A pintura em Proust


Edição de Paintings in Proust, de Eric Karpeles

Por esses dias enquanto esboçávamos um curto perfil do romancista francês Marcel Proust tocamos num interesse externado por ele ao longo dos sete volume de Em busca do tempo perdido, cujo primeiro livro No caminho de Swann cumpre seu primeiro centenário em 2013. Citamos um trabalho primoroso de Eric Karpeles, um dos primeiros que atentaram para essa aproximação ou gosto proustiano e quem preparou um livro/catálogo com mais de 300 páginas de reprodução das telas à Proust.

Karpeles conta que levou três anos para ler integralmente Em busca do tempo perdido. E só conseguiu a empreitada, primeiro da leitura, depois da pesquisa, porque já depois das primeiras centenas de páginas estava hipnotizado pelo conjunto literário proustiano. Notou também a impossibilidade de se afastar desse mundo e da sua relação com as artes plásticas. Antes de leitor do escritor francês, Karpeles é artista plástico e tem, portanto, uma vivência com o visual bastante intensa.

O trabalho de catalogação das imagens para seu livro não foi, entretanto, gratuito. Foi necessário intervalos entre a leitura de um volume e outro e depois de tudo para que ele se visse mais ou menos recuperado do efeito catártico a que estivera submetido e para que pudesse criar seu próprio modo existencial ao estilo proustiano, ainda que com pouco dinheiro, ao menos o isolamento do mundo num quarto forrado de cortiça. (Quando Proust perdeu os pais, ele largou em definitivo a casa da família e adquiriu um apartamento com um quarto forrado de cortiça onde virou as noites de insônia na escrita de sua grande obra).

A conclusão das mais de 3 mil páginas, conta Karpeles veio quando estava de viagem de trem entre Kuala Lumpur e Singapura. Depois terá voltado a certas passagens, como um devoto da obra. As passagens eram aquelas em que o narrador oferece pistas sobre outros artefatos artísticos, como música, teatro, arquitetura e, especialmente, obras de arte. Algumas composições descritas no texto foram totalmente imaginadas por Proust a partir de telas de artistas como Elstir, a quem o narrador tanto admira. Os outros,  alguns artistas de culto na época em que o escritor francês escrevia seus romances e hoje já quase esquecidos; e mais outros, autores de peças das vanguardas europeias e que ainda permanecem célebres contemporaneamente: Giotto, Bellini, Ticiano, Velásquez, Chardin, Whistler, Manet, Degas, Renoir, Picasso, todos vividamente evocados na escrita.

"Meu livro é uma pintura" - escreveu Proust numa carta a Jean Cocteau. E, de fato: estabelecendo uma espécie de crítica ou meta-arte  dentro da narrativa, o romacista usa pinturas de formas surpreendentes para a elaboração de uma determinada ação, seja para ajudar a explicar a complexidade da organização social criada no romance, seja para formular uma posição crítica sobre o determinada situação histórica ou mesmo oferecer contornos mais bem acabados sobre a aparência física ou psicológica da personagem. O narrador proustiano consegue captar na escrita a reverberação das nuances dessas pinturas, ou das esculturas ou desenhos também utilizados com frequência na composição narrativa. Os objetos artísticos assim dispostos também revelam, indiretamente, não apenas as observações argutas do próprio escritor, como se colocam como instantes de revelação sobre determinadas instâncias dos acontecimentos.

A ampla pesquisa de Eric Karpeles mapeia esses lugares do romance e focaliza mais de 100 artistas reais – sim, porque há os inventados pelo romancista – mencionados no Em busca do tempo perdido. O livro do estadunidense vai mais além. Uma lúcida introdução, por exemplo, examina de perto, entre outras coisas, a técnica de Proust de “integração interartes entre a pintura  e o texto escrito” porque a seu ver, personagens e imagens, não raras vezes, parecem fundir-se uns aos outros, como se fossem espelhamentos a revelar maior profundidade dos dois elementos evocados. Ou ainda, quando Karpeles demonstra em separado como se estivesse situado anteriormente ao próprio Proust, como se desmontasse ou revelasse in loco as bases de montagem do resultado final. Além da introdução geral, há uma breve introdução para cada entrada dos cerca de 200 trabalhos reproduzidos. E o leitor estará diante de parte da alma da própria obra proustiana; claro, com bem menos esforço que diante do texto real. E com uma visão bem mais deslumbrante também, porque, como terá admitido muitos dos que se aventuraram no romance proustiano, inclusive o próprio Karpeles, penetrar essas camadas da alma romanesca até atingir o seu colorido não é tarefa fácil. As vantagens do livro do estadunidense é inventariar outras vias de acesso e por a olho nu aspectos sutis da obra de Proust.

Não há uma reinvenção do curso da narrativa proustina como tem sido comum a determinados trabalhos do gênero. Karpeles busca está próximo do curso da narrativa e escolhe passagens representativas que não apenas mostram o uso das artes plásticas da parte do escritor francês como traduzem as razões pelas quais ele terá preferido a imagem para esclarecer melhor determinados aspectos no romance. Um exemplo disso pode ser dado no recorte feito por Karpeles de O caminho de Guermantes, na cena em que o narrador descreve como duquesa de Guermantes descreve a Princesse de Parme uma decoração escultórica na estrutura da cama onde o seu amigo estava deitado doente:

 “With the palm-leaves and the golden crown on one side, it was most moving, it was precisely the same composition as Gustave Moreau’s Death and the Young Man. (Your Highness must know that masterpiece, of course).” 

Gustave Moreau. O jovem e a morte

E Karpeles apresenta a composição de Gustave Moreau, O jovem e a morte que recupera não apenas a relação com da forma artística com a descrição do romance como ainda sugere ao leitor o estágio em que se encontra a personagem citada. (Aqui há um vídeo de cerca de 50 minutos com uma fala do próprio Karpeles sobre o seu trabalho; a fala  é intercalada pelos atores Alex Draper e Frances McDormand com leituras de trechos como este e a exibição das telas)

Através da relação entre a escrita e a pintura somos capazes de experienciar como maior riqueza de sentidos a realidade evocada pela narrativa. Ampliam-se ainda os horizontes de interpretação sobre o fenômeno evocado. De modo que um estado da personagem como no caso citado ou uma paisagem desenhada pelo romancista quando interceptado por outros territórios artísticos não é apenas um estado da personagem nem uma mera paisagem.

Graças às intersecções do gênero em vez de ver um mundo só, um nosso ou um do romancista, somos confrontados como vários mundos. As outras possibilidades de abertura dos sentidos estão em desnudá-los e conseguir outras vias de acesso ao narrado. Afinal, uma imagem, já dizem, vale mais do que mil palavras.




Comentários

sofia alice disse…
Bom !

Postagens mais visitadas deste blog

Inferno provisório, de Luiz Ruffato

L’amour, de Michael Haneke

A religiosidade clandestina de Hermann Hesse

O Bovarismo como pedra de toque na obra de Lima Barreto

Rupi Kaur: poeta reconcilia o passado das mulheres indianas e transforma sua dor em tema universal

Como alguém se transforma num escritor? Dez notas sobre o primeiro livro

Entre a interdição e a plenitude: treze livros para o Orgulho Gay

Clara dos Anjos: a chaga dos anos 20

O progresso do amor, de Alice Munro

Apontamentos sobre alguns textos curtos de Tolstói