Dez filmes que tratam sobre a vida de pintores

A relação entre as artes plásticas e o cinema é muito estreita, tanto que, muitos cineastas não terão deixado de buscar representá-la da melhor maneira possível. Sabendo disso, fomos buscar, motivados em parte pela recente filmagem da biografia de Renoir (incluída nesta lista), alguns títulos que são de grande significação para os interessados nessa relação temática. Esta lista não é um ranking e parte do conteúdo que apresenta filme a filme é copiado de sites e blogs especializados na apresentação e discussão sobre cinema. 

cena de Moça com brinco de pérola.

Sede de viver, 1956. Dirigido por Vincent Minnelli, o filme é baseado no romance Lust for life (traduzido no Brasil como A vida trágica de Van Gogh), de Irving Stone. Atua no papel do pintor holandês um excepcional Kirk Douglas, quem levou o Globo de Ouro de Melhor Ator seguido de Anthony Quinn, quem recebeu o prêmio de Melhor Ator Secundário. O filme começa em 1877, contando o serviço religioso de Van Gogh em uma vila de mineiros na Bélgica. Vivendo em condições deploráveis e sem dar notícias, faz com que seu irmão Theo venha e o leve de volta à Holanda, para a casa da família. Van Gogh se recupera, mas uma desilusão amorosa o faz se mudar para Paris, onde seu irmão trabalha como negociante de artes. Na grande cidade, ele faz contato com diversos artistas impressionistas e conhece aquele que viria a ser seu maior amigo, Paul Gauguin. Influenciado por Gauguin, Van Gogh vai atrás de lugares ensolarados para pintar e se muda para a Bretanha. O filme explora ainda a complicada relação entre os dois pintores o papel decisivo do irmão de Van Gogh no desenvolvimento de sua obra artística.

Rembrandt, 1936. Apaixonado pelos temas históricos, o diretor e produtor húngaro Alexander Korda rodou este filme centrando-se nos últimos anos do grande pintor holandês. O filme se dedica assim ao período quando o famoso pintor se encontra no ápice de sua carreira e irrompe em sua vida a morte de sua adorada companheira Saskin. Depois desse duro golpe, seu trabalho se torna obscuro e recebe uma gélida acolhida por parte de críticos e mecenas. Assim, já em 1656, Rembrandt está em bancarrota e só encontra consolo no seu novo amor, uma jovem criada com quem não pode se casar pela sociedade onde vivem e por suas dívidas.

Frida, 2002. No mundo artístico poucas mulheres tiveram uma vida como Frida Kahlo: companheira do pintor mexicano Diego Rivera, militante comunista, anfitriã de Trotsky em seu exílio da Rússia comunista, lutou por seus ideais e sua forma de vida até a morte, demonstrando sempre sua especial e atormentada visão da arte. As visões da fidelidade, a enfermidade, a dor – o acidente que teve que quase a deixou paralítica além de sua debilitada saúde devido ao cigarro e à bebida – estão entrecortadas numa expressão pictórica inigualável, nascida do entrecruzamento da tradição asteca e do estilo naïf. O filme de Julie Taymor baseia-se no livro escrito por Hayden Herrera sobre a biografia desta personagem e não se preocupa em criar uma unidade narrativa compacta mas desigual com o uso de algumas alegorias visuais que se mesclam com imagens reais e telas da pintora mexicana. Trata-se de um filme que tem momentos verdadeiramente emocionantes, mas se devem na maioria dos casos às soberbas interpretações do grandioso elenco.

cena de Renoir.

Renoir, 2012. O filme francês de Gilles Bourdos acompanha toda a trajetória da vida do pintor.  O diretor parece interessado em responder a pergunta “quantos anos são necessários para se formar um grande artista”. Aí está o Renoir filho da classe média parisiense, seu primeiro estágio com a arte depois dos 13 anos, o período em que largou seus estudos para trabalhar numa fábrica de porcelana onde pintava elementos decorativos em peças como pratos, copos; a transição da fábrica para a pintura de temas religiosos. A obstinação em realizar seu grande sonho: mudar-se para Paris para estudar artes na Escola de Belas Artes. Sonho realizado, é a vez de nos aproximar das grandes amizades com importantes nomes como Alfred Sisley, Monet, Bazille, fundamentais à sua composição. Os altos e baixos da carreira, o gênio quase não dobrável do homem perfazem um detalhado panorama biográfico sobre o artista francês.

