseia sendo contada pela boca de Menelau, depois será o próprio Ulisses quem se encontrará com sua própria história, quando num banquete entre os feácios, Demódoco canta sobre suas peripécias. Mas, até então temos um narrador que se coloca à busca de um tom ideal para sua história, afinal, a palavra é instância sacralizada e somente a uns lhe é concedido o dom pleno do uso.

Como na Odisseia o contrato entre o signo linguístico e o que ele representa se dá numa via muito estreita em que a palavra não significa a verdade, mas é a própria verdade, essa voz capaz de narrar a história central, tema do poema, é a do próprio Ulisses. A palavra, notemos, ganha, desde então, o papel de reafirmadora daquilo que o narrador homérico tem para nos contar. Ao ser o Ulisses quem se propõe a falar de suas aventuras é notória a preocupação de Homero em não se distanciar da experiência empírica para traduzir uma sinceridade necessária ao bom funcionamento da narrativa. 

Este princípio recupara que a palavra cumpre com o interesse, no instante em que refaz a trajetória do Ulisses, de sustentá-lo na memória coletiva - princípio da eternidade, se ser eterno for entrar para a história e ser lembrado sempre, afinal o ato de rememoração sempre há de figurar como um ato de presentificação do real. Depois de narrar suas aventuras para Alcínoo, Ulisses ainda terá de narrá-las para Eumeu e para Penélope, como se repetisse para si mesmo algo do qual não deve se esquecer, porque o esquecimento seria o fim de seu sucesso. E não serão poucos os momentos em que essa palavra narrada se encontra em constante ameaça de esquecimento: a passagem pela ilha dos comedores de lótus, a luta com o ciclope Polifemo, o jogo com a feiticeira Circe e com as sereias, todas, no mesmo instante que enformam a odisseia e esclarecem um percurso do retorno ser mais longo que o de saída de casa à Tróia, são como que instâncias perturbadoras que desviam o sentido do viajante para outras paragens numa clara ameaça da integridade de sua narrativa. 

E, pergunto, o que fará Ulisses para sobreviver a todas elas? O que fará Ulisses para conquistar, pelo caminho, o apoio de todos os reinos que visita? Uma única coisa, com a palavra, falar de si. A astúcia da personagem só sustém na materialidade verbal, que, no instante em que tece sua trajetória, o imortaliza. Os feitos heróicos são todos construções - e aí podem ser reais ou não - porque ao serem encenados pela boca do viajante exime o narrador de quaisquer acusações de falsário e o viajante atribuindo o que há de mais "exagerado" aos deuses também o afasta da mentira. Além de que, a construção de outra geografia, para além do mundo humano - sabemos que as viagens de Ulisses culminam com uma passagem pelo Hades - só é possível porque a palavra tem o poder de reinventar os aedos tradicionais, claramente incorporados por Homero na sua narrativa, fundindo num mesmo texto o movimento histórico do vivido e o movimento fictício do mito.

Por fim, a palavra é ainda instância imortalizadora porque não foi necessário que Ulisses cumprisse com o destino do heroísmo de guerra, como Aquiles e Heitor, para entrar no panteão da eternidade. 



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