10 livros + 2 para o dia das crianças



Muitos escritores dedicam-se em toda sua carreira a desenhar com letras o mundo das crianças em forma de literatura; cá, no Brasil, conhecemos muitos, e muitos bons: Ziraldo, Ruth Rocha, Eva Funari, Maria Clara Machado... Outros que ficaram conhecidos no Brasil a partir da chamada literatura adulta também se aventuraram em escrever para crianças: terá sido o caso de Clarice Lispector, José Paulo Paes, Jorge Amado, Erico Verissimo, Rachel de Queiroz, Vinicius de Moraes, Cecília Meirelles... Dos clássicos universais também há nomes citáveis, como os de José Saramago, Liev Tólstoi, Oscar Wilde, Willian Faulkner, James Joyce, T. S. Eliot... Boa parte deles influenciados pelos filhos, pelos netos, outra parte como aventureiros mesmo por um universo que, só aparentemente, tem cara de simples. Saramago, por exemplo, terá reconhecido em vida não saber escrever para crianças, primeiro para uma crônica, depois transformando a crônica em livro. Alguns deles foram incluídos na lista que elaboramos, outros não. Todas as listas, e disso já sabemos, têm seus defeitos: inclui a uns e deixa outros de fora, mas é uma particularidade das listas.

Ao elaborarmos esta sequência de livros levamos em consideração alguns fatores: a ideia de escritores conhecidos do público adulto foi uma delas e procuramos ainda enriquecer com uma variedade de gêneros, não se reduzindo às narrativas, mas também dando ênfase a gêneros como a poesia e o teatro. Também não podemos deixar de fora alguns clássicos como Monteiro Lobato, que fizemos questão de dispor no topo da lista, numa clara resposta ao dissenso que tem tomado conta do Brasil com a triste e preconceituosa onda (tanto quanto o próprio preconceito) do politicamente correto, afinal toda lista também tem um tom político.

1. As caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato: o livro é um dos clássicos do escritor que soube genuinamente pensar uma literatura nacional para o público infanto-juvenil. Pedrinho, Narizinho e companhia dão-se a aventura rural de caçada a uma onça. Vencendo o bicho pelo sacrifício, elas alcançam seu objetivo. É neste livro que chega ao sítio do Pica-pau Amarelo Quindim, um rinoceronte que foge da vida no circo em busca de sossego e é batizado por este nome pela Emília, quem primeiro o acolheu e se tornou amiga do animal.

2. A bolsa amarela, de Lygia Bojunga: o livro já se tornou clássico entre o público de várias faixas etárias. Uma garota, além de enfrentar todo um turbilhão de questões que toda garota da sua idade normalmente passa, se sente muito só, sendo a filha caçula de uma família em que os irmãos são mais velhos que ela. Sem atenção dos que estão à sua volta a menina faz planos de gente adulta: ser um menino, fazer carreira literária e crescer logo. É quando ganha uma bolsa amarela ela passa a guardar tudo o que se passa consigo, vontades com estas e suas expectativas.

Muitos escritores tiveram no contato com os filhos o interesse em escrever histórias
infantis. Na foto, Clarice Lispector e seus dois filhos, Pedro e Paulo.


3. O mistério do coelho pensante, de Clarice Lispector: este é o livro de estreia da autora de A hora da estrela no universo infanto-juvenil. Escrito para cumprir o desejo de seus filhos Pedro e Paulo, que chegaram a ter, na infância, um animal de estimação do tipo. Joãozinho é um coelho como outro qualquer, que capta tudo que vê ao seu redor pelo movimento do seu nariz. Um dia, através desse esforço, ele sente o cheiro de uma ideia tão grandiosa que até parece ter saído da cabeça de gente. Até que a ideia captada pelo coelho seja revelada, Clarice compõe reflexões sobre a natureza do animal, sua rotina e seus hábitos.

4. A arca de Noé, de Vinicius de Moraes: popular demais entre os escritores conhecidos do grande público pelo seu ‘derramamento amoroso’, Vinicius terá sido um dos que também mais popularizou a poesia no universo infantil. Talvez porque muitos dos poemas se tornaram famosos, antes mesmo de se tornarem livros, em discos, como A arca de Noé, que teve dois volumes produzidos entre 1980 e 1981. Neles, aparecem composições como  “O pato”, “O gato”, “A casa”, “O pinguim” e “São Francisco” que se tornam, algumas, famosas nas vozes de Chico Buarque, Milton Nascimento, Toquinho, Marina Lima, Ney Matogrosso, Fagner, Clara Nunes, entre outros. O livro com 32 poemas se apropria da tradição popular e reaproveita o famoso gesto bíblico num movimento que dialoga diretamente com a ideia de revalorização do lugar da criança no mundo.

