Leontino Filho: a saga e o segredo de urdir os restos do lirismo amoroso



por Márcio de Lima Dantas


                                                          
Todo mundo sabe quanto se tornou difícil, nos últimos tempos, o manuseio de textos artísticos que lancem seus vetores à tradição da literatura ocidental conhecida como lírica amorosa. As linhas de continuidade às quais se vincula o discurso poético sobre o amor, pelo menos nos moldes como fomos acostumados a senti-lo/representá-lo, e também como é difundido pela mídia, parecem ter atingido o seu fastígio com as transformações que o século XX ferrou nos relacionamentos interpessoais, coisa que me parece sem retorno e que também, de outra parte, não deve causar transtornos, malgrado o desvelamento de uma hipocrisia insistente, produzida por um discurso advindo das classes dominantes, eivado de Ideologia, possibilitador da reprodução do status quo favoráveis àqueles mesmos que desde sempre estiveram no poder.

 O que eu quero dizer é que o poeta Leontino Filho, nascido em Aracati, antiga cidade do Ceará, vivendo desde muito na capitania do Rio Grande, ainda consegue retirar leite das pedras, dada sua capacidade de lidar com a linguagem, haja vista seu enorme talento de suplicar metáforas à Érato; sim, isso mesmo, uma rara faculdade de extrair delicadas epifanias sobre o amor e todos os afluentes temáticos que o entornam. Ou seja, ainda as possibilidades do que ficou conhecido e estabelecido, muita vez equivocadamente, com a rubrica lirismo amoroso. Reparemos um bom exemplo daquilo a que acima me refiro, encontrado no livro Sagrações ao meio (1993): antropofagicamente/reclamo as minhas sobras.

Com efeito, várias qualidades são encontradas na poesia de Leontino Filho, que se mostra sóbria, madura, em rasgos de originalidade e lampejos semânticos, numa linguagem elíptica, elegante, manuseando discretamente o vocabulário regional, sobrepondo com habilidade os versos parataticamente uns sobre os outros, olvidando o enjambement, desprezando, porém deixando implícita, a gramática do vernáculo, na consecução do signo poético. Bom mesmo é constatar quanto o poeta se encontra em contemporânea vibração com os modos de sentir das gentes/mentes multifacetadas que perambulam nas vias do presente. Melhor ainda: saber – coisa tão sutil e complexa – articular, através da palavra poética, o empírico no qual estamos imersos, posto que, mesmo a gente sendo capaz de um distanciamento crítico, como pretendia o poeta Fernando Pessoa, não podemos nos esquivar dos discursos que proferimos, das representações que fazemos das coisas e sobretudo das de que somos objeto. Enfim, para não se arrastar muito o que tanto a crítica tem buscado: o isomorfismo entre vida social e expressão estética.

Ora essa! Tudo o aí dito só poderia sustentar-se por meio de um discurso, no mínimo, diferenciado da prática poética démodé e em voga nas terras brasileiras, cuja palatabilidade ao poético nem sempre é condizente com as formas de agir e sentir atuais. Era só o que faltava! Uma sociedade que detém em seu éthos apenas alguns vestígios do rural, visto que alguns teimam em se ligar ilusoriamente ao “torrão natal”, na qual pipocam fenômenos e gentes já com visão cosmopolita, gostos sofisticados no vestir e no comportar-se, sexualidades cambiantes, cosmopolitismo expresso na indumentária e no comportamento, etc, mesmo que sejam uns poucos, permanecer atado a uma ruma de besteiras sobre formas de amar ou de representá-la é,  antes de qualquer coisa, ridículo. A arte, como todo mundo sabe de cor e salteado, ao longo da história, sempre salpicou, nos cacos encontrados nos monturos das vivências, individuais ou sociais, faces amplamente complexas e ambivalentes do real.