Agonia e êxtase, 1965. Aqui está outra adaptação de outro romance de Irving Stone que reconstrói a vida e os trabalhos do genial Michelangelo, seus enfretamentos com o Papa Júlio II e a criação dos grandiosos painéis da Capela Sistina. O filme de Carol Reed é um projeto ambicioso, uma obra mastodôntica que não correspondeu à suas expectativas. Michelangelo é só um célebre escultor florentino quando recebe a encomenda do Papa Júlio II, de erigir a tumba dele, cujo projeto prevê a construção de 40 esculturas. O Papa e o arquiteto Bramante acabam desistindo do projeto e Michelangelo recebe uma nova incumbência: pintar o teto da Capela Sistina. Ele, a princípio, não quer o trabalho pois não se acha um pintor, mas, temendo contrariar o pontífice, aceita a encomenda e começa a pintar os afrescos representativos dos Doze Apóstolos. Logo o artista fica insatisfeito com o resultado e destrói as pinturas, fugindo em seguida para as Pedreiras de Carrara. O papa quer enforcá-lo por isso e manda seus guardas persegui-lo. Ao se esconder dos soldados, Michelangelo acaba se inspirando e aceita retomar a pintura, sem antes convencer o Papa a mudar o projeto inicial. O trabalho agora é bem maior e Michelangelo deverá fazê-lo sozinho, a custo de grande fadiga e sofrimento.

Poucas cinzas, 2008. Ainda que existam dezenas de documentários e vários outros filmes sobre a biografia do pintor Salvador Dalí, este é o mais recente e que buscou explorar mais de perto não apenas as relações criativas que manteve (Buñuel, Alfred Hitchcock ou Walt Disney) também as conturbadas, envolventes – e igualmente formadoras de sua persona artística – relações pessoais. É o caso do seu envolvimento com o poeta Federico García Lorca. O filme de Paul Morrison, com Robert Pattinson como Dalí, se passa na Madri dos anos 1920, quando o pintor forma parte no grupo de residentes da casa de estudantes da Universidade de Madri, então composto por nomes que revolucionariam o surrealismo espanhol.

Moça com brinco de pérola, 2003. Este é um dos mais belos filmes porque nele imperam a harmonia, a elegância e magia de uma fotografia sem igual. Baseado no romance da escritora estadunidense Tracy Chevalier, escrito em 1999, a narrativa busca uma história possível sobre a jovem que aparece no quadro do pintor holandês Johannes Vermeer. O filme transcreve com precisão de matizes platônicas a relação entre o pintor e a jovem donzela convertida em sua musa, extraindo das investigações realizadas para o roteiro os pequenos detalhes, das porcelanas de Delft à luz dos quadros nos ambientes interiores pintados por Vermeer, da relação com Nicolaes Maes a outros mestres da pintura.

Pollock, 2000. Ed Harris beira ao milagre em algumas atuações nesse filme. Desenha com maestria a angústia e inadaptação sofridas pelo pintor estadunidense Jackson Pollock; neste filme, Harris também estreia como diretor e com o mesmo vigor na composição de um projeto que investiga a disfunção social e afetiva de alguém com uma extensa necessidade expressiva. Apoiado por um roteiro simples, sem malabarismos verbais, o filme transmite o inexplicável com a naturalidade que se espera de uma cinebiografia bem realizada.

cena de Caravaggio

O sol do marmelo, 1992. O filme ganhou o grande prêmio do júri no Festival de Cannes no ano em que veio a lume. Trata-se de um projeto que levou mais de duas décadas para sair do papel e Victor Erice sempre temeu não conseguir dar conta da proposta: capturar o esplendor de um marmelo no justo momento em que ele, já madura, está prestes a cair da árvore. Antonio López García é o artista plástico tema do filme. Como Cézanne, ele ao tentar captar a luz pela pintura, conclui que a luz é uma abstração e que jamais conseguirá passar para a tela essa transição entre vida e morte, a passagem em que a luz, seja a da autora ou a do crepúsculo não mais ilumina.

Caravaggio, 1986. O filme inglês dirigido por Derek Jarman é narrado em flashbacks; é o artista quem recorda fatos de sua curta existência e nos apresenta sua infância, as decepções do início da carreira, seus últimos sucessos, a amizade com um cardeal e sua relação destrutiva com um jogador muito atraente. A narrativa de Jarman expõe uma vida em clave barroca, pela maneira como apresenta as contradições entre as relações com as crenças religiosas e a identidade sexual do pintor. O filme recorre ainda a uma impecável cenografia no intuito de tornar palpável os lugares e a sensibilidade do próprio Caravaggio – numa fotografia que varia entre tons azuis e vermelhos e exploradora das sombras, capaz de criar no espectador a atmosfera de mistério e a paixão vivida entre o pintor, sua arte e seus modelos.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Inferno provisório, de Luiz Ruffato

L’amour, de Michael Haneke

A religiosidade clandestina de Hermann Hesse

O Bovarismo como pedra de toque na obra de Lima Barreto

Rupi Kaur: poeta reconcilia o passado das mulheres indianas e transforma sua dor em tema universal

Como alguém se transforma num escritor? Dez notas sobre o primeiro livro

Entre a interdição e a plenitude: treze livros para o Orgulho Gay

Clara dos Anjos: a chaga dos anos 20

O progresso do amor, de Alice Munro

Apontamentos sobre alguns textos curtos de Tolstói