Madame Bovary, de Gustave Flaubert

Por Pedro Fernandes



Desde que foi escrito em 1857 que Madame Bovary foi responsável por celeumas dentro e fora do universo da literatura. Já é de conhecimento de todos, por exemplo, do processo que enfrentou o autor, Gustave Flaubert, sob acusação de que o seu romance era indevido à moral e aos bons costumes da sociedade francesa. Essa pequena mostra justifica, desde então, que não estamos diante de um texto qualquer. Se o interesse do escritor foi o de colocar o dedo no nervo central da burguesia e revelá-la em toda extensão a hipocrisia aí reinante, de fato, não apenas pela atitude de ter sido levado aos tribunais, mas sobretudo, pela revolução estética e pela confirmação da podridão da sociedade de seu tempo confirmada mais tarde, se confirmou. A obra é tudo isso e muita coisa a mais; basta sublinhar, ainda, seu caráter inovador quanto ao tema e a forma.

Gostaria de me deter aqui em alguns dos procedimentos estéticos do romance e na importância que teve o Madame Bovary no interior de algumas reviravoltas sociais. Resumirei em duas palavras a narrativa – por que é de conhecimento de grande do parte dos leitores (mesmo dos que ainda não leram a obra): Emma é uma moça, cf. apresentada no segundo capítulo, filha única, órfã de mãe e dedicada no zelo e ordem da casa do pai, um pequeno proprietário rual, que ao sofrer um acidente no qual fratura uma das pernas, recorre aos serviços médicos de Charles Bovary, moço da pequena cidade de Rouen, recém-casado com uma viúva, numa relação de puro interesse financeiro; mesmo sendo o rapaz um desses sem muitas perspectivas sobre seu futuro, não precisa dizer que Emma virá cair de amores por ele. 

Charles é o típico sujeito cuja única ambição que tem é contentar-se com a vida que leva e seu trabalho. A aproximação sua com a família de Emma, o levará a desenvolver uma amizade extensa com o pai da moça e, a morte da mulher de Charles só será um facilitador para que haja a união entre ele e Emma. Sem muita escolha, mas acreditando que em Charles estaria a sua fonte de inesgotável embriaguez amorosa – tal qual ela verifica nos romances de romantismo rasgado – Emma cai nas graças de Charles, mas ainda nas núpcias reconhece que não terá tomado a atitude certa na sua vida, ou pelo menos, o amor não tem nada do arrebatamento padecido pelas personagens na ficção. Isso, entretanto, não fará dela uma conformada com a pasmaceira que lhe é a vida de casada. Emma, pela rica experimentação do mundo através leituras, sabe que a existência de igual maneira à vida Charles é muito cômoda e não representa o sentido real de experimentação do mundo. Daí, então, vão nascendo as oportunidades extraconjugais como possibilidades de encontrar-se com essa outra vida que não está onde ela está, mas numa outra esfera.

Conhece Léon, escrivão com quem inaugura uma rica e intensa amizade, desfeita, ou colocada em off, pela incapacidade dos dois de assumirem a paixão desenhada de um pelo o outro. Adoentada – Emma apesar de está um pouco à frente da heroína romântica, ela preserva ainda muitos dos traços da personagem do tipo – Charles resolve mudar-se de Rouen em busca de novos ares para ela. Na cidade vizinha, já esquecida de Léon, desde sua partida para Paris, eis que aparece na sua vida o sedutor Rudolphe. Homem experiente na arte de surripiar mulheres de sua mesmice matrimonial, ele investe todo o poder de conquista e é graças essa sua capacidade que Emma se sente realmente segura e motivada a levar em frente a traição. Quando tudo parece está em vias de ser descoberto e quando Emma, perdidamente apaixonada, está decidida a fugir de casa por essa paixão, Rudolphe simplesmente lhe deixa na mão. É quando, fragilizada pela perda, Emma cai numa doença sem explicação qualquer. A pequena família vê-se atacada, não apenas pelo adultério de Emma, mas pela base capital que sustém todos os luxos da casa. As duas propriedades burguesas, o casamento e o dinheiro, estão agora em séria ameaça. O capital pelas despesas que Charles faz para cobrir o tratamento da mulher no mesmo instante em que os vendedores a quem Emma sempre foi fiel para suprir seus gostos estão agora a postos para pedir o que lhes é devido. Aliviada a péssima fase do casal, Emma reencontra Léon quando numa ida ao teatro em Rouen. A partir daí, os dois desenvolvem o intenso envolvimento amoroso que não tiveram coragem no passado e será ele a gota que levará ao desfecho trágico da figura principal do romance.

