Hemeroteca Digital Brasileira





Outro dia assistia pela internet a uma palestra sobre a necessidade de reinvenção do espaço das bibliotecas brasileiras. Disso já sabemos, como já sabemos que a coisa em terras tupiniquins é por demais ultrapassada, desde muito tempo. O Estado só dispõe de uma única imagem: biblioteca é lugar para as traças, a poeira, o mofo e para cuidadores desleixados que não sabem nem em que prateleira estão os livros do Paulo do Coelho ou espécie de asilo para emprego de mão de obra que não mais ‘serve’ para as atividades pesadas da educação. Não é drama. Quem foi rato de biblioteca cedo como fui sabe o que estou falando e, do meu tempo adolescente para agora, outra coisa que sabemos, pouca coisa terá mudado. Com os avanços tecnológicos, não quero ser pessimista, acho que levaríamos mais tempo para compor um sistema de bibliotecas decente país afora que para acabar com a corrupção, mal que hoje se ensina desde criança, aperfeiçoa-se nas universidades e pratica-se à banca rota em quaisquer situações; nesse caso último, ainda há os que pensam que a coisa está apenas arraigada entre os políticos.

Bom, como por aqui as coisas sempre caminharam a passo de tartaruga mesmo – o JK, coitado, bem que tentou acelerar cinquenta anos em quatro e o que vimos foi só desgraça; não nos afundou por dois milagres: um, Deus é brasileiro, dois, não tinha o que afundar – a Fundação Biblioteca Nacional anunciou e lançou em julho passado um espaço para digitalização do acervo nacional. E é muito. Porque apesar de termos fama de ler pouco, escrevemos muito. Não vê, até eu tenho esse blog que vou conduzindo a duras penas? E como eu, já repararam que todo mundo tem um e os que não arremedam letrinhas no Façibuque?

O arquivo é uma luva para pesquisadores, antes de ser uma maneira de preservação dos arquivos contra as intempéries do tempo, porque tudo pode ser consultado direto pela internet. São jornais, revistas, anuários, boletins, periódicos, e coisitas raras que levaria longo tempo para explorarmos tudo tudo. Mais fácil que explorar terá sido digitalizar. E não estou menosprezando um trabalho tão significativo quanto.

Das raridades vejam só, Correio Braziliense e a Gazeta do Rio de Janeiro, os primeiros jornais criados no Brasil, quinhentos anos depois de seu achamento português; extintos Diário Carioca e Correio da Manhã e Jornal do Brasil que apressou-se e aposentou-se do papel há algum tempo. Ou publicações que nunca ouvi falar, coisas do século XIX, como O Espelho, Reverbero, O Jornal das Senhoras, O Homem de Cor, Marmota Fluminense (opa, este já ouvi falar, o Machado de Assis escreveu muito nele, não foi?), Gazeta de Notícias, Correio de São Paulo e, por aí vai. O Malho, Klaxon (já editada pela Brasiliana USP, lembram que comentei por aqui?), Revista Verde, A Manhã, Última Hora vão engrossando a lista como destaques do século passado.

A importância para muitos pesquisadores de várias áreas e a preservação da memória nacional alia-se ao interesse literário pela documentação aí exposta. Sabemos que boa parte dos grandes escritores de nossa literatura – Machado de Assis, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, só para citar três nomes – andaram a escrever nessa imprensa. E deve haver coisas ainda por descobrir desses sujeitos. Assim como deve haver nomes obscuros que nunca souberam o que é o panteão dos imortais ou imortais que foram sendo esquecidos pela traidora memória.

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