Mais que escritor, desenhista Millôr Fernandes




A escrita de Millôr Fernandes é ainda algo por explorar. Não há dúvidas disso – não apenas pelo fato do pouco interesse que há da parte da academia pela sua literatura como pelo modo de escrita pouco usual do escritor. Apesar de textos mais longos, o escritor deixou uma quantidade enorme de coisas miúdas que levará seu tempo para assentar-se como corpus em algum trabalho da parte da crítica, que seja digno de locar Millôr no seu devido lugar da literatura brasileira. Ou não. Talvez o silêncio da academia ou da crítica no geral seja um aviso. Mas Millôr medíocre? Para dizer que a literatura de Millôr não está de um todo esquecida sei de um pesquisador que está decifrando parte das coisas miúdas do escritor reunidas em A bíblia do caos. E o caos é mesmo uma ordem por se decifrar.

Que digam os estudiosos do Livro do desassossego, de Fernando Pessoa, obra de igual caoticidade esmiuçada em leituras e releituras e por mais que se estude, parece que não haverá nunca uma forma de por um ponto na sinuosa reta (que por ser sinuosa já logo se vê não é reta) que apresente de fato um desenho mais ou menos claro da obra. É que talvez o caos não seja mesmo uma ordem por decifrar, mas uma ordem em si caótica.

No caso de Millôr ainda sobraram mais afazeres porque aliada à escrita foi também o artista um exímio desenhista e não raras vezes o desenho tem uma aproximação ou um extenso e intenso diálogo que é , muitas vezes, impossível compreender o primeiro sem o segundo e vice-versa. O desafio dos que forem enveredar por essa seara, já logo se vê, é o de ter muitos cabelos na cabeça para se deixarem ser arrancados. E caindo nesse extenso território criativo quase sem fim poderão descobrir que Millôr foi mais que escritor, foi mesmo desenhista. E não é essa afirmativa uma suposição.

Ruy Castro que foi muito amigo do artista certa vez perguntou-lhe – tal e qual se pergunta à ciência o que veio primeiro se o ovo ou a galinha – quem viera primeiro, o escritor ou o desenhista, ao que o próprio Millôr respondeu, o desenhista. Esta pode ser a surpresa que encontrarão os que mergulharem encantados no mundo literário de Millôr. Millôr não foi literato, mas alguém muito próximo à literatura, que mais ensaiou que escreveu e o que tinha a dizer disse de fato pelo seu desenho. É uma possibilidade.

O Castro disse ter ficado surpreso ouvir do próprio artista o que ouviu. Cá, nunca estivemos muito próximos de Millôr, mas sabemos de uma coisa: até sua escrita mira a arte do desenho. Se isso se comprovar, estaremos vendo que não estamos diante um gênio tal qual Pessoa e seu livro dos fragmentos, mas diante de um artista que não terá avançado tanto na arte da palavra. Agora, se formos pensar que o desenho é a primeira forma de comunicação escrita de qualquer um: não somos dados a escrever de imediato; primeiro, rabiscamos garatujas e as garatujas são nossa primeira forma de comunicação escrita, de fato, Millôr pode ter, ao responder ao amigo, se reconhecido como alguém vitimado pela linguagem. E nela não saiu da forma original, que talvez no mundo não sejamos mais que isso: ainda engatinhadores na escrita. Pensando por esse ângulo, Millôr foi ainda tão capaz quanto a outros gênios sem se deixar ser caracterizado pelo epíteto. Quando muito, uma mente extremamente criativa, como muitas outras.

Mas, se formos aos desenhos de Millôr compreenderemos sua originalidade – o bom artista é aquele que dispensa a beleza, porque a beleza do desenho não está no acabamento das formas, mas na forma em si. E daí a ausência de retoque e o deboche das linhas – algo que se repete em determinados autores como Chico Caruso – como se dissesse que esse trabalho é dispensado, afinal para que serve a visão do leitor, se não para retrabalhar o traço e fazê-lo à sua maneira.

Abaixo, recolhemos 12 imagens com temas variados sobre os quais Millôr dissertou no seu desenho – desenho que teve um forte tom humorístico para com determinadas questões sociais de seu tempo. Se podemos falar de um arte engajada, este termo deve ser aplicado sem restrições ao trabalho de Millôr – seja porque viveu períodos complexos da nossa história, seja porque publicou em semanários e diários, desde a uma de suas criações, o famoso Pif-paf.



Depois, vale uma visita no espaço do artista, de onde fizemos a recolha dessas 12 imagens e onde pode se ver e ler muito do extenso trabalho de Millôr.



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