Mais que a comum história de amor, o adultério é o elemento novo introduzido por Flaubert. Embora a personagem seja punida da pior maneira no final, é notório que a criação de Emma terá servido de nó inspirador para uma série de outras personagens do gênero cujo apaziguamento da mesmice matrimonial é o envolvimento nas relações extraconjugais. Essa atuação até certo ponto autônoma do feminino é inovadora por várias razões: uma delas é que ao se tornar uma constante na literatura, pela primeira vez se inaugura um lugar em que mulher é colocada como sujeito e que, antes de tudo, é dona de uma sexualidade ativa, esta que sempre foi colocada como mero elemento a serviço da sexualidade dos homens. A história da humanidade está repleta de orientações que primam pela mulher de família como instrumento reprodutor e a mulher da rua como instrumento de prazer – prazer, entretanto, dado apenas ao macho.

Para além desse novo lugar da mulher no casamento e na sociedade, Madame Bovary se constitui numa reinvenção do plano estético do romance. A criação do indivíduo problemático ou do indivíduo incapaz de se ajustar ao modelo social quisto pelo poder regulador – no caso do livro de Flaubert, a religião ainda ocupa esse lugar de zelo pela moral dos sujeitos e é a religião, aliás, o elemento mais atacado pelo romance, uma vez ser o casamento por essa época uma instituição eminentemente religiosa, por exemplo, ou ainda a plena atuação da medicina, no seu grande alvorecer como um subterfúgio de recusa das crenças perpetradas pela igreja. A criação desse indivíduo será de agora em diante o grande elemento renovador do romance até os dias atuais.

No mais, Flaubert é mestre no manejo com a narrativa. Tenho impressão de que nada aí sobra ou falta. Tudo é muito bem desenhado e ajustado. E nem mesmo as impressões, os tateios descritivos que pode parecer um tanto fora da narrativa, deixam de cumprir um papel imprescindível no romance. Apesar de se guiar por uma linha reta – isto é, ainda não estamos diante do romance preocupado pela destituição do tempo– não quer dizer que o esfacelamento da narrativa não esteja aí latente.

À medida que vão sendo introduzidas novas personagens,  por exemplo, Flaubert faz algum tipo de digressão descritiva para situá-las na narrativa, como se nos disséssemos a que veio tal nova figura. Isso, por exemplo, prepara o leitor para as possíveis ações ou desfechos de situações no tempo futuro do romance. O leitor astuto logo perceberá isso e já não estará se perguntando quando o inusitado acontecer sobre o porquê que isso se deu dessa e não de outra maneira. Um exemplo, a viúva com quem Charles se casa já está literalmente morta no início do casamento. Dela não sabemos mais que a descrição da sua caquética expressão física; outro exemplo, é a apresentação de Léon com interesses que vão ao encontro dos desejados por Emma. O que isso quer dizer se não do futuro envolvimento amoroso de Emma com Léon no segundo? Ou ainda as constantes maleitas que vão assolando Emma desde a partida de Léon para Paris... O que isso quer sugerir se não um destino trágico da personagem? Tais recursos, logo se vê, vão demonstrando que essa linearidade imaginada pelo leitor no desenvolvimento da trama não é coisa assim pontualmente seguida pelo narrador. E aí está um dos principais elementos estéticos da inovação flaubertiana. O leitor também perceberá que depois dessa inovação as feições do romance só tenderão ao aperfeiçoamento. E estando o Madame Bovary na ponta ou no princípio desse aperfeiçoamento não custa repetir da sua imprescindível leitura.

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