Falava mesmo de quê eu? Sim, de forma. O poeta Leontino Filho não utiliza em seus versos a capitular maiúscula nem tampouco o ponto final, sugerindo uma dicção solta, moldada num ritmo bem particular. A sugestão que nos imprime é de certa liberdade de pensar, de sentir o seu desejo pelo objeto amado, sem censuras. De outra parte, o discurso poético de Leontino se instaura num registro lírico amoroso de natureza muitas vezes erótica, manifestando-se através de blocos alinhados, como sendo espécies de monólitos, gramaticalmente plasmados numa linguagem coloquial e que contém qualquer coisa de oracular, tingindo a palavra poética com as forças atávicas de dizeres ressoando afirmações que muito o aproximam de uma vidência.

Na última sessão do livro, “Circulares” - temos a junção, a síntese de Sagrações ao meio, na medida em que as duas formas fixas manuseadas com elegância pelo autor, ao longo da obra, agora retornam numa única página, ou seja, a quintilha na parte superior e o terceto na parte inferior. Cinco e três: números cabalísticos. Os cinco sentidos para usufruir as benesses eróticas do corpo, expressas nos estádios naturais de toda e qualquer coisa: que nasce, que cresce, que morre: as cidades armam/vinganças quase perfeitas/resta o meu voo.

Numa outra subdivisão do livro, “Vazantes”, avulta, em contida dicção, um belo uso da linguagem regionalista, sem, contudo, o poeta fazer desse uso uma espécie de orgulho por deter uma das variantes linguísticas do português falado no Nordeste. É como se fosse assim uma coisa tão natural que o leitor nem se dá conta. Porém, ao se servir de um vocabulário inerente a uma região desde sempre representada no discurso oficial como algo a ser sempre, conscientemente ou não, depreciado, mesmo que seja apenas para aparecer diante do outro, num puro movimento de insegurança - ou seja, a tão batida história de perpetrar o contraste para escamotear o velho sentimento de inferioridade, tão inerente à sociedade brasileira. Sim, mas de tudo isso resta o benfazejo serviço de decantar tal linguagem, obrigando os dicionários a codificar, nos seus verbetes, usos de um costume emanado de uma diferença. Todo mundo sabe o que Graciliano Ramos, ao fazer uso de palavras restritas a uma região, prestou ao vernáculo, enquanto sistema aberto, enriquecendo a língua ao manuseá-la na literatura, lugar já estabelecido como sendo o objeto de estudo de filólogos e interessados na linguagem.

Enfim, o tratamento literário dado pelo poeta Leontino Filho à temática do amor no livro Sagrações ao meio pode ser assim iconificado: despojamento linguístico e profecia, a serviço de uma erótica refinada, bem de acordo com a maneira de vivenciar os relacionamentos interpessoais mais íntimos consoante as usanças nos últimos tempos.


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Márcio de Lima Dantas é Professor Adjunto II da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. É autor de xerófilo Rol da feira, encartado nas edições 3 e 5 do caderno-revista 7faces, respectivamente; no 5º número publicou também uma edição de artes plásticas caderno de desenhos. Além disso, escreveu os seguintes livros de poesia Metáfrase (1999), O sétimo livro de elegias (2006), Para sair do dia (2006) e os de ensaio Mestiçagem e ensaísmo em João Cabral de Melo Neto (2005) e Imaginário e poesia em Orides Fontela (2011). Também traduziu para o francês, com o prof. Emmanuel Jaffelin, quatro livros da poeta Orides Fontela, organizados em dois tomos: Rosace. Paris: L’Harmattan, 1999 (Transposição e Helianto) e Trèfle: L’Harmattan, 1998 (Alba e Rosácea). Ganhou o prêmio Othoniel Menezes (2006), com o livro Para sair do dia, outorgado pela Capitania das Artes; foi contemplado com o I Prêmio Literário Canon de Poesia 2008.

Este texto foi publicado inicialmente na 7ª edição da Revista Preá, em julho de 2004. 

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Para setembro de 2013, a 7faces pensa uma edição especial sobre Leontino Filho assinalando a passagem dos 25 anos do seu livro Cidade Íntima. Como um dos recursos de divulgação da obra do poeta, foi criada uma fan page no Facebook que pode ser acompanhada por aqui.
             

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