5. O gato Malhado e a andorinha Sinhá, de Jorge Amado: escrito para servir de presente para o primeiro aniversário do filho, em 1948, o livro só foi redescoberto em 1976, foi entregue a Carybé que compôs as ilustrações para a história e publicado, sem alterações do autor, no mesmo ano. Inspirada na tradição popular das narrativas orais, o livro conta a história entre um gato encrenqueiro que se apaixona por uma andorinha, que diferente das outras aves, não tem nenhum medo dele. A improvável paixão com duas criaturas tão diferentes é uma metáfora de que não há como conviver em paz no mundo se não for pelo respeito às diferenças.

6. O urso com música na barriga, de Erico Verissimo: publicado pela primeira vez em 1938, o livro conta a história de uma família de ursos que mora no Bosque Perdido. O espaço é onde se dá os maiores acontecimentos do reino dos bichos: Tucano-Narigão declama versos, Vaca-Amarela fornece leite para a freguesia, Jacaré-Deixa-Estar tenta engolir a lua refletida na Lagoa Espelho... até que D. Ursa-Ruiva mulher de Urso-Pardo e mãe de Urso-Maluco tem a ideia de encomendar à Cegonha uma irmã para o filho solitário, que escreve uma carta pedindo que novo membro da família viesse com música na barriga. Com um enredo em que um fato puxa outro, o Urso-com-Música-na-Barriga, confundido com um brinquedo vai parar na casa de um menino rico. O livro faz uma releitura das necessárias relações afetivas.

7.  A menina e o vento, de Maria Clara Machado: a autora é também fundadora do Tablado, grupo de teatro que completou este ano, 60 anos, e tornou-se um dos lugares mais importantes do teatro infantil nacional, sendo base para muitos atores famosos como Malu Mader, Cláudio Corrêa e Castro, Selton Mello, entre outros. Em A menina e o vento, Maria é uma menina entediada com as aulas de educação cívica que resolve ir à cova do Vento em busca de liberdade é arrebatada por um vendaval. A peça se reveste de tom crítico para a sociedade brasileira de sua produção, década de 1960, ao mesmo tempo em que tem sua atmosfera marcada pelo tom poético típicos da autora.

8. O menino mágico, de Rachel de Queiroz: escrito para o sobrinho Daniel, que na época tinha sete anos, este é o primeiro livro infanto-juvenil da autora de O quinze e conta a história de Daniel, um garoto de seis anos que não gostava de nada e, aprendeu a fazer mágica, sozinho. O livro recebeu vários prêmios, entre eles o Jabuti e o Prêmio da Unesco com um dos melhores livros do gênero infanto-juvenil.

9. A revolta das palavras – uma fábula moderna, de José Paulo Paes: o poeta que adorava escrever para crianças, escreveu este livro em 1999, e com ele ganhou o Prêmio Jabuti do ano seguinte como melhor livro infanto-juvenil. As personagens do livro são palavras e o cenário as páginas de dicionário. Tudo começa quando elas decidem, por não mais aguentarem ser mal usadas, atrapalhar a vida de todo mundo que alterasse o seu real sentido.

10. Palavras, palavrinhas, palavrões, de Ana Maria Machado: está aqui outro texto que tem na lide com a palavra seu tema central. Uma menina que, encantada com a língua, vai descobrindo o sabor de pronunciar e descobrir novas palavras; sempre que ouvia uma nova palavra, tomava para si e repetia. A confusão se instala quando ao pronunciar certas palavras a sua família a repreendia, fato que não se repetia, por exemplo, quando ela repetia outros palavrões. Entre o limite do permitido e do proibido como instâncias de controle de uso da linguagem, a criança aprendiz poderá entender que o sistema linguístico é sustentado por um conjunto externo de normas que, nem sempre, condiz com a razão.

Por conhecermos outros livros que impreterivelmente deveriam caber na lista, mas o número dez não permitiu, acrescemos mais duas outras obras que são indicadas demais à leitura dos pequenos:

ilustração de Angela-Lago para a antologia Menino Drummond.


1. Menino Drummond, de Angela-Lago: na verdade Angela-Lago é apenas quem selecionou e ilustrou o conjunto de poemas aqui publicados e os textos são sim de Carlos Drummond de Andrade. São 22 poemas apresentados em ordem cronológica que foram extraídos de 11 títulos do poeta mineiro lançadas entre 1930 e 1984, como Alguma poesia, seu livro de estreia, e Corpo. Para cada poema, uma ilustração.

2. Dois fios, de Pep Molist: é este um conto de memória afetiva. Seu autor inspirou-se nos meninos de Senegal que nas tardes de verão frequentavam a biblioteca infantil onde ele trabalhou em Manresa. Na história Moussa, um menino africano, caminha diariamente até o baobá da aldeia para as histórias contadas pelo seu avô